O Estudiantes voltou às bocas do Mundo. Os recentes desenvolvimentos na sempre emocionante Copa Libertadores devolveram aos Pincharratas o protagonismo de outros tempos.
O pontapé para a lua de Memphis Depay a enterrar o Timão e a meter de pantanas a Neo Química Arena não pode servir para desvalorizar o mérito do actual Estudiantes, encabeçado pelo ex-Mónaco Guido Carrillo, que se atreve a desestabilizar a hegemonia: desde 2019, a Libertadores é território brasileiro, sempre com vitória canarinha e com cinco das últimas finais a serem protagonizadas por duelo nacional (só River, em 2019, e Boca, em 2023, impediram o pleno no derradeiro momento de disputa pelo troféu); pior ainda – das últimas 22 eliminatórias a opor brasileiros a argentinos, só por quatro vezes houve triunfo albiceleste (são só quatro as vitórias argentinas nos últimos 40 jogos contra brasileiros).
Ao eliminar o Corinthians de Depay, Lingard, Labyad, Garro e Yuri Alberto, tendo ainda por cima Fernando Diniz na liderança, o Estudiantes ousa marcar um antes e um depois do antagonismo continental de clubes. Enquanto o River se vai eclipsando e o Boca vai frouxo, só com cabedal para Sul Americana – onde, pelo menos, já eliminou o São Paulo e vai defrontar o Vasco de Pedro Emanuel nas Semis – aproveita o Estudiantes para puxar a si o epíteto de melhor equipa argentina, ostentando orgulhosamente a sua tradição copeira, mesmo não sendo classificando como um dos Cinco Grandes (Racing, Independiente e San Lorenzo, além dos outros dois): ao triplete de Libertadores 68-69-70, a conquista em 2009, no cinquentenário da competição, que deu a conhecer ao mundo o génio tático de Sabella e serviu como último grande momento de inspiração dum jogador de culto como La Brujita, Juan Sebastián Verón.
A tradição internacional dos Pincharratas – alcunha que, segundo a versão mais aceite, alude aos fundadores, que eram sobretudo estudantes de medicina, e uma das suas formas de aprendizagem mais recorrente era dissecar, ou ‘pinchar’, o corpo de ratos… – nasce sobretudo com a tripleta do final dos anos 60, quando Osvaldo Zubeldía comandava Bilardo, o pai de Verón e outros de maneira sui generis, implementando o que ficou conhecido como anti-fútbol: além da inovadora armadilha de fora-de-jogo e pressão a todo o campo, a utilização da psicologia e dos mind games como arma preferencial – daí nasceu o rumor de Bilardo esconder alfinetes nas meias para atazanar adversários nas marcações mais directas, ou das investigações da vida alheia para os importunar mentalmente (uma das mais proeminentes anedotas contadas por Jonathan Wilson em Inverting The Pyramid é assim: um guarda-redes do Racing tinha uma especial e apertada relação com a própria mãe, que não queria que o filho casasse: mas o rapaz contrariou-a, encontrou o amor e emancipou-se. O desgosto foi tão grande para a senhora que o falecimento dar-se-ia poucos meses depois. Bilardo, alegadamente, aproveitando um pontapé de canto, chegou-se perto dele e deu-lhe os parabéns por finalmente ter matado a sua mãe).
Anti-fútbol à parte, esse Estudiantes e Zubeldía introduziram conceitos vanguardistas no futebol sul-americano, superiorizando-se até ao Manchester United de Bobby Charlton e George Best para se coroarem melhor equipa do mundo em 1968.
Depois dessa fase, só se veriam Pincharratas a lutar por títulos em 1982, quando o mesmo Bilardo assumiu os destinos do clube, antes de ser campeão mundial com Maradona, em 1986. Bilardo levou o Estudiantes ao título nacional de ’82 com Alejandro Sabella enquanto organizador e construtor de jogo. Há toda uma linha lógica de sucessão que explica 2009.
Sabella era um ‘enganche’ à melhor maneira argentina. Tanta prioridade dava à técnica, à visão e à qualidade de passe que assumia completamente o fenótipo dos maiores ‘10’s argentinos – fisicamente, era menos um. A lentidão deu-lhe a alcunha de Pachorra mas não impediu convites do futebol mais físico do mundo. Em 1978, o Sheffield United apostou nele, ainda que sem grande sucesso. Saltou ainda para o Leeds, mas quatro anos depois voltava à Argentina, pela porta do Estudiantes e de Bilardo. Ainda jogou no Grémio – onde contracenou com Valdo Cândido Filho ou Casemiro Mior, mais tarde o primeiro responsável pelo Nacional da Madeira europeu – e no México, antes de pendurar as botas e integrar a equipa técnica de Daniel Passarella como adjunto. Como sidekick do comandante, ganhou títulos pelo River Plate, pelo Parma, pelo Corinthians, pelo Monterrey, além de participar com a Albiceleste no Mundial de 1998.
Em 2006, voltaria com Passarella ao River, não conseguindo classificação melhor que um terceiro lugar no Apertura. Quem o ganhou foi o Estudiantes, com um tal de Diego Simeone no banco – um novato ‘Cholo’ chamou Juan Sebastian Verón ao fim de 11 anos na Europa, deu-lhe a braçadeira e construiu um onze à sua volta. À sétima jornada, o Estudiantes tinha 10 pontos. Doze vitórias nas treze jornadas seguintes deram o título aos Pincharratas, 23 anos depois daquele de Bilardo.
Simeone, que substitui Passarella no River em 2008, ainda é o responsável pela chegada à final da Sulamericana desse ano, perdida para o Internacional. O êxito estava próximo e a direcção do Estudiantes decidiu convidar o adjunto de Passarella, Alejandro Sabella (autêntico dóminó). Antigo jogador e campeão pelo clube, tinha um único senão a sua escolha: nunca tinha sido treinador principal.
Chegado a 15 de Março de 2009, Sabella não perde nenhum dos primeiros 15 jogos. Nos primeiros 30, perde só dois. Introduz um 4-4-2 clássico, em linha, com Verón ao lado do cão-de-caça Braña, deixando as alas para um tal de Enzo Pérez, à direita, e Benítez do lado contrário. À frente, não inventa: se o 4-4-2 é clássico, simplifica-se com parelha avançada composta por homem de área (Mauro Boselli) e um tecnicista irrequieto a descobrir espaços à sua volta (Gastón Fernández).
«Cheguei num domingo e jogamos pela Libertadores na quinta. Levei uma camisa do Estudiantes na mão, porque queria incutir neles desde o primeiro momento o que sentia pelo clube e o que significava a Libertadores na história do Estudiantes. Queria fazer com que eles vissem que eu chegava como mais um deles. Apostei na mística de início. E depois dei uns conceitos futebolísticos que pretendia na tática, mas sobretudo foquei o mental, porque é o motor de tudo, como em qualquer parte da vida. Se não está bem a mente, não pode estar bem o resto.»
Chega Domingo, dia 15, e estreia-se contra o Deportivo de Quito, a 19. O Estudiantes, que vinha de quatro derrotas consecutivas e três pontos em três jornadas de Libertadores, aplica um incontestável 4-0. Duas semanas depois recebe o Cruzeiro e repete-se o placard.
Em 2011, explicava ao La Nación. «Tenho um monte de superstições. A mente humana tem atalhos e caminhos que ninguém ainda pode decifrar. Dentro desse mistério é que eu enquadro as superstições. Estou convencido que sem trabalho, esforço, consistência, mas sobretudo trabalho diário, não se chega a lado algum; no entanto, gosto de certos rituais e tenho-os incorporados desde que me estreei na primeira. É só isso, não tenho nenhuma explicação coerente»
Filho de engenheiro agrónomo e professora, a infância e adolescência como classe média não o impediram de criar forte consciência política. Por isso, peronista se tornou, contra a vontade do pai (que, disse um dia, só não foi quadro militar na Argentina de Onganía por ter a coluna torta…) e desde sempre tentou fazer da sua vida uma força de expressão de ideais de esquerda, da comunhão proletária pela justiça social. Por isso, mesmo estudante de mérito na Faculdade de Direito de Buenos Aires, não era raro vê-lo a assentar cimento na construção de habitação social em bairros mais desfavorecidos.
«Muita gente vai pelo caminho equivocado da vida, mas com que possibilidades os brindaram na vida? Que possibilidades que tivessem a ver com saúde, educação, habitação e trabalho para garantir condições de igualdade?» dizia à revista Garganta Poderosa em 2014, meio de comunicação alternativo. «Vivi parte dessa militância (Peronismo nos anos 70) e sinto que, apesar de alguns equívocos que seguramente existiram, formaram parte duma juventude idealista que pensava um país melhor e que trabalhavam em benefício do próximo. Desde criança, já escutava e lia o que professava o peronismo».
Era então um Estudiantes assente nessas bases que começou a desbravar caminho. Foi eliminando progressivamente Libertad, Defensor Sporting (que tinha eliminado o Boca, ganhando na Bombonera!) e Nacional de Montevideo, contra quem Sabella sofreu o primeiro golo na competição – e por isso esteve Mariano Andújar 797 minutos sem sofrer golos, mantendo a clean sheet nos primeiros oito jogos internacionais sob comando do novo timoneiro, um recorde ainda hoje. A final seria um reencontro com o Cruzeiro, com a primeira mão a ser jogada em La Plata.
A apoteótica recepção da hinchada motivou também a pessoa errada. Fábio, guarda-redes brasileiro que faria 579 jogos pela Raposa e seria, em 2023, campeão da Liberta pelo Fluminense, foi buscar cinco indefensáveis bolas, manteve a baliza intacta e garantia a brasileiros o alívio do empate, levando para o Mineirão a certeza de que bastava vitória pela margem mínima.
Como em 2026, ninguém esperava que argentinos fossem estragar festa em solo brasileiro. De remontada, o Estudiantes fez 1-2 e La Brujita Verón lá levantou o mesmo título que a Bruja pai, Juan Ramón Verón, tinha levantado 39 anos antes. O título continental possibilitava a argentinos discutir o trono do futebol mundial com o Barcelona de Guardiola poucos meses depois. Com as mesmas premissas táticas e de abordagem emocional, o Estudiantes obrigou o Barça de Messi, Xavi e Iniesta a 120 minutos de futebol.
Sabella ainda ganharia um Apertura, em 2010, antes de aceitar o convite da Federação Argentina para orientar a Selecção. Começou em 2011 a preparar a Albiceleste que chega à final do Mundial do Brasil, com clean sheets em todos os jogos do mata-mata e que obriga novamente os favoritos da final a um prolongamento. Só ao fim de 112 minutos é que Götze fez de Messi e Sabella, após cinco irrepreensíveis anos como treinador principal, decidiu que era hora de dar o lugar a outro.
Em 2026, tenta o Estudiantes repetir feitos da mesma envergadura. Depois de eliminar Corinthians, segue-se o Flamengo de Leonardo Jardim – obstáculo aparentemente intransponível, mas, na tribuna, ainda há pincharrata com o espírito de 2009 bem presente: Juan Sebastián Verón, agora capitão dos gabinetes e líder máximo do clube.

