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Cerca de três meses após a ascensão ao primeiro lugar no ranking nacional de ténis feminino e a sua primeira chamada à seleção portuguesa de ténis para disputar a Fed Cup, o Bola na Rede esteve à conversa com Rita Vilaça, tenista bracarense de 23 anos de idade que treina atualmente na Escola de Ténis da Maia.
Bola na Rede (BnR): Janeiro de 2017 marcou a tua ascensão ao primeiro lugar do ranking nacional. O que significou para ti esse marco e quais foram as principais dificuldades sentidas para o alcançar?
Rita Vilaça (RV): Efetivamente nos anos anteriores, e por dois anos consecutivos, fui a número três nacional. Este ano, em janeiro de 2017, ascendi ao primeiro lugar. Obviamente que para qualquer atleta o objetivo é, a nível nacional, ser o número um. Fiquei bastante satisfeita no sentido em que não tive muitas oportunidades de jogar torneios nacionais. Os que joguei efetivamente correram bem, tanto o campeonato regional como, principalmente, o campeonato nacional, onde fui vice-campeã. O maior desafio foi conciliar a carreira internacional com a nacional.
BnR: Ainda no mesmo mês recebeste a notícia da tua primeira convocatória para disputar a Fed Cup. Como reagiste a essa convocatória e como podes resumir a tua experiência, em Tallinn, a representar a seleção portuguesa?
RV: Um atleta não se sente verdadeiramente concretizado até ser convocado para representar, no caso do ténis feminino, a seleção nacional na Fed Cup. Fiquei extremamente feliz, foi um marco muito importante no meu currículo desportivo. A experiência foi gratificante e espetacular. Contactei com algumas das melhores atletas mundiais e com atletas com as quais me vou cruzando no circuito. Não é comum fazermos parte da mesma equipa; [o ténis] é um desporto individual em que normalmente nos percecionamos como adversárias, e não como colegas de equipa. A experiência global, principalmente o facto de termos concretizado o objetivo principal, que passava pela manutenção no grupo I, foi muito gratificante.

BnR: O meio do ténis e, sobretudo, do ténis feminino em Portugal é algo restrito ao nível do número de atletas de topo. Como tal, as tuas colegas de seleção são também, frequentemente, as tuas principais adversárias. Como é que são as relações entre vocês dentro e fora de court?
RV: Dentro do court, a nível nacional e mesmo internacional, diria que somos todas muito civilizadas e respeitamo-nos bastante. Fora do campo também, embora no ténis feminino seja um pouco difícil esquecer o fator competitivo. Somos mais individualistas do que no ténis masculino, mas penso que fora do court temos um bom relacionamento e treinamos muitas vezes juntas. Penso que…há um pouco o pré-juízo de que no ténis feminino somos muito mais cruéis umas para as outras (risos), mas isso não é assim tão verdade.
BnR: Chegada aqui, até onde achas que pode ir a tua carreira no ténis? No fundo, quais são os teus objetivos a curto e médio prazo?
RV: Os objetivos a nível pessoal têm sido um pouco difíceis de definir no sentido em que dependo muito dos patrocínios que consiga ter para jogar. Não consigo competir tanto quanto gostaria pelos encargos financeiros associados às competições. Apesar de procurar ter alguma proatividade na busca de patrocinadores, nomeadamente financeiros (porque a nível de equipamentos tenho patrocínio), ainda não consegui arranjar patrocinador pelo que este ano. À partida, se assim se mantiver, continuarei a competir mais em Portugal, onde se realizarão mais competições internacionais, pelo que penso que os meus objetivos vão ter que passar pela maior e melhor prestação que conseguir nesses torneios.
BnR: Comparando o teu ténis da atualidade com o do passado, quais foram os aspetos nos quais sentiste uma maior evolução e quais são aqueles nos quais sentes que ainda tens que trabalhar?
RV: O ténis mundial, e principalmente o ténis feminino, tem vindo a evoluir numa ótica de maior agressividade e exigência física. Tenho procurado alterar o meu jogo nessa direção. Considero que a minha componente física é uma vantagem, bem como o facto de ser esquerdina – a minha perspetiva de jogo é ligeiramente diferente e obriga as adversárias a adotar táticas igualmente diferentes. Diria que tenho que trabalhar, principalmente, o meu ritmo competitivo que por vezes espelha a impossibilidade de jogar tantos torneios internacionais quanto gostaria. Nesses torneios, mais competitivos, confronto-me com jogadoras que competem constante e frequentemente durante todo o ano.
BnR: É sabido que a terra batida continua a ser a tua superfície de eleição. Para esta época a ideia passa por apostar em disputar torneios nessa mesma superfície ou por sair um pouco da zona de conforto?
RV: Infelizmente ainda não posso competir só em terra batida; seria o ideal para mim (risos). Efetivamente sinto-me mais confortável e as armas que possuo no meu tipo de jogo são mais orientadas para essa superfície. Como referi, vou jogar os torneios em Portugal, sendo que muito poucos são em terra batida. Agora, por exemplo, vai iniciar-se uma série de cinco torneios seguidos em que quatro são em piso rápido. Há sempre uma adaptação a nível tático e a nível técnico a fazer com a variação de superfície.

BnR: Ténis e estudos. Como se consegue conciliar estas duas atividades mantendo um sucesso considerável em ambas?
RV: É uma tarefa que dá trabalho (risos). Consegui concluir a Licenciatura, uma Pós-Graduação, e estou neste momento a frequentar um Mestrado sem ter deixado de jogar, mas realmente envolve restrições. Tento conjugar ambas, ou seja, em alturas em que os estudos me proporcionam mais “folga” procuro jogar mais e, consequentemente, no ténis, em alturas não competitivas procuro dedicar-me mais aos estudos. Atualmente estou centrada no ténis, o que faz com que frequentemente abdique de algumas tarefas inerentes ao Mestrado para jogar. O tempo não dá para tudo, oxalá desse, mas acho que é possível que os jogadores consigam conciliar as duas coisas.
BnR: Analisando o ténis e, em particular, a sua vertente feminina em Portugal, quais são as principais dificuldades sentidas pelas jogadoras? E mais concretamente, o que falta para, tal como na vertente masculina, Portugal colocar uma tenista consistentemente no top 100 mundial?
RV: A maior dificuldade que as jogadoras sentem, em Portugal, é efetivamente a nível de patrocínios, que as impedem de competir, e essa é uma facilidade que as atletas internacionais neste momento têm, acabando por competir muito mais. Este ano a Federação, felizmente, fez um esforço para que se realizassem torneios internacionais femininos em Portugal, o que para o ténis português é ótimo.

BnR: Acreditas que estão reunidas as condições para termos um tenista português no top 10 do ranking ATP ou WTA ou, pelo menos, acreditas que tal possa vir a ser possível no futuro?
RV: Acredito que a nível masculino no próximo ano, senão já mesmo este ano, teremos um jogador no top 10 mundial. A nível feminino, de momento, não temos atletas tão bem classificadas mas penso que se está a verificar uma sensibilização nessa direção.
BnR: Olhando para o panorama do ténis atual, qual é para ti a melhor tenista da atualidade e qual é para ti a tenista com maior potencial para vir a ser número 1 do ranking WTA?
RV: Bem, a Serena Williams não é a potencial número um, ela é…está sempre lá (risos). Diria que, para além de ter revolucionado o ténis feminino, é uma atleta fora de série. Quanto ao potencial para vir a ser número um penso que há cinco ou seis atletas que estão muito perto, mas…a Serena tem que se afastar um bocadinho (risos).
BnR: Há alguns anos havia a ideia de que o ténis era um desporto de longevidade reduzida para os seus praticantes. Porém, o fenómeno Australian Open veio comprovar que é possível chegar a fases avançadas e até mesmo vencer torneios do Grand Slam bem depois dos 30 anos de idade. O que achas que está na origem da maior longevidade desportiva dos tenistas na atualidade?
RV: Penso que a maturidade dos atletas em campo é maior atualmente. Não só no ténis masculino, como também no feminino, tem-se verificado essa longevidade. [Há alguns anos atrás] seria impensável que um atleta estivesse ao seu melhor nível aos 30 anos mas temos o caso do Federer, por exemplo, que parece que nunca jogou tão bem como agora.

BnR: Para terminar, algumas perguntas para respostas curtas:
1) Principal arma do teu jogo.
RV: O serviço e a direita.
2) Torneio preferido.
RV: De superfície seria Roland-Garros contudo, para mim, Wimbledon tem uma mística especial.
3) Melhor tenista feminina de sempre.
RV: Serena Williams, é indiscutível (risos).
4) Treinador com o qual mais aprendeste.
RV: Procurei retirar a maior quantidade de informação que me foi possível de todos os treinadores com os quais trabalhei.
5) Numa palavra, o que significa para ti o ténis?
RV: Isso é difícil (risos). Seria “turbilhão de emoções”, mas isso já são três palavras. “Paixão” é a palavra!
Artigo revisto por: Francisca Carvalho













