Paco Jémez | O novo adjunto de NES

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Em Espanha rejubilou-se. Quando Nuno Espírito Santo percebeu que o seu West Ham precisava de algo mais para a acérrima luta pela manutenção e remoeu no seu próprio passado à procura de ajuda, lembrou-se de Francisco “Paco” Jémez, espanhol de 55 anos com quem partilhara balneário no Deportivo, lá na Corunha, entre 1996 e 98. A natural entreajuda entre guarda-redes e defesa-central deve ter proporcionado aos dois relação próxima; Diz-se que o convite foi pessoal e ideia do próprio Nuno, talvez percebendo que faltavam centelhas doutra ideologia, mais próxima da baliza adversária. No seguimento da contratação de Taty Castellanos e Pablo, Paco chegou pronto a acertar pormenores e dotar o conservadorismo de Nuno duma ousadia difícil de inventar quem para ela não tem disposição. A vitória em casa do Tottenham logo a abrir deixa antever boas coisas.

E o júbilo na sua natal Espanha, além da incredulidade, reproduziu-se mais fielmente nas redes sociais.  Paco é figura de culto, pela personalidade e o génio alternativo com facilidade para incendiar relvados e salas de imprensa na mesma proporção. Um pouco à imagem de Jorge Jesus por cá, Jémez deixou a sua pegada no futebol espanhol da década passada quando personificou na perfeição os valores de Vallecas, bairro madrileno casa do Rayo. As idiossincrasias ideológicas do terceiro clube da capital demarcam-se de todo o cenário hermano pelo forte cunho identitário em escala muito específica – não representam uma região ou uma cidade; É o único clube de topo, em Espanha e muito possivelmente na Europa, que chegou à elite em representação vincada dum bairro e das suas gentes, muito ligadas à causa proletária e de feição à esquerda, sempre na luta contra o autoritarismo e a favor dos trabalhadores e dos mais frágeis. Entre 2012 e 2015, o casamento entre instituição e Paco Jémez, sempre de sangue na guelra, foi coisa cinematográfica. O futebol repercutia os traços ideológicos – era a coragem de lutar olhos nos olhos contra todos e a humildade do esforço interminável – e a equipa uma extensão da massa adepta. Dizem que era normal ver o plantel em centros de apoio aos sem-abrigo a cozinhar e a ajudar na distribuição; Quando, em 2014, Cármen, uma senhora de 85 anos nascida, criada e formada em Vallecas, foi desalojada por dívidas familiares, o clube ofereceu-se prontamente a disponibilizar-lhe um final digno, oferecendo todas as condições. A equipa chegou a publicitar o incidente com um voluntário minuto de silêncio em campo enquanto os Bukaneros, principal grupo de apoio, mostrava duas faixas: #CARMENSEQUEDA, LOS DESAHUCIOS DE UN ESTADO ENFERMO e LA SOLIDARIEDAD DE UN BARRIO OBRERO. Um de muitos episódios de activismo concreto.

Em campo, foram os melhores anos do clube na La Liga. Um oitavo lugar em 2012-13 daria direito a Europa não fossem os problemas financeiros. À altura, o Rayo de Paco Jémez era o clube mais pobre da liga espanhola, com um orçamento anual a rondar os sete milhões (o Real de Mourinho contava com 500): para construir o plantel, só um jogador tinha requerido um esforço financeiro pela transferência. O peso da figura mediática que é ainda no país vizinho Paco Jémez mede-se pelas estatísticas desse seu Rayo, um oitavo lugar conseguido de maneira muito sui generis:  sim, registaram pior defesa que o último classificado Saragoça (66 golos sofridos contra 62), mas é consequência do vanguardismo atacante, já que só duas equipas na Europa registaram maior índice médio de posse de bola – Barcelona e Bayern. No ano seguinte, saíram 12, incluindo os três melhores marcadores da equipa (Léo Baptistão, Delibasic e Piti) e entraram 11. O processo alterou-se? Não, claro que não. A equipa chegou, em 2013-14, aos 60% de posse média – aliás, à quinta jornada, o Rayo sobrepôs-se nesse capítulo… ao Barcelona. Os culés não viam um adversário fazer-lhes isso desde 2008, 316 jogos antes!

«Se, além de sermos pequenos, formos cobardes, vamos levar pancada de todos os lados» disse certo dia Paco para explicar o seu estilo. O spielverlagerung.de, site especializado em análise tática e conversas de futebolês mais ao detalhe, escreveu sobre esse jogo com o Barcelona:

A few months ago, I watched the 0:5 defeat of Rayo Vallecano against Barcelona. Impressed by their (tactical) bravery, the high pressing and the nearly absurdly intense approach, I composed a little hymn of praise – which was harshly criticized. How could a team be any good if it lost that crushingly?

In the following weeks and months, Rayo displayed good performances, has the second most goal attempts in the Primera Division, ranks a third place in terms of possession, only outdone by Barca and Bielsa’s Bilbao and temporarily reached a great third place, despite having one of, if not the smallest budget in the league.

O peremptório elogio apoiava-se nas modernices revolucionárias que Paco dispunha em campo, nas abordagens táticas que só agora são moda e se tornam costume: o enfrentar do jogo posicional recorrendo ao atleticismo da marcação homem a homem, a construção curta a partir do guarda-redes em 2-1, com centrais abertos e os extremos a vir em apoio entre-linhas, em zona central.

Certo dia, quando o Celtic foi a Camp Nou registar 27% de posse para obrigar o Barça a uma vitória apertada (na segunda volta, aconteceria a famosa vitória escocesa com apenas 16%), Paco, que jogaria com o mesmo Barcelona uns dias depois, disse que «deixaria cair a cabeça de vergonha quando tivesse de olhar para os adeptos»[1] se enfrentasse o Barça da mesma maneira. Quando o portal dhnet.be o entrevistou em Junho de 2014, depois de assegurar a manutenção com ainda mais golos sofridos que na primeira época (68), Paco teve oportunidade de explicar o que raio então andava a tentar fazer, quais eram as bases do seu projecto e do seu entendimento pelo jogo. Ao contexto actual, parece descrição aprimorada da relação das suas ideias com as de Nuno Espírito Santo. As citações deixam-se novamente em inglês para evitar mal-entendidos:

 Every coach has their own way of seeing the game. Some teams need the ball to feel comfortable, while others prefer to play without it. These latter teams play on the counter-attack, so they enjoy letting you have the ball only to steal it back and quickly break out. Therefore, having the ball isn’t important to them, because keeping it allows the opponent to regroup at the back and close down the spaces. The important thing is that your team feels comfortable with the ball.

Quais são as influências de Paco? Ei-las, revelando-se também a sua simplicidade de processos:

There’s a saying in Spain that we’ve already invented all of football. Current coaches take these existing elements and make a few changes, but ultimately, it’s still the same, isn’t it? If you open the hood and delve into the mechanics, one resembles Sacchi’s Milan, another Cruyff’s Barça, or La Quinta del Buitre ‘s Madrid . Of course, there’s more intensity, more pace, the players are stronger, faster, and more powerful, but whatever formula you choose, someone else has surely already implemented it before you. Football is a long journey towards the same.

É preciso atentar ao contexto. Paco era coerente para dar estas respostas e pô-las em prática com um candidato à descida. Fundado em 1924, o Rayo passara, até Paco chegar, apenas dez épocas na primeira divisão espanhola. Por isso, não é difícil encontrar no Reddit, no concorrido r/soccer, alguém a perguntar se Paco era… louco. Era e é, da maneira mais positiva possível. Talvez por isso, depois de não conseguir aguentar o Rayo muito mais tempo na primeira, sucumbindo à inevitabilidade, não tenha encontrado quem o valorizasse de forma incondicional. Granada, Cruz Azul, Las Palmas, o Tractor de Toni, Ibiza. Na paradísiaca ilha, de hedonismo sem causa, não encontrou as melhores sensações, mas ainda foi a tempo de lançar mais uma das incontáveis larachas memoráveis em conferência de imprensa, quando citou o seu antigo treinador Juanma Lillo (o actual adjunto de Guardiola) para dizer que as estatísticas são como as tangas, que mostram tudo menos o essencial, para acalmar os ânimos depois duma série recorde de vitórias seguidas.

E sem tangas, NES consegue agora assegurar o rectílineo génio para o ajudar na grandiosa tarefa dos Hammers. Nuno chegou a 29 de Setembro e em 17 jornadas de Premier conseguiu três vitórias e cinco empates, não alcançando melhoria significativa em média pontual face a Graham Potter (de 0,92 passou para 0,94). As derrotas consecutivas com Wolves e Forrest, concorrentes directos, fizeram esmorecer os esforços de melhoria exibicional e Janeiro vem então em boa altura, mais não seja para arrumar a casa. Aos reforços já citados podem-se juntar mais caso se desbloqueie a transferência de Paquetá, mortinho para voltar ao seu Flamengo depois de lidar tanto tempo com as aflições dos tribunais. Brasileiros e ingleses tentam encontrar um consenso na ordem dos 30 milhões, o que já permitia aos Hammers um reforço da sua linha defensiva, que não consegue uma clean sheet desde… Agosto. Paco chega não para resolver esses problemas mas para mostrar outras possibilidades de exploração de espaços e criatividades e o efeito parece imediato, com a recente vitória em Londres. Antes disso, o West Ham não ganhava desde 8 de Novembro, há 10 jornadas.

Depois de encontrar o sucesso duma vida no leste de Madrid, Paco tenta encontrar voltar a ser feliz no leste de Londres, num papel secundário pouco familiar mas revelador duma sensatez pouco vista.


[1] https://www.football-espana.net/2012/10/26/jemez-play-like-celtic-embarrassing

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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