Os significados encontram-se onde menos se espera. Há quem veja o futuro nas borras de café, outros nas folhas de chá. Roberto Martinez encontrava consolo nos números, destacando, por algumas vezes, a sua crença na numerologia. Não deixa de ser irónico que o seu último jogo pela seleção tenha sido disputado, justamente no dia seis, somando assim a sua sexta derrota ao serviço da Seleção Nacional.
A passagem de Martínez pela Seleção foi tudo menos consensual, com decisões questionáveis por parte do selecionador espanhol. A sua saída era já expectável. Martinez foi uma escolha da antiga direção da FPF, Proença nunca o escondeu, antes pelo contrário. No entanto, decidiu mantê-lo após a vitória da Liga das Nações, uma decisão que pode ser discutida como uma prova de confiança ou como falta de pulso na hora da tomada de decisão.
Voltemos ao princípio. Quando foi anunciado como substituto de Fernando Santos, já a dúvida pairava sobre Roberto Martinez, sobretudo devido ao seu currículo questionável como selecionador. Não é propriamente bajulador para a sua reputação ser conhecido como o “homem que desperdiçou uma geração de ouro”.


Ao serviço da Bélgica, o espanhol conseguiu o terceiro lugar no Mundial 2018, um feito bastante elogiável, apesar do talento que recheava o plantel belga. No Euro 2020, ficaram-se pelos quartos de final com a machadada final para Roberto Martínez a ser a prestação no Mundial de 2022. Uma autêntica tragédia, não há outra forma de o escrever. A Bélgica não passaria da fase de grupos e o que se viu foi uma seleção envelhecida, com quezílias nos bastidores e um aparente descontentamento com o selecionador. Tudo correu mal. Cabeças rolaram e Martínez não reagiu ao falhanço no Mundial. A seleção belga foi o protótipo, já a seleção nacional foi o projeto final de Martínez.
E é esse o maior legado de Roberto Martínez e o cunho pessoal que deixa na seleção: o desperdício de talento, repleto de ideias insípidas, com prestações capazes de enlouquecer qualquer um.
O pináculo da “qualidade” de Martínez foi observado na presente competição. Convocatórias duvidosas, substituições tardias e planos de jogo que priorizavam o passe lateral com o principal objetivo de chegar ao “El Dorado”: o apito que iniciava o prolongamento. O plano teria funcionado às mil maravilhas, no embate frente à Espanha, não fosse Merino estragar os planos à comitiva portuguesa. Gonçalo Ramos deve ter levado as mãos à cabeça, exasperado, visto que o próprio Martinez admitiu que o plano era colocar o ponta de lança no prolongamento, para tirar o maior proveito do português.


O melhor dos estrategas é o que planeia o futuro e adia o presente. Foi isso que presenciámos durante o período de Roberto Martinez. A prova clara de uma identidade forte e única foi nula, a seleção limitou-se constantemente a reagir, ao invés de assumir as rédeas. O jogo pobre praticado pela seleção das quinas era aborrecido, sem chama, sem garra.
A tão badalada geração de ouro de Portugal não foi além de umas oitavas-de-final no Mundial. No Euro 2024 caiu contra a França, após o penálti falhado de João Félix, mas já na altura se mostravam evidências da falta de capacidade da equipa portuguesa. Diogo Costa já tinha sido destaque, voltou a sê-lo neste Mundial. Mas nem tudo foi terrível.
O selecionador ganhou uma nova vida com a vitória da Liga das Nações contra a Espanha, uma seleção forte e assustadora para qualquer adversário. Levantaram-se dúvidas sobre a sua continuidade, Martínez ficou e o veredito desta decisão cabe ao leitor decidir. Ficam as saudades das conferências de imprensa do selecionador, repletas de positivismo e de frases feitas: “tenho orgulho da equipa” e “não quero ganhar o mundial, mas sim jogar bom futebol” são alguns dos êxitos do antigo selecionador.


O intuito da contratação do antigo selecionador foi clara. Roberto Martínez foi contratado para ser um político, um agregador dentro do balneário, capaz de gerir os egos que compõem o plantel português, à cabeça Cristiano Ronaldo. O dossiê CR7 é outro que levanta dúvidas, faltou coragem, mas deste tema já muito se falou. Jogam os que têm nome, há lugares cativos, a meritocracia ficou no banco de suplentes, ao lado de Gonçalo Ramos e de Francisco Trincão.
Lamento a energia negativa do texto, é difícil escrever sobre Roberto Martinez e sobre a sua passagem. Conquistou-se um troféu, algo positivo para a nossa seleção, mas fica a certeza que faltou mais nos momentos de maior dificuldade e nas grandes competições. A confiança era grande para o Euro 2024, acabou em desilusão. Sobre o Mundial de 2026, não há mais para dizer, imaginou-se tudo e foi um grande nada que se viu. Um deserto de ideias, que culminou em desilusão.
Segue-se Jorge Jesus. Veremos o que o futuro nos reserva.

