João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Nos últimos dias falou-se muito de um episódio de alegado racismo entre Gianluca Prestianni e Vinícius Júnior. O tema foi discutido até à exaustão, opiniões fortes, julgamentos rápidos, narrativas construídas em minutos. Mas há um detalhe essencial: ainda não existem provas inequívocas. E para quem está dentro de um balneário, a questão nunca é apenas o que aconteceu. A questão é o que fazer a seguir.
Quando Mourinho fala em dificuldade de gestão emocional, não está a falar de tática, está a falar de pessoas. Do impacto que uma polémica destas tem num jogador jovem, num grupo exposto e numa estrutura que precisa de manter equilíbrio. O racismo é linha vermelha absoluta. Se houver prova inequívoca, a consequência tem de ser clara. Mas enquanto não há prova objetiva, o treinador lida com algo mais imediato: o estado emocional do atleta e o ambiente criado à sua volta.
E é aqui que começa a verdadeira decisão. Joga no Bernabéu ou não joga? Quem está de fora reduz isto a uma escolha técnica. Não é. Se o deixo de fora, posso protegê-lo, mas também posso insinuar culpa. Se o coloco a jogar, exponho-o a um ambiente emocionalmente carregado, onde cada toque na bola será amplificado. A decisão começa dentro. Conversa frontal, olhos nos olhos, preparação mental para o pior cenário. Antecipar o ruído antes que ele entre na cabeça do jogador. Se estiver preparado, joga, e o grupo fecha-se. Se não estiver, protege-se. Não por medo, mas por responsabilidade humana.


Treinar não é só organizar a equipa, é também sustentar pessoas quando a pressão aperta. Há jogos em que o adversário não está apenas do outro lado do campo. Está na narrativa. Está no ruído. E Mourinho sabe isso.
A sua conferência de imprensa após o jogo com o AVS SAD não foi emocional, foi estratégica. Não alimentou a polémica, não irritou o adversário, guardou a energia para dentro. Há algo que une grupos como poucas coisas, a perceção de injustiça. Quando um balneário sente que está a ser julgado externamente, fecha-se, torna-se mais coeso.
Antes de uma deslocação a Madrid, isso não é detalhe, é ferramenta. Pode correr mal? Pode, o Benfica está 95% fora, mas os 5% podem fazer a diferença e Mourinho sabe isso melhor que ninguém. Mas no Bernabéu não se joga apenas futebol, Joga-se também contexto. E Mourinho sabe exatamente o que está a fazer.

