João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Os dois jogos entre Benfica e Real Madrid não contaram apenas histórias diferentes no resultado. Mostraram, acima de tudo, como pequenos ajustes estruturais podem alterar completamente a dinâmica competitiva. No primeiro jogo, o Benfica venceu por 4–2 com apenas 33% de posse de bola. O Real Madrid teve 67%, controlou territorialmente, circulou com critério. Ainda assim, concedeu 3.01 xG e oito grandes oportunidades claras.
São dados estatísticos que revelou um problema estrutural. O Benfica não procurou controlar o jogo com bola, procurou controlar o jogo no momento certo: na transição. Foi vertical, atacou profundidade, explorou a reação lenta à perda e beneficiou de distâncias excessivas entre sectores do Real e de um lado esquerdo sem cobertura. O Real teve volume, o Benfica teve metros e critério para ferir. E, na minha opinião, espaço vale mais do que posse.
No segundo encontro, o cenário alterou-se, o Real vence 1-0. O Benfica aumenta ligeiramente a posse, mas a produção ofensiva cai drasticamente: 0.41 xG e zero grandes oportunidades. A diferença não esteve apenas no talento individual ou motivado pela troca de Rafa por Sudakov (verticalidade por critério). Esteve sobretudo na nova organização do Real que desta vez bloqueou as saídas do Benfica porque se preparou melhor para o momento da perda.
O regresso de Rudiger trouxe liderança, agressividade no duelo e maior controlo da profundidade. Camavinga acrescentou intensidade, melhor cobertura, reação à perda e fechou o lado esquerdo. As distâncias encurtaram. A equipa deixou de estar partida, o espaço do primeiro jogo desapareceu. Quando o espaço desaparece, o jogo muda.


É evidente que o Real Madrid possui dois jogadores que vivem fora do padrão, Vinícius Júnior e Mbappé são capazes de decidir em segundos. A sua presença obriga qualquer adversário a ajustar posicionamentos e reduz a margem de erro defensiva. A diferença de qualidade individual existe e pesa, sobretudo em jogos equilibrados.
Mas seria simplista dizer que a mudança esteve apenas no talento ofensivo. No primeiro jogo, o Real atacava muito, mas defendia mal os momentos críticos, a perda da bola e na transição defensiva. No segundo, passou a proteger melhor o momento pós-perda antes de libertar o talento. E isso alterou tudo e o Benfica não encontrou forma de o contrariar.
Entre um jogo e o outro não houve apenas alterações no onze. Houve correção estrutural. Ajustaram-se distâncias, redefiniram-se prioridades defensivas e houve consciência clara da vulnerabilidade nas transições. No futebol, o problema não está só no que se faz com bola, está nos cinco segundos após a perda. Foi aí que o primeiro jogo se decidiu. E foi precisamente aí que o segundo foi corrigido pelo Real Madrid.
Estes dois encontros mostram uma verdade simples: posse não é domínio, domínio mede-se pela qualidade das oportunidades criadas e pela capacidade de proteger a própria baliza. E se o talento ajuda a ganhar jogos como hoje, a organização sustenta a equipa para ficar mais perto de vencer. Não vence quem tem mais bola, vence quem protege melhor o espaço quando perde a bola e o jogo acelera.

