A água micelar do Casa Pia que limpou os artifícios com que o FC Porto tem maquilhado as lacunas

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O FC Porto não era uma equipa perfeita nem o é, mas até então tinha sido capaz de maquilhar as imperfeições com uma linha defensiva praticamente impenetrável e feito o suficiente para, lá à frente, chegar a situações de vantagem. O Casa Pia não é uma equipa perfeita e o lugar assim o sugere. Mas Álvaro Pacheco descobriu sinergias e funcionalidades que aproximam a equipa do sucesso. Não houve perfeição em Rio Maior e só assim se atingiu a surpresa.

A questão Jakub Kiwior é pertinente, mas não definidora, assim como as segundas voltas de Francesco Farioli, sendo um dado relevante, não se tratam de uma ciência exata. O FC Porto até demonstrou, em certos períodos, capacidades de circular a bola com mais fluidez que o habitual, mas foi controlado pelo Casa Pia que pouco concedeu. As derrotas são, tal como as vitórias épicas, ocasião perfeita para exageros que não se manifestam necessariamente na realidade. Até porque, aliado ao demérito dos dragões num jogo bem trémulo, há muito mérito no Casa Pia que é preciso realçar.

Ofensivamente, há méritos no que Álvaro Pacheco trouxe para os gansos, particularmente nos corredores. Tiago Morais voltou a ser enquadrado à direita e o Casa Pia funcionou pelos dois lados, contrariando a tendência que apontava ao lado esquerdo um corredor mais limitado. De resto, na estratégia utilizada pelo Casa Pia na primeira hora de jogo, não houve jogador mais relevante que o extremo.

Casa Pia Jogadores
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

A equipa da casa começou com linhas baixas e um bloco compacto – que foi tentando subir – e bem longe da baliza adversária. Na primeira vez que chegou perto de Diogo Costa, marcou golo da única forma possível. Assim que o Casa Pia recuperava a bola, Tiago Morais começava a correr para a receber. Com os laterais azul e brancos envolvidos no processo ofensivo, foi esta a zona identificada pelos gansos para agredir. De resto, a descrição do primeiro golo traduz na perfeição um dos caminhos identificados.

Tiago Morais correu, segurou a bola e libertou-a na perfeição para o corredor esquerdo onde Abdu Conté apareceu. É um lateral com valências físicas e uma precisão técnica importante numa equipa com estes argumentos. O cruzamento foi meio golo para uma zona onde apareceu de rompante Gaizka Larrazabal. É há muitos anos uma autêntica locomotiva pelo corredor, com velocidade para chegar de trás para a frente. Voltou a ser decisivo.

Falta, na equação dos destaques ofensivos do Casa Pia, enquadrar o jogo de Jérémy Livolant. Não se perde a jogar à direita e, procurando constantemente terrenos interiores, conseguiu, por um lado, receber nas costas dos médios do FC Porto e, por outro, atrair Martim Fernandes para libertar o corredor para Abdu Conté receber com tempo e espaço. Tecnicamente marca diferenças no Casa Pia.

Abdu Conté Martim Fernandes FC Porto Casa Pia
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Defensivamente, também há muito de bom que se pode adaptar ao Casa Pia, desde logo pela forma como defendeu Samu e condicionou o impacto do avançado no jogo do FC Porto. «Procuram muito o Samu e o Samu cria muita variabilidade no jogo associativo para atrair a marcação, e depois têm logo os extremos e os médios ali a atacar aquele espaço, deixado pelo central na atração. Ou, quando vem ele próprio tabelar e atacar a profundidade, porque o Samu tem essa variabilidade e uma importância muito grande no jogo», descreveu Álvaro Pacheco o impacto do espanhol no jogo dos dragões, funcionando como uma espécie de parede para enquadrar jogadores de frente e permitir a entrada dos médios ou dos extremos para finalizar.

Apesar do crescimento do avançado, continua a funcionar melhor com ações mais simples, pouco condicionado ou incomodado. Foi precisamente isso que não aconteceu, com Khaly e David Sousa, em dimensões diferentes, a superiorizarem-se ao espanhol. Khaly tem todo o potencial para chegar a outros patamares. Fisicamente, é absolutamente superlativo e tem na velocidade uma arma para corrigir alguns erros que ainda vai cometendo nas abordagens. Fez uma exibição de olho cheio a chocar contra o espanhol e a contê-lo. Vive no risco entre a imaturidade e a ousadia. Quando encontrar o balanço perfeito, estará pronto para subir o nível. David Sousa é mais sóbrio no seu jogo, daí não ser tão evidente a sua participação. Foi fundamental a controlar o espaço aéreo e a defender a área e, tal como João Goulart à direita, conseguiu controlar bem as entradas dos médios na área e as movimentações de Samu. Quando nem tudo correu tão bem, Patrick Sequeira chegou-se à frente. Mais uma exibição que garantiu pontos ao Casa Pia por parte do guarda-redes costa-riquenho.

David Sousa Martim Fernandes FC Porto Casa Pia
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

O Casa Pia soube juntar linhas e defender a zona central e o FC Porto não teve arte ou engenho para criar o suficiente para dar a volta a uma desvantagem com que raramente se depara. Geralmente é na situação contrária, baixando linhas e aproveitando espaços em vantagem, que o FC Porto, pelo transporte e chegada dos médios e pelos movimentos de fora para dentro dos extremos consegue criar perigo. Na situação contrária, foram praticamente inconsequentes muitas das ações.

Há limitações no perfil dos extremos para reagir a situações de desvantagem. Borja Sainz não tem criatividade suficiente para desequilibrar por si e precisa das zonas de definição para acrescentar algo ao jogo. Pepê vive mais, nesta fase da carreira, do controlo do que do diferente. William Gomes, o mais irreverente dos extremos, não está no melhor momento da época e teve uma entrada para esquecer. Oskar Pietuszewski é quem mais bem traduz o perfil pedido por Francesco Farioli para um extremo que jogue aberto, mas está numa fase de adaptação e maturação bem diferente.

Borja Sainz Khaly FC Porto Casa Pia
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Neste cenário, também é estranha a forma como o treinador do FC Porto lançou Victor Froholdt – um médio de campo aberto e condução – quando Rodrigo Mora ficou o jogo todo no banco. Mais facilmente surgia algo do pé direito do português, num relvado em mau estado, é certo, mas sem grande espaço para jogar, do que na energia que o dinamarquês poderia transportar. A substituição forçada – que fez entrar um dos melhores em campo no FC Porto – ou a preferência em Deniz Gul para um 4-4-2 com mais centímetros são justificações curtas perante a qualidade dos pés de Rodrigo Mora.

Que não se ignore, no entanto, o impacto de Alberto Costa vindo do banco, num contexto em que, pela procura de defender o corredor central, havia espaço para galgar por fora, e que pode permitir a Martim Fernandes rodar também à esquerda, onde pouco perde no seu jogo mais pensado para explorar terrenos interiores. Ficou também a boa exibição – mais dentro do que fora deste – de Pablo Rosario, que foi simultaneamente o jogador do FC Porto que melhor explorou a chegada à área, a organização de jogo e que terminou como central. Cada vez mais certeza no FC Porto.

Sempre que o FC Porto caiu, reagiu e colocou-se de pé. Esta queda surge numa altura crucial, com um mês de semanas cheias para o treino e antes de um Clássico que podia sentenciar definitivamente – ou perto disso – as contas do campeonato. De poder ficar com 10 pontos de vantagem no primeiro lugar, o FC Porto corre agora o risco de ficar com somente um. Mas também pode retomar os sete, uma margem confortável. Álvaro Pacheco confessou ter pedido à equipa foco para evitar um relaxamento competitivo. O FC Porto pede-se que relativize a derrota. O mais importante é mesmo assimilar os sinais menos bons que já eram anteriores ao mau resultado e que se traduziram neste.

Pablo Rosario FC Porto Casa Pia
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Já falou da importância de parar o Samu na capacidade que este tem de se associar aos colegas. Neste aspeto, qual a importância do Khaly, pela antecipação e velocidade, e do David Sousa, pela sobriedade e defesa da área, na capacidade defensiva do Casa Pia?

Álvaro Pacheco: Sem dúvida. O Samu tem uma importância no jogo ofensivo do FC Porto. O FC Porto tem muito jogo por fora, muito fortes nas combinações e a atacar zonas no último terço para cruzar. Depois, não só com uma primeira linha, mas também uma segunda, e muita gente a atacar a zona dos defesas para poderem finalizar. Quando se fecham esses espaços, procuram muito o Samu e o Samu cria muita variabilidade no jogo associativo para atrair a marcação, e depois têm logo os extremos e os médios ali a atacar aquele espaço, deixado pelo central na atração. Ou, quando vem ele próprio tabelar e atacar a profundidade, porque o Samu tem essa variabilidade e uma importância muito grande no jogo. Durante a semana treinámos e criámos cenários para aquilo que o FC Porto nos podia provocar e percebemos as soluções que podíamos ter para sermos capazes de anular aquilo que o Samu consegue provocar à nossa linha defensiva. O segredo foi eles estarem confortáveis porque durante a semana trabalharam muitos cenários que encontraram hoje. O jogo vai desenrolando e começas a ganhar e vais ganhando confiança, tranquilidade e crescendo no jogo. Toda a equipa, mas principalmente a linha defensiva, ao longo do jogo foram crescendo. Estão todos eles de parabéns.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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