Benfica e Real Madrid enfrentaram-se na noite de terça-feira, com a esperança de arrancar da melhor forma possível a corrida pelo acesso aos oitavos de final da Champions League. O ambiente da Luz era fervoroso, com os adeptos da casa a prepararam-se para apoiar a equipa durante os 90 minutos. Se houve algo que não desiludiu foi a primeira parte.
As duas equipas mostraram que estavam ali para ganhar, sem receios, bem estudadas. José Mourinho, com toda a sua experiência, não mexeu quase nada. Relativamente ao jogo da fase de liga, somente saiu Georgiy Sudakov para a entrada de Rafa Silva, mais veloz, com maior capacidade de agitar, mais driblador. O internacional português poderia ser um perigo, caso as linhas da defesa e do meio campo dos merengues não estivessem sincronizadas, já que o médio ofensivo gosta de ‘passear por aí’. Já Álvaro Arbeloa apareceu com um Real Madrid mais experimentado, com as suas ideias totalmente impostas, num 4x4x2 sem um extremo puro (Vinícius Júnior no papel estava mais perto de Kylian Mbappé), mantendo a ideia que aplicou frente à Real Sociedad, com um Eduardo Camavinga a reforçar a faixa da esquerda, para limitar a atividade do Benfica, que constrói muito mais a partir da sua direita.
Houve quatro nomes que se destacaram ao longo da primeira parte dentro de campo, o que espelha o equilíbrio de um jogo que tinha tudo para ficar na memória dos adeptos, pelos lances disputados, pelas ocasiões criadas, pelas defesas realizadas. Do lado do Benfica, Fredrik Aursnes e Anatoliy Trubin provaram continuadamente por que razão são pilares do plantel. O norueguês é um organizador completo. No papel, aparecia no meio, junto a Leandro Barreiro. Porém, esteve à direita, onde logo aos 4’, fez um cruzamento que apenas o corte fundamental de Antonio Rudiger evitou o golo, esteve à esquerda, auxiliando Andreas Schjelderup, esteve atrás, a recuperar bolas.


Fredrik Aursnes é futebol total naquilo que se pede a um centro campista que sabe ter bola nos pés e por isso é a extensão de José Mourinho dentro de campo. Ele sabe perfeitamente o que fazer e quando tem que fazer, explorando bem as debilidades do adversário. Já o guarda-redes não marcou, mas evitou que os merengues abrissem o marcador na primeira parte, com defesas de outro nível. Quando o Real Madrid acelerou, somente Anatoliy Trubin os conseguiu parar, defendendo remates a Kylian Mbappé, Vinícius Júnior e Arda Guler. O ucraniano impediu uma vantagem que ao intervalo teria sido vital para os espanhóis.
Já do lado do Real Madrid, ‘os conjugues’ dos atletas do Benfica: Arda Guler e Thibaut Courtois. O turco era a grande arma de criação do Real Madrid. José Mourinho sabia disso e tratou de ‘isolar’ o máximo possível o jogador, evitando que lhe chegassem bolas e que o mesmo conseguisse espaço para a construção, principalmente na metade do terreno de jogo que pertencia ao Benfica. Não foram uma nem duas vezes que vimos Aursnes a marcar o médio ofensivo, correndo para trás de modo a evitar que Arda Guler pudesse causar estragos. Tal como Federico Valverde, o atleta beneficiou de alguma mobilidade e a pouco e pouco conseguiu desequilibrar. O Real Madrid movimentava-se para provocar o erro no Benfica, que passou a deixar o jogador sozinho mais vezes. O seu espetáculo começou a partir dos 30’, onde passou a ter mais vezes a bola no pé, procurando ligações com Kylian Mbappé e Vinícius Júnior, mas também tentando jogadas em nome individual. A mais perigosa surgiu já perto do apito de François Letexier para o intervalo, partindo da direita para o meio. Somente Anatoliy Trubin o conseguiu travar.
O guarda-redes belga provou porque é um dos melhores do mundo, trazendo estabilidade a uma equipa que podia ter entrado muito melhor no encontro. Thibaut Courtois evitou que Fredrik Aursnes abrisse o marcador cedo, quando teve nos pés uma oportunidade de ouro, mas ainda fora da grande área. Dean Huijsen, aos 24’, despejou uma bola para fora da área e o médio escandinavo rematou para um golaço, somente parado pelo guardião.


A segunda metade do jogo tinha tudo para ser épica, com um primeiro tempo como grande aperitivo. O que impediu tal espetáculo? O grande objetivo de um jogo de futebol: o golo e as suas consequências. O gesto técnico de Vinícius Júnior é brutal, somente ao alcance dos melhores do mundo, batendo Anatoliy Trubin com um remate cruzado, aos 50’. A partir daí, começou o pesadelo.
O internacional brasileiro decidiu celebrar junto da bandeirinha, num gesto que pode ser considerado provocatório, mas algo habitual em Vinícius Júnior, que foi até admoestado com um cartão amarelo. Em seguida, uma acusação de racismo que parou o mundo. Vinícius Júnior acusou Gianluca Prestianni de lhe chamar ‘macaco’ e o protocolo antirracismo foi ativado. Não há uma imagem que prove que o argentino proferiu tais palavras. Mas para tapar a boca com a camisola, não foi para elogiar o adversário. O jogo esteve parado 10 minutos, mas tudo o que aconteceu em seguida saiu mais do coração, do que da razão. O jogo partiu-se, Vinícius Júnior foi alvo de um coro de assobios monumental, objetos das bancadas foram atirados… um espetáculo degradante. José Mourinho (que acabou expulso) assumiu na conferência de imprensa que não houve partida na segunda parte. Não é totalmente verdade. Os jogadores estavam lá, tal como a bola, as balizas e os adeptos. Porém, ninguém quis contribuir para um espetáculo. O futebol-espetáculo acabou no golo de Vinícius Júnior e o ‘lamaçal’ arrancou com a celebração do mesmo.


Ninguém se lembrará de um único lance dos 50’ para a frente, mas todos se lembrarão dos copos de água atirados a Vinícius Júnior, dos objetos enviados para dentro do relvado e que irão custar uma multa pesadíssima ao Benfica, ou da expulsão de José Mourinho. O Estádio da Luz mostrou a sua força contra um indivíduo como poucas vezes o fez. Cabe às autoridades competentes realizarem uma análise da situação, mas quem saiu a perder foi o futebol. Se Gianluca Prestianni for culpado, merece um castigo exemplar, quiçá como nunca antes aplicado no futebol de elite. Se for inocente, já sabemos que não vai acontecer nada, mas possivelmente deveriam existir consequência por calúnia. Todavia, a culpa é do próprio argentino, que decidiu tapar a boca.
Para quem gosta de ver futebol, que assista à primeira parte. Para quem adora polémica, recomendo a segunda. Contudo, este encontro é o espelho do que é o desporto rei neste momento. Tem tudo para ser apreciado, mas o que alimenta são as polémicas. No Benfica x Real Madrid tivemos um golaço, mas foi o seu festejo que decidiu o jogo.
Quanto a tudo o que se passou depois dos 90 minutos, com alegadas agressões de Rui Costa, comentários a desmentir tal feito, um jornalista cercado por adeptos do Benfica, não merecerá qualquer tipo de destaque neste texto.


Bola na Rede na Conferência de imprensa
Bola na Rede: O Benfica demonstrou uma especial preocupação na primeira parte em relação à marcação de Arda Guler, evitando que o turco conseguisse espaço e linhas de passe. Sente que este comportamento da sua equipa foi fundamental para evitar que o Real Madrid evitasse controlar o jogo?
José Mourinho: Mas nós conseguimos o domínio. Fomos nós que assumimos o domínio. O Courtois faz uma defesa fantástica ao remate do Aursnes. O Benfica entrou forte, entrou muito forte. Era essa a intenção que nós tínhamos. Sabíamos perfeitamente com quem jogávamos. Sabemos perfeitamente o nível dos jogadores contra quem jogávamos. Como disse anteriormente, neste espaço de tempo entre o jogo passado e este o Álvaro Arbeloa trabalhou muito bem a equipa. Organizou-se de uma maneira completamente diferente. Nós adaptámo-nos a isso e jogámos olhos nos olhos. É verdade que ali nos últimos 10 minutos eles foram efetivamente superiores, empurraram-nos para trás. Sabíamos que alguma vez íamos ser empurrados para trás e tínhamos que aguentar. Foi o que fizemos. A segunda parte entrámos com a mesma intenção. O rapaz faz aquele golo incrível e depois não houve mais jogo para tentar fazer alguma coisa melhor.
Bola na Rede: Vimos os jogadores do Real Madrid com bola à procura de Arda Guler, que tentou procurar espaços por todo o terreno. Acredita que o crescimento do turco ao longo da primeira parte foi determinante para o Real Madrid conseguisse assumir a liderança da partida?
Álvaro Arbeloa: Acho que o Arda Guler é um jogador com umas caraterísticas que nos ajudam muito. É capaz de estar no meio campo com o Vini e o Kylian à frente. Também ajuda na criação. É um jogador que é especial, é dos diferentes. Está a ser mesmo muito importante na equipa. O crescimento beneficia a nós próprios. Ele trabalha na sua confiança. Este tipo de partidas fá-lo crescer, como jogador jovem que é. Estou muito orgulhoso dele e ter um grande rapaz como o Arda e de todo o trabalho que é capaz de realizar.



