O Athletic e uma política única de contratações

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O País Basco é uma região especial, onde as raízes são valorizadas. Toda a região vive um forte nacionalismo, que influenciou a história de Espanha como um todo, principalmente no século XX. A Euskadi possui uma língua própria, que poucos conseguem entender se não são nativos, tal como costumes que não existem no resto do país. A Comunidade Autónoma tem direito a benefícios que outras não possuem, que lhes foram dados para ‘apaziguar’ o clima de independentismo. No futebol, tal como nas outras áreas, o País Basco é igualmente diferente. O desporto rei vai muito além de Athletic ou Real Sociedad, há vários históricos na região. Todos eles, com algo em comum: a valorização do que é da casa. Há poucas zonas do globo que podem afirmar que conseguem produzir mais talento que o País Basco, que conta com fortes canteras e escolas de formação que produzem jogadores com poucos meios. A instituição tem que ter princípios básicos. No norte de Espanha, um deles é dar oportunidades à prata da casa.

Dentro do Athletic, não há uma norma específica para este ponto, nem percentagens de jogadores da região a serem integradas num plantel. Há, sim, uma lei não escrita, mas que quem gosta de futebol conhece na perfeição. A formação de Bilbao somente utiliza jogadores originários do País Basco, ou que tenham crescido na região, mesmo que nascessem fora da mesma. Não há um papel que tenha esta regra escrita, mas a mesma é respeita e está na memória de todos os que entram pela porta do San Mamés.

O Athletic é (quase) um milagre. O seu mercado é muito mais reduzido que o dos restantes emblemas, mas consegue concretizar campanhas na La Liga interessantes, possuindo um palmarés de fazer inveja a 99% dos clubes. Há que ter ‘imaginação’ e contratar os melhores jovens da região, de modo a serem moldados em Lezama.

Nico Williams Athletic
Fonte: Athletic

A equipa, que até conta com um nome estrangeiro, cresceu pelas mãos de imigrantes ingleses (com o vermelho e o branco a servirem de ‘imitação’ ao Sunderland), mas que foi recebido de braços abertos pelos cidadãos. O Athletic passou a ser uma equipa de todos desde muito cedo, com um forte carácter nacionalista. Em 1911, decidiu-se apostar única e exclusivamente por atletas formados no País Basco, uma medida que agradou e que serviu de valorização da zona, numa fase em que Espanha estava longe de viver os seus tempos áureos.

Porém, não foi caso único. A Real Sociedad também aplicou esta política de transferências por vários anos, mas ao longo do tempo começou a ser ultrapassada e o receio de uma queda até ao abismo, colocou um ponto final na utilização única do jogador basco. John Aldridge foi comprado em 1989 e tornou-se no primeiro de muitos estrangeiros a chegar ao Anoeta (que ainda assim mantém uma forte aposta na formação, adensada pelo sistema 60/40 desenvolvido por Roberto Olabe, enquanto desempenhava a função de diretor desportivo nos txuri-urdin).

Contudo, voltemos à Bizkaia. Por muitos anos, durante o Franquismo, o Athletic assumiu-se como o grande representante do nacionalismo basco. Francisco Franco odiava as regiões autónomas, rebaixando as mesmas, promovendo uma união à volta de Madrid e do castelhano. Contudo, não podia fazer nada contra a política da instituição (que até viu o seu nome ser mudado para Club Atlético de Bilbao), por muito que desejasse o término da mesma.

Oihan Sancet Athletic
Fonte: Athletic

Com o fim do sistema ditatorial, o Athletic e a Real Sociedad mantiveram-se como bastões de uma identidade. Em 1976, no primeiro Dérbi após o regresso da Monarquia Constitucional, numa fase em que ainda se davam os primeiros passos para a saída da Ditadura (ao contrário de Portugal, Espanha não saiu do regime com uma revolução), os capitães das duas equipas entraram com uma bandeira do País Basco, feita pela irmã de Josean de la Hoz Uranga, jogador da turma de San Sebastián. O sentimento estava vivo, com fervor. Por muito que existissem duas instituições rivais dentro de campo, todos eram colegas na batalha contra o centralismo.

Ainda que durante vários anos o Athletic conseguisse assumir o posto de ‘terceiro grande’, atrás de Barcelona e Real Madrid, a equipa começou a ficar para trás, deixando de poder lutar pela La Liga. Se em parte isto é culpa da sua política de contratações? Verdade, mas pelo San Mamés não há hipótese de chegarem troféus sem a sua identidade. Por muito que o futebol seja cada vez mais um negócio, protagonizado por milhões, por empresários, por transferências que nem sequer fazem sentido, a tradição ainda é o que era pelos lados do rio Nervión. Vende-se pouco e compra-se ainda menos pelos lados de Bilbao, consequência dos entraves autoimpostos. Mas trabalha-se bem os jovens e o scout da formação.

É, em parte por culpa desta política formativa, que a seleção espanhola conseguiu tantos títulos nos últimos anos. O Athletic produz talento e consegue retê-lo por várias épocas, já que vários jogadores sabem que não chegará alguém de fora para lhes tirar o lugar. Além disso, os atletas ganham um sentimento de ligação ao clube quase inimitável. Olhando para a seleção que conquistou o Euro 2024, quatro atletas passaram pelo Lezama, enquanto que outros foram formados no País Basco e Navarra, desenvolvendo o seu talento pela Euskadi, acabando por gerar triunfos celebrados por toda uma nação. Luis de la Fuente sabe que na La Liga tem um viveiro de elementos, não se restringindo às equipas que por norma disputam o título.

Iñigo Martínez Athletic
Fonte: Athletic

Vários atletas assinam contratos de longa duração, preferindo permanecer no clube toda a sua carreira ao invés de rumarem a um gigante europeu. O caso de Nico Williams é o mais recente. O extremo estava próximo de assinar pelo Barcelona por uma verba a rondar os 58 milhões de euros, mas prolongou o seu vínculo até ao verão de 2035. Atenção, estas renovações não são algo exclusivo do Athletic, com as equipas do País Basco e de Navarra a conseguirem manter as peças vitais dos seus projetos por vários anos.

Os leones não deixam de estar atentos ao mercado, mas são bem mais seletivos. Também se tornam mais ‘poupados’, com menos investimentos. Somente por oito vezes na história, o Athletic comprou jogadores por 10 milhões de euros ou mais. O líder disparado desta lista é Iñígo Martínez, comprado à Real Sociedad por 32 milhões de euros a cláusula de rescisão do defesa central em 2018.

Os mercados do clube são tímidos, sabendo que, com a concorrência pesada da Real Sociedad, Deportivo Alavés ou até mesmo Eibar, é complicado contar com todos os talentos da região. 2025/26 e 2024/25 foram exceções à regra, com investimentos em Jesús Areso (12 milhões de euros, proveniente do Osasuna), Aymeric Laporte (10 milhões de euros, que regressou, oriundo do Al Nassr) ou Álvaro Djaló (15 milhões de euros, após se ter destacado no Braga). Entre 2021 e 2024, não houve qualquer investimento, ainda que tenham chegado jogadores livres. A prioridade é a promoção de atletas, que têm a missão de suceder aos mais velhos e liderarem o projeto.

Jesús Areso no Athletic
Fonte: Athletic

É mais do que certo que elementos como Mikel Jauregizar, Peio Canales, Adama Boiro, Alejandro Rego, Selton Sánchez ou Manex Lozano vão fazer parte de uma geração que durará vários anos de vermelho e branco. Para já, somente o primeiro é indiscutível e alguns destes valores encontram-se cedidos. A tentação do mercado impede que os responsáveis procurem fora de casa, realizando investimentos que podem ser catalogados de sem sentido, dado o talento existente no Lezama.

Possivelmente, o mais ‘divertido’ do mercado de transferências do Athletic é a colocação dos jogadores. O Athletic B está na Primera RFEF e a equipa, em vários casos, deseja que as suas promessas passem por um ‘escalão intermédio’. Para isso, é necessário identificar bem quais as equipas da La Liga 2 podem ajudar ao desenvolvimento dos atletas. O Racing Santander em 2025/26 é o parceiro favorito, lugar que foi ocupado pelo Mirandés na última temporada.

Falando em parcerias, a sobrevivência do Athletic passa pelas mesmas. Tudo culpa deste mercado recheado de impedimentos. A instituição sabe perfeitamente que tem que garantir as grandes promessas da zona, de forma a que não se escapem para as equipas rivais ou até mesmo para os clubes de Espanha com outro poderio como o Real Madrid e o Barcelona, que cada ano que passa olham mais para a formação como uma solução de um investimento menor, com rendimento a longo prazo. Assim sendo, o Athletic (tal como outros), assinam uma série de protocolos com instituições (com menor traquejo), procurando que os melhores talentos das respetivas equipas, rumem a Lezama, para seguirem a sua evolução em Bilbao. O segredo passa mesmo pela identificação destes talentos e a facilidade de comunicação entre as duas partes, com estes protocolos a darem vantagens aos dois lados, não apenas ao Athletic.

Esta política de contratações, tema de conversa em todos os mercados de transferências, não aparenta ter um fim. O clube continua com resultados satisfatórios, disputando de forma quase anual os lugares de acesso às provas continentais, além de disputarem de forma honrosa a Taça do Rei. Não se vê uma quebra a curto prazo pelos lados de Bilbao, com vários jovens a explodirem época após época com a vermelha e branca vestida. Ainda assim, na mente da maioria dos responsáveis do desporto rei a ideia que prevalece é que o futebol é um negócio. Numa situação de maior dificuldade, veremos o Athletic com jogadores ‘fora do sistema’? Certamente que os adeptos o impediriam. Apesar de todas as especulações que podem surgir pelo tema, há que saber desfrutar o presente e admirar o passado. O que se faz no País Basco não é para todos. Jogar no Athletic, somente para quem é de lá.

Peio Canales Athletic
Fonte: Athletic
Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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