O Campeonato do Mundo dos holofotes

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O Campeonato do Mundo 2026 dificilmente será dos que se vão esquecer, mas talvez por outras razões além das bonitas. Já todos sabemos que este Mundial tem um gosto agridoce por ser o último de dois nomes que marcarão para sempre a história do futebol: Ronaldo e Messi. Além de tantos outros que não sofrem do “mal” de fazer parar países para os ver jogar. Mas ainda não tinha rolado a primeira bola e já se estava a ver que este ia ser o Mundial que mais ia dar que falar nos próximos tempos.

Começando pelo facto de ser organizado por três países (Estados Unidos, México e Canadá), sendo que um deles é um dos países com leis de entrada mais apertadas, e que, ao longo do último ano, têm sido incalculáveis as histórias de pessoas que não conseguem passar pelo controlo de fronteiras, mesmo tendo tudo organizado. Como tal, o facto das primeiras notícias terem sido precisamente sobre mães, familiares, amigos, namorados e, pasmem-se, os próprios jogadores não terem consigo o visto para entrar nos Estados Unidos, deixa o total de 0 pessoas surpreendidas.

EUA Jogadores Mundial
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

E isto é um dos pontos mais graves que se possa falar sobre este Campeonato do Mundo. Porque para justificar o investimento todo em estádios e dar aos Estados Unidos a posse da maior competição de futebol do mundo, é, no mínimo, uma questão de holofote. Isto é, apenas para dar a ilusão ao mundo que os Estados Unidos continuam a ser uma potência mundial. E quando se mistura desporto com política, o resultado tende a ser desastroso.

Já no Campeonato do Mundo de Clubes do ano passado houve a prova que aquele país não era o melhor para receber este tipo de competições. Não só pelas restrições, mas também porque culturalmente não são quem vive mais o futebol jogado com os pés. E acho importante referir aqui que eu não estou a colocar em causa a competição em si. Eu agradeço ao Mundial por não ficar quase três meses sem ver jogos, pela oportunidade de ver o meu país competir e ser aclamado como um dos favoritos, por ver os meus jogadores preferidos a jogar numa outra dinâmica. Mas nada disto invalida para que a minha opinião relativamente a este Mundial seja mais depreciativa.

Catar Suíça Mundial 2026
Fonte: Federação Catari de Futebol

Mas falando dos jogos propriamente ditos, também há várias coisas a referir. Começando pelas pausas de hidratação: a maior parte dos estádios, pelo menos dos jogos nos Estados Unidos, são climatizados já por causa do futebol americano, que é jogado, maioritariamente, durante o inverno.

Neste momento estamos no auge do verão americano, com temperaturas altíssimas, e é claro que se justifica a pausa de hidratação, mas apenas em alguns casos. Nomeadamente quando o estádio não é climatizado nem tem cobertura. Porque fora esse cenário, os jogadores estão a deparar-se com temperaturas amenas, nada diferentes do verão europeu e deste lado do globo (altura em que começa a época), com humidade controlada e com ar condicionado a funcionar. Por isso digam-me que necessidade há de parar o jogo duas vezes em cada parte, para uma pausa de hidratação que a única vantagem que trouxe, para já, foi de fazer com a equipa que estivesse inferior no jogo se sentisse mais confiante e conseguisse pressionar ligeiramente.

A quebra num jogo de equipas mais atacantes fica severamente afetada com esta pausa, e há provas disso. Tanto no jogo da Alemanha com a Costa do Marfim, como último jogo de Portugal com o Uzbequistão, ambas as equipas “mais fortes” ficaram desorientadas depois da pausa. Não é uma regra que faça sentido sempre, até porque o tempo de jogo é o mesmo com ou sem pausa. Mas compreendo que para os americanos faça sentido, afinal no futebol deles há diversas pausas no decorrer do jogo.

Fonte: FPF

O referido agora ainda é uma incógnita se é algo positivo ao negativo. A dificuldade que os árbitros estão a ter em dar cartões e assinalar faltas. Se por um lado concordo que as regras deviam ser como estão a ser praticadas no Mundial, e que em Portugal, pelo menos, já estava um descalabro nesta questão, por outro lado, fico confusa quando há situações que são claramente faltas, e algumas para cartão amarelo ou vermelho (sim, estou a falar da entrada do Messi) e nada é assinalado. Ainda não consegui entender quais são os critérios nesta matéria, mas confesso que tenho de parabenizar os vídeo-árbitros que estão a fazer um ótimo trabalho em ver o que o árbitro não consegue mesmo ali ao lado dele.

Entre estas questões, há também outra que explica bem a expressão do título: o preço dos bilhetes de jogo. Um comum adepto não consegue aceder a um bilhete de jogo, quanto mais a toda a logística de ir ao outro lado do mundo ver o jogo. Os preços dos jogos, com o aumento do preço das viagens de avião tornaram impossível para alguém que não fosse avantajado na conta, ou tivesse os patrocínios certos, ou até fosse alguém conhecido nas várias modalidades de hoje em dia, pudesse acompanhar a seleção nacional do próprio país nesta competição. É essa a cultura do futebol?

Os 90 minutos desde o apito inicial até ao final tem-nos dado futebol bonito, momentos que não esqueceremos e jogadas monumentais. Alguns momentos fora das linhas também. Mas o futebol está a ficar esquecido por todos aqueles que, não dominando a parte técnica, estão tão preocupados com o superficial como quem achou por bem aceitar a competição num país das fachadas.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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