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Sub-17: O Mundial que ganhámos e as carreiras que podemos perder

João Prates · 3 min

João Prates Tribuna VIP

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João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.

Portugal voltou ao topo do futebol juvenil mundial, agora em Sub-17. Ser campeão do mundo Sub-17 é um feito que poucos países conseguem e prova que continuamos a produzir talento de elite. Mas quem trabalha no terreno, como eu, que já passou por vários balneários em Portugal e no estrangeiro, sabe que o perigo começa quando a festa acaba. Ao longo dos anos, vimos jovens brilhantes perderem-se aos 19 porque não tiveram orientação. E vimos outros, menos exuberantes aos 17, chegarem ao topo porque tiveram estrutura.

É por isso que este título mundial é uma oportunidade, mas também um alerta. O que acontece quando os holofotes se apagam? O padrão repete-se demasiadas vezes:
• Expectativas irreais colocadas em adolescentes.
• Pressão mediática e comparações constantes.
• Agentes, propostas e ruído externo.
• Um regresso ao clube onde, muitas vezes, tudo continua igual.

Como treinadores, já observámos este choque muitas vezes: um atleta sai de um Mundial como herói e, no dia seguinte, volta a ser apenas mais um número no plantel. É neste vazio que muitos se perdem.

1- Acompanhamento psicológico contínuo (não pontual)

Já vimos jovens com talento para jogar no topo falharem porque emocionalmente não estavam preparados. O problema não era técnico ou táctico, era interno.

Aos 17 anos, o adversário mais difícil que o atleta tem é:
• A frustração,
• O banco,
• O erro,
• A ansiedade de corresponder às expectativas.

É essencial garantir:
• Psicologia desportiva contínua,
• Desenvolvimento de competências mentais,
• Ferramentas de resiliência e autocontrolo.

Um título mundial não imuniza ninguém contra as dúvidas que chegam depois.

2- Mentoria 1×1 com ex-internacionais, são referências para estes jovens

Portugal tem ex-jogadores com experiência de elite. Usá-los apenas em palestras é insuficiente.

Precisamos de:
• Mentoria personalizada,
• Acompanhamento mensal,
• Orientação nas decisões de carreira,
• Partilha transparente de erros e acertos.

Ao longo da minha carreira, vi jovens mudarem após conversas com jogadores mais experientes. É um impacto silencioso, mas gigantesco.

Portugal Jogadores Mundial Sub-17
Fonte: FPF

3- Empréstimos inteligentes e planeados (não “soluções de último minuto”)

A transição para o futebol sénior é o verdadeiro filtro. Sem minutos de jogo, o talento não se transforma em jogador. E sem competição real, nunca passarão de “promessa”.

Empréstimos para clubes de escalões inferiores podem ser fundamentais, não pelo glamour, mas pelo que realmente constrói carreira: minutos, erros, ritmo e resiliência. Mas há um desafio: muitos jovens querem saltar etapas e recusam realidades competitivas que, no fundo, são aquilo que os faria crescer, mas não aceitam por considerarem um desprimor jogar nos campeonatos inferiores.

Como treinador que trabalhou com equipas em luta pela permanência, sei que um jovem talentoso precisa sobretudo de ritmo competitivo, confiança e responsabilidade. E isso só se constrói a jogar, não a treinar.

4- Educação financeira e proteção contra oportunistas

Aos 17 anos, tudo muda rapidamente: contratos, fama, dinheiro, influência.

É obrigatório garantir:
• Formação em contratos, impostos e direitos de imagem,
• Regras de representação mais rigorosas,
• Proteção jurídica para jovens atletas.

Proteger talento não é paternalismo. É estratégia nacional.

5- Um plano de carreira para cada jogador, um verdadeiro GPS competitivo

Cada atleta deveria sair deste Mundial com metas de minutos, objetivos técnicos claros, indicadores físicos específicos e caminho com etapas definidas até chegar ao futebol sénior.
O futebol recompensa quem sabe para onde vai e penaliza quem anda à deriva.

6- O impacto económico: perder talentos é perder milhões

Isto raramente é discutido, mas devia ser: cada jogador que chega à elite representa milhões em valor de mercado, competitividade e futuro.
Perder metade de uma geração Sub-17 é desperdiçar riqueza desportiva e económica.

Portugal forma demasiado talento para continuar a vê-lo desaparecer antes de chegar ao nosso próprio futebol sénior. Concluindo, não basta ganhar um Mundial. Ganhar um Mundial Sub-17 é extraordinário, mas é apenas o início. A verdadeira pergunta é: vamos transformar estes jovens em profissionais de topo, ou repetir a história de talentos que desapareceram aos 20?

Ao longo da minha carreira aprendi uma verdade simples: o talento de 17 anos vence jogos. O talento acompanhado e bem orientado constrói carreiras. O futuro depende do que fazemos agora, não do que celebrámos ontem.

João Prates

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