João Aroso é atualmente o treinador-adjunto principal da seleção da Coreia do Sul. Apesar da longa distância, é um perfil reconhecido em Portugal. Um autêntico homem do futebol, com um profundo conhecimento do jogo, interessando-se de uma forma quase obsessiva (no bom sentido da palavra) pelo que se passa dentro das quatro linhas, deixando de lado as polémicas. Os seus primeiros passos foram no Pedras Rubras, dando-se a conhecer mais tarde, já ao serviço do Sporting, atingindo o apogeu de atuar na Seleção Nacional. Já desempenhou múltiplas tarefas no desporto, alcançando os seus sonhos de adolescente, algo que ao próprio lhe parecia improvável. Para João Aroso, o futebol tem poucos segredos, mas o seu entusiasmo quando fala da modalidade é contagiante. É o mais recente convidado do Bola na Rede.
Bola na Rede: Olá, João Aroso. Um gosto estar a falar contigo.
João Aroso: Obrigado em primeiro lugar pelo convite. Começo por dizer, aquilo que estávamos a falar em off. Para mim, é um gosto dar esta entrevista porque me habituei a ficar atento quando surgem perguntas da vossa parte, nomeadamente nas conferências de imprensa. São diferentes, para melhor.
Bola na Rede: Deste os teus primeiros passos no mundo do futebol ainda com pouco mais de 20 anos. Sempre sentiste que o desporto rei seria uma parte fundamental para a tua vida?
João Aroso: Sim. Todas as minhas memórias vão sempre para uma paixão enorme pela bola, por jogar à bola. Ainda não era futebol. Tenho fotos disso. Gosto de futebol desde muito cedo. Agora, isso é uma coisa, outra era pensar que algum dia fazer parte deste mundo. Eram outros tempos. Era muito difícil para alguém que não tinha na família alguém ligado ao futebol ou que não tinha pessoas próximas associadas ao desporto, poder pensar que podia chegar a ser profissional. Era algo que não passava pela minha cabeça. Era quase um sonho impossível. A determinada altura, foi-se tornando mais possível e acabou mesmo por acontecer.
Bola na Rede: Face a este cenário, como é que se deu o convite para rumares ao Pedras Rubras? Conhecias alguém?
João Aroso: Na altura eu tinha terminado o primeiro ano de Educação Física e Desporto. O presidente do Pedras Rubras é primo do meu pai. Ele sabia que eu estava na área, precisavam de alguém para adjunto dos Sub-15. Tudo começou assim. Surgiu um telefonema, ainda não havia telemóveis, e eu não estava em casa. Mas quando cheguei tinha um recado e fiquei muito contente. Fui para ganhar zero. Mas pensei que ia trabalhar no futebol. A paixão que isso despertou em mim… ainda me lembro hoje. Falamos do Pedras Rubras, de um escalão de Sub-15 e a ganhar zero. Mesmo assim, causou este impacto em mim.


Bola na Rede: O mundo do futebol é muito abrangente. Foi aí que começaste a gostar do treino ou foi algo que já te acompanhava?
João Aroso: Já era algo que adorava. Antes de ir para Educação Física e Desporto, comecei o curso de Contabilidade no ISCAP. Tendencialmente, eu iria para aquela área. Mas eu não gostava nada, embora não fosse mau aluno. Quando fui para Educação Física e Desporto eu dei por mim nas férias a ler livros sobre treino, ainda antes de começar o curso. Foi algo que despertou em mim. Já tinha curiosidade, não imaginando nunca que poderia trabalhar na área. Ainda assim, captava a minha atenção. Quando entrei no curso queria ler tudo o mais que pudesse. Li muitas coisas que não devia ter lido (risos). Fiz também muitas coisas erradas. Para tudo há um princípio e vamos aprendendo. Vamos evoluindo. Oxalá, daqui a uns anos, possa dizer que o que faço agora está longe de ser o melhor. É sinal de que cresci. Fui aprendendo e percebendo que adorava o treino.
Bola na Rede: Saíste do Pedras Rubras para assinar pelo Boavista. Sentiste o salto de uma estrutura ‘amadora’ para uma equipa de Primeira Liga?
João Aroso: Na altura era o Boavistão. Eu vou para lá no enquadramento do estágio do curso. Foi proporcionado pela opção de futebol, inserida em Metodologia do Treino. Sendo eu nortenho, havia claramente dois clubes que me seduziam: FC Porto e Boavista. Outros ficavam-me muito mais longe de onde eu morava. Senti que no Boavista havia uma abertura maior e um interesse para nos incluir de facto no treino e na equipa técnica. Foi isso que me fez procurar o Boavista naquela altura. Era um bom clube, mas não tinha a dimensão do FC Porto. Estamos a falar numa fase em que o Boavista era o quarto grande. Era também o quarto clube em termos de formação. Na altura representou para mim ir para um contexto muito interessante, para evoluir e mostrar as qualidades que pudesse ter. Isto tudo com o intuito de poder ficar ligado à estrutura. Inicialmente, era um estágio e fui integrado nos Sub-19. Ao final de pouco tempo, convidaram-me, tudo a custo zero, para colaborar com o escalão que na altura se chamava de Escolas, eram os Sub-11. As coisas foram evoluindo bem, foram reconhecendo uma postura boa da minha parte. Eu tinha interesse e empenho. Foi tudo acontecendo e fui convidado para ficar ligado à formação do Boavista, onde fiquei alguns anos.
Bola na Rede: Embora estivesse ligado à formação, como é que viste o Boavista campeão?
João Aroso: Era uma equipa que me lembro bem. Vi vários jogos. Para o clube foi muito importante. Trabalhando eu lá, obviamente que vivi com muito gosto tudo o que aconteceu. Era uma equipa que tinha muito mérito. Não era um futebol que me encantava, mas reconheço que se fosse de outra forma se calhar não tinha sido possível. Tinha bons jogadores, mas depois contava com aquele registo que ficou marcado. Aquela agressividade no bom sentido, era uma equipa muito intensa, muito aguerrida e competitiva. Se não fosse assim, não seria possível ficar à frente dos chamados grandes. Obviamente, estes tinham mais qualidade.
«É fruto de má gestão, de gente que deveria ser punida criminalmente. No Boavista, isto foi muito evidente por várias pessoas que dirigiram o clube».
Bola na Rede: O Boavista neste momento não vive o melhor momento. Sendo uma equipa que está no teu coração, ficas triste com toda esta situação? Acreditas que vamos voltar a ver o clube de volta à Primeira Liga?
João Aroso: Tenho mesmo muita pena. O Boavista é um clube especial para mim, trabalhei lá cinco anos. Curiosamente, e acho que nunca disse isto publicamente, no mesmo momento em que tenho o convite para ir para o Sporting, também tenho o convite para ir para a equipa sénior do Boavista. Sobre essa questão, lamento muito particularmente pelo Boavista. Ganhei afetividade pelo clube, é um histórico. Tem uma massa adepta que realmente gosta do Boavista, é ferrenha. Fala-se muito dos adeptos do Vitória SC, outro clube com quem eu tenho muita afetividade, que vivem o clube com muita intensidade. No Boavista isto também acontece. Portanto, por tudo isso, é uma pena muito grande. É muito mau para o futebol português não ter o Boavista na Primeira Liga, um Boavista em condições de poder dar continuidade no que é a sua história. Mas eu juntava aqui outros clubes. Não há nenhum clube da dimensão do Boavista em situação semelhante, mas há outros clubes que também já estiveram na Primeira Liga muitos anos e hoje praticamente desapareceram. Tenho pena por todos. Obviamente, isto é fruto de má gestão, de gente que deveria ser punida criminalmente. No Boavista, isto foi muito evidente por várias pessoas que dirigiram o clube. Se um dia vamos voltar a ver a equipa na Primeira Liga? Tenho esperança que sim, mas sei que a situação é extremamente complicada pelas dívidas envolvidas. Era muito importante que o Boavista regressasse à ribalta do futebol português.
Bola na Rede: Em 2003 dás o salto para o Sporting. Quem é que te fez esse convite?
João Aroso: Acontece o seguinte: eu estava a fazer o mestrado em Ciência do Desporto na Universidade do Porto. Eu decidi estudar questões da fisiologia do treino. Os professores que estavam nessa faculdade, ligados a essa área, recomendaram que entrasse em contacto com o Professor Doutor Gomes Pereira. Ele era professor na Faculdade de Motricidade Humana e médico do Sporting. Era alguém que tinha estudado muito estes temas, nomeadamente com Carlos Queiroz. Encaminharam-me para ele. Ainda não havia Academia Sporting, estava a ser construída. Foi ter com ele a um estágio do Sporting em Rio Maior e ele gostou muito da ideia que lhe apresentei. Disse que faria coorientação e que me ajudaria no meu trabalho, porque ele gostou bastante. Aqui eu estava longe de imaginar o que poderia vir a acontecer. Ao fim de algum tempo, há uma primeira abordagem sobre o meu interesse em ser treinador de uma das equipas de formação do Sporting. Estando eu no Boavista era um salto grande para mim. Falamos de uma fase em que o Sporting era reconhecidamente, e com diferença, o melhor clube formador em Portugal. A Academia estava a ficar pronta, foi tudo naquela altura. Essa era a ideia inicial e estava para acontecer. Nem sabia qual era o escalão, mas houve essa ideia. Pedro Mil-Homens, que era o diretor da Academia Sporting, também estava envolvido. Um dia, eu era professor de Futebol no ISMAI, entre duas aulas tocou o telefone. Era o Doutor Gomes Pereira a perguntar-me se eu me via na função de preparador físico. Tínhamos sempre falado em treinar uma equipa da formação. Eu pensei que ele estaria a falar dos Sub-19 ou da equipa B. Eu disse que admitia a possibilidade. Ele disse-me que o Boloni ia sair e que a equipa técnica também ia mudar toda. O Doutor Gomes Pereira ficou incumbido de trabalhar no departamento médico e ser fisiologista. Procurava alguém para fazer a ligação com a equipa técnica. Eu lembro-me ainda hoje da sensação. Foi aquela sensação de borboletas na barriga. Perguntava-me o que me estava a acontecer. Era tudo incrível, era um salto gigante. Lembro-me do Doutor Gomes Pereira ter dito ‘você nunca trabalhou com profissionais. Competência eu sei que tem, tal como conhecimento. Mas eu queria perceber se se sentirá à vontade para ligar com jogadores que conhece da televisão’. Eu pensei que se fosse totalmente sincero eu vou andar a dar cabeçadas na parede o resto da vida. Tinha que dizer que estava preparado. A verdade é que não me sentia totalmente preparado, nem em termos de conhecimento. Obviamente alguma coisa terá sido reconhecida pelo Doutor, não me quero colocar num nível baixo. Mas para estarmos preparados para aquele nível, temos de ter outro tipo de estrutura e de experiência. Disse que sim e o processo ainda implicou algumas entrevistas. Não estava definido quem seria o treinador. Fernando Santos foi o eleito e logo de imediato fiz uma entrevista com ele. Foi em casa dele. Lembro-me bem desse momento. As coisas acabaram por correr bem nessa fase de entrevistas. Também fui entrevistado por José Eduardo Bettencourt, administrador da SAD. Preparei-me o melhor possível para o início, para encontrar jogadores que conhecia da televisão e que não me conheciam de lado nenhum. Foram sensações bastante fortes, mas consegui fazer com que as coisas corressem bem. Fiquei vários anos ligado ao Sporting.
Bola na Rede: Como é que te voltaste a acostumar a ser novamente um membro da equipa técnica? No Boavista, ainda que fosse na formação, eras o treinador principal…
João Aroso: Sim, mas a dimensão é tão grande… o patamar era elevado. Eu sentia uma exigência muito grande sobre mim. Não sentia de forma nenhuma uma participação menor. Para isto contribui também aquilo que era o trabalho que o Fernando Santos queria da minha parte. Ele queria não um contributo de um preparador físico, e isto foi muito importante para o meu crescimento, mas sim um contributo da minha parte em termos de treino, muito mais abrangente. Ia além das componentes físicas. Foi um desafio enorme, para mim. Além de ser num patamar daqueles, de um grande clube português. Fernando Santos era alguém exigente, já tinha sido campeão no FC Porto. Pediu-me algo e eu tinha que corresponder. Isso fez-me crescer muito.


Bola na Rede: Que jogadores destacas em termos de evolução nessa fase no Sporting?
João Aroso: Em termos de desenvolvimento foram mesmo muitos. É difícil, mas eu lembro-me do Liedson. No início não se imaginava o que poderia vir a ser, nos primeiros treinos. Tinha aquela figura, não é? Muito franzino e levezinho. Inimaginável a história que ele veio a ter, tendo em conta aqueles primeiros tempos. Mas a primeira equipa que eu encontro no Sporting era muito madura, com muitos jogadores mais velhos que eu, outros de idade semelhante. Pedro Barbosa ou Paulo Bento, com quem tive outro enquadramento. Havia o Rui Jorge, o Rui Bento, o Sá Pinto… jogadores com muitos anos de Sporting e que tinham à volta dos 30 anos ou mais. Era uma equipa muito experiente. Mais à frente trabalho com José Peseiro e Paulo Bento. Aí houve uma aposta maior, por necessidade, em jogadores jovens, vindos da Academia. Eu centrava nesses um grande crescimento. Ainda assim, no primeiro ano com o Fernando Santos, lançou-se o Custódio, o Miguel García e o Paíto, de uma forma menos regular, e pouco se fala disto. O Custódio acabou por vir a afirmar-se como um jogador importante no Sporting. Houve o Nani. Mas é importante dizer isto: eu falei de todos estes jogadores, mas é interessante que eu ainda trabalho com o Cristiano Ronaldo durante sensivelmente um mês, até ao jogo com o Manchester United. Ainda trabalho com o Cristiano no contexto Sporting. Dizia anteriormente que houve o Nani e outros jogadores que chegaram a um patamar importante no futebol português. Porém, eu tenho que salientar o João Moutinho. Foi um dos melhores jogadores com quem trabalhei em todos estes anos. Um dos melhores médios de sempre do futebol português. Foi alguém, que com 18 anos, começou a jogar na equipa principal e depois ano após ano, particularmente no período de Paulo Bento, foi talvez o jogador mais importante da equipa. Ele nunca se lesionava, felizmente. Era muito difícil de imaginar aquela equipa sem o João Moutinho. Se me pedes para destacar um em termos de crescimento e desenvolvimento, foi o João Moutinho.
Bola na Rede: João Moutinho hoje ainda é destaque no Braga. Às vezes faz-se o exercício de pensar em jogadores que poderão vir a ser treinadores. Acreditas que ele está neste lote?
João Aroso: O João Moutinho, além de ser um excelente jogador, é um excelente profissional. Eu quero vincar isto. Houve algumas dúvidas na história da ‘maçã podre’. Eu não sei o que se passou, não estava lá. Mas o João Moutinho é um dos melhores profissionais com quem trabalhei e uma excelente pessoa. Porém, ele não é fácil para o treinador no treino. Ele consegue contornar as regras do exercício pela ‘ratice’, de maneira a ganhar (risos). Quando lhe dizemos que não pode fazer X, ele diz que nós não dissemos nada, que não dissemos que havia tal regra. E ele é de uma inteligência e de uma esperteza que consegue por vezes matar-nos um exercício. Coloca-nos dificuldades na orientação do exercício, porque ele joga com as regras, respeitando-as, mas contornando-as. É muito inteligente e isso é visível como ele joga. Ele tem tudo para ser treinador, acredito que ele vai querer. Percebe tudo do jogo. Também se relaciona muito bem, as pessoas gostam dele. Tem mesmo tudo para vir a ser um excelente treinador.
«João Moutinho tem mesmo tudo para vir a ser um excelente treinador».
Bola na Rede: Antes de regressares ao Sporting, estiveste no AEK. Sentiste que estavas num país que era campeão europeu? As condições de trabalho eram melhores ou piores que nos leões?
João Aroso: Eram piores. A ida para o AEK resulta de uma fase em que não estava muito satisfeito no Sporting. Foi durante a época 2004/05, com José Peseiro. O Fernando Santos convidou-me para ir para lá, com alguma insistência. Eu acabei por aceitar. Foi uma experiência fantástica, mas não pelas excelentes condições. O AEK vivia uma fase um bocadinho mais difícil a esse nível. Nós jogávamos no Olímpico de Atenas e o estádio tinha sido remodelado. As condições de treino não eram famosas, não havia um centro de treinos. Eu estava habituado à Academia. Mas adorei o clube, adorei a forma incrível como os adeptos viviam o AEK. Encontrei algo parecido com o Vitória SC, é o que se aproxima mais. Adorei o país. A questão do país campeão europeu… havia da parte dos gregos um respeito muito grande pelos portugueses. Ajudava a moral que o Fernando Santos tinha por lá, já nessa altura. Mas enfim, a Grécia ganhou como ganhou aquele Euro 2004 (risos). Tinham uma cultura muito enraizada, a ideia defensiva, mas havia um respeito mesmo muito grande com o futebol português. Olhavam para mim, que vinha do Sporting, com um respeito muito grande. Foi uma experiência muito boa, mas curta. Eu costumo dizer que foi a decisão de que não me orgulho de ter tomado, o ter voltado. Mas também voltei com muita honra de ter aceitado o convite do Sporting. Ainda assim, sinto que o correto era eu ter continuado, pelo convite do Fernando Santos, pelo carinho que recebi, mas acabei por não resistir ao convite do Sporting.
Bola na Rede: Aquele Sporting 2005/06 ainda sentias que era um Sporting ‘ressacado’ daquelas semanas em que se perdeu a Primeira Liga e a Taça UEFA?
João Aroso: Eu fui para o AEK depois de trabalhar com o José Peseiro. Não estando por dentro, não sei bem o que se passou. Mas admito que tudo o que ocorreu nesse começo de época e que levou mesmo à mudança de treinador, tenha decorrido daí. Essa foi uma fase que eu vivi por dentro. Houve coisas muito difíceis de lidar a vários níveis que eu prefiro não expor. São coisas do grupo. Não são coisas só dessa altura, dessas derrotas duras nesses dois jogos, mas de questões que já vinham de trás, mas que se agudizaram com essas derrotas. Expuseram situações menos positivas de uma forma mais evidente. Acredito que se tenham repercutido depois nesse começo de temporada.
Bola na Rede: Acredito que, para ti e para o Paulo Bento, vos dê alguma felicidade terem lançado tantos miúdos da formação. Como era possível uma equipa, ainda que fosse o Sporting, conseguir lançar tanto jovem com qualidade?
João Aroso: Por duas razões: havia qualidade na Academia e havia necessidade. Eles jogavam porque eram melhores que as outras opções que era possível ao clube ir buscar. Quando assim é, e existe a coragem do treinador, neste caso o Paulo Bento, para fazer essas apostas… até poderia haver qualidade e necessidade, mas não haver a tal coragem de aposta em jogadores tão jovens. O Paulo Bento tinha essa coragem. Vinha de treinar os Sub-19, sabia da qualidade que existia e confiava nos jogadores. Proporcionou-se tudo e os jogadores também mostraram rendimento.


Bola na Rede: Acreditas que era justo, para a vossa equipa técnica, terem conquistado uma Primeira Liga?
João Aroso: Conquistámos duas Taças de Portugal e duas Supertaças. Estivemos mesmo muito perto de ser campeões. Até mesmo na primeira época. O FC Porto era treinado pelo Co Adriaanse. Perdemos em casa por 1-0, com um golo do Jorginho e isso matou a possibilidade de conseguirmos ser campeões. Também me lembro de uma outra época. Ao intervalo, o FC Porto que jogava com o Aves em casa, estava empatado. Nós ao intervalo éramos campeões porque era a última jornada. O FC Porto acabou por ganhar ao Aves. Foi uma outra época bastante boa da nossa parte. Mas sentimos que os meios eram desiguais, em termos de orçamentos. O FC Porto durante todos esses anos mostrou-se uma equipa competente. A primeira época com o Adriaanse e depois com o Jesualdo Ferreira. Eram estáveis, competentes. Ficámos sempre em segundo e ganhávamos algumas taças.
Bola na Rede: Embarcaste na primeira aventura em seleções com o Paulo Bento. Como foi passar para a equipa técnica de Portugal?
João Aroso: A primeira sensação é a de um orgulho enorme. Sentir que estamos a representar o nosso país é algo muito difícil de conseguir expressar a sensação. O ouvir o hino… lembro-me que a estreia foi no Dragão, contra a Dinamarca e as coisas não estavam fáceis. Vínhamos da mudança de selecionador, com a saída de Carlos Queiroz. Ele ainda fez dois jogos e os resultados foram negativos. O jogo correu bem e vencemos. Ter a família no estádio, os meus pais, tudo isto é um motivo de orgulho. É uma sensação de orgulho mesmo muito grande. Olhar para trás e sentir que aquele miúdo, como começámos a entrevista, que era apaixonado por uma bola e que achava que era um sonho impossível, de repente estava ali e a família estava orgulhosa de me ter ali. Do ponto de vista emocional, a sensação foi muito forte. Em termos de trabalho, eu gosto muito do dia a dia do treino, estar com os jogadores, preparar o jogo analisar, adoro essa dinâmica. No contexto de seleção é muito diferente, mas habituei-me a gostar também. Envolve o trabalho de observação sistemática de jogadores nos seus clubes, identificar como é que eles jogam, qual o tipo de papel tático que eles têm nos seus clubes, procurar perceber, tendo em conta o pouco tempo que temos com eles para treinar, se há algumas dinâmicas que eles têm nos clubes que nós podemos transferir e reproduzir no nosso contexto. Ao mesmo tempo, é muito enriquecedor do ponto de vista pessoal. Podemos desenvolver os nossos conceitos de jogo, já que vemos muitas equipas e jogadores a atuarem em boas equipas. Para além da análise do jogador, é interessante saber como as equipas jogam. Há um enriquecimento grande do ponto de vista pessoal. Há um conhecimento do jogo. Já em estágio, tratava-se acima de tudo de procurar e identificar as formas mais eficazes de passar a mensagem. O tempo é muito curto. Procuramos as formas mais eficazes no treino, nos exercícios, mas também nas reuniões com os jogadores, através de vídeo e transmissão oral. É uma experiência diferente, mas gosto muito de ambas.
«Nós jogamos contra a grande Espanha, que tinha vencido o Mundial 2010. Era uma das melhores equipas de sempre, seguramente. Jogámos olhos nos olhos contra eles. Não tínhamos a quantidade em qualidade».
Bola na Rede: No Euro 2012, Portugal foi eliminado nas meias-finais pela Espanha nas grandes penalidades. Acreditas que Portugal poderia ter ganho essa prova?
João Aroso: Acredito mesmo. Eu lembro-me que a Espanha cilindrou a Itália por 4-0 na final. Isto diz tudo. Nós jogamos contra a grande Espanha, que tinha vencido o Mundial 2010. Era uma das melhores equipas de sempre, seguramente. Jogámos olhos nos olhos contra eles. Não tínhamos a quantidade em qualidade. Isso existe agora. Claro que tínhamos boa equipa, mas não tínhamos uma extensão de plantel. Eventualmente por isso no prolongamento não conseguimos o que estávamos a fazer nos 90 minutos. Aí a Espanha esteve por cima. Ainda assim, acredito que podíamos ter vencido esse Europeu, se tivéssemos vencido a Espanha. Conseguiríamos ter vencido o Euro quatro anos antes. Recordo-me no aeroporto ouvir o João Pinto dizer ‘ainda não estou em mim, não estava preparado para isto’. Ele acreditava que íamos ganhar à Espanha. Claro que depois de 2016, não é fácil valorizar tanto o que nós fizemos em 2012. Mas ainda assim acho que fizemos uma prova muito boa e recordo-me, também com emoção, da chegada a Lisboa e das centenas, para não dizer milhares, de adeptos portugueses que estavam lá para nos receber. Foi um momento fantástico também.
Bola na Rede: Em 2014, assistimos a um Mundial em que Portugal ficou um pouco aquém, para muitos. Pergunto-te o que aconteceu.
João Aroso: Foi uma frustração mesmo muito grande. Na altura eu via a possibilidade de Portugal fazer um bom Mundial por todas as razões. O Brasil é o país do futebol e naquela altura ainda olhava para nós como um país menor em termos de futebol. Eu olhava para aquele momento como decisivo de afirmação. Há várias razões, a que referi insere nas razões históricas. Havia relatos de que o Brasil de 1966, vi coisas sobre isso. Na altura diziam que em Portugal a bola era quadrada. Nesse Mundial de Inglaterra houve um Portugal x Brasil. Eu via este Mundial como uma oportunidade fantástica de mostrarmos a nossa qualidade. Também poderiam surgir oportunidades para treinadores portugueses. Nessa altura, não havia. Depois aconteceram mais tarde, por razões que se sabem. As portas foram-se abrindo. Naquela altura, nem por isso. Foi uma frustração também por aí. Nunca há apenas uma razão, há várias. Hoje a esta distância temporal digo de uma forma mais natural, houve questão relacionadas com a nossa aclimatização, que deveriam ter sido feitas de forma diferente. Tínhamos o primeiro jogo em Salvador às 13 horas. O clima era extremamente quente e húmido. Os jogadores portugueses não estão habituados a isso. Estão sim, a temperaturas altas. Mas a esta conjuntura não, e é muito difícil. O segundo jogo era em Manaus, que estava previsto ser às 15 horas, mas passou para as 18 horas, menos mal. Não foi pela dificuldade enorme de jogar naquelas condições, mas ao que soube esteve relacionado com questão de transmissão televisiva. Enfim, coisas mais importantes. Digo isto com ironia, naturalmente. Só o terceiro jogo era em Brasília, num clima ameno e seco. Nós deveríamos ter feito estágio e a aclimatação ao calor e à humidade. Portugal neste Mundial vai ficar em Miami porque tem o terceiro jogo nesse tipo de condições. Fica em Miami e fica muito bem. Na altura tive a oportunidade de transmitir a minha opinião, mas as coisas aconteceram de uma forma diferente. Não foi esta a única razão, há sempre várias que contribuem para que as coisas não tenham corrido bem. Mas tenho para mim, de uma forma clara, que esta foi muito determinante. Eu recordo-me bem da sensação dos jogadores no treino oficial antes do primeiro jogo com a Alemanha. Eles sentiram dificuldades logo ali. Durante o jogo sentiram dificuldades, falaram disso nos jogos. Não estavam preparados para jogar naquelas condições. Não estavam ambientados nem adaptados a esse clima, de todo. Fizemos o estágio em Campinas, interior de São Paulo, com um clima ameno, com uma humidade relativa baixa. A título de exemplo, a Alemanha, que venceu a prova, construiu um hotel na Bahia e teve todas as preocupações em detalhe para se ambientarem ao clima difícil. Eu vejo isto como determinante para o insucesso que tivemos. Mas perguntam-me se ‘não contribuiu um penálti contra nós aos 5’, contra a Alemanha e expulsão do Pepe?’ Eu tenho de dizer que sim. Isso ajudou, mas havia falta de capacidade da nossa parte, de darmos uma resposta melhor por causa da questão da não adaptação climática.
Bola na Rede: Tiveste o gosto de trabalhar com dois dos últimos selecionadores de Portugal: Fernando Santos e Paulo Bento. Quais são as diferenças e semelhanças entre eles? Tinhas a mesma função com os dois?
João Aroso: Diferente, em termos do que me era solicitado. Com o Paulo Bento havia o Leonel Pontes na equipa técnica. Em termos de preparação e distribuição do trabalho era muito partilhado com os dois. Já com o Fernando Santos partia mais de mim a proposta de treino. Claro que com a decisão final era dele, tal como a supervisão. Porém, partia mais de mim, tal como descrevi nos meus primeiros tempos do Sporting. Semelhanças? É difícil de responder. São pessoas muito diferentes, cada um deles com as suas caraterísticas. Eu encontro o Fernando Santos numa fase diferente da carreira, um treinador experiente, com passagem pelo FC Porto, pela Grécia. Já tinha sido campeão. Mas era muito interessado em perceber as novidades que podiam vir do treino. Era mesmo muito interessado nisso. Era alguém com quem era muito fácil de trabalhar, tendo em conta a liderança que ele colocava no grupo. Era um treinador com uma presença muito forte no grupo e isso fazia com que o trabalho de um adjunto ficasse muito fácil. Com o Paulo Bento, foi distinto. Encontro-o numa fase inicial da sua carreira, mas é alguém com uma sensibilidade muito grande para as questões de liderança. Também tinha muita sensibilidade para a componente tática. Já se percebia isso nele como jogador, precisava de sistematizar as suas ideias. Aí há um processo de progressão, inicialmente mais suportado em mim e no Leonel Pontes, que tínhamos mais anos de treino. O Paulo Bento quis sempre estar muito presente na preparação do treino e foi tendo um registo claro de evolução também nessa dimensão, da parte do treino. Foram dois contextos. Paulo Bento, claramente muito mais anos e estes foram muito positivos, mesmo para o meu crescimento enquanto profissional.


Bola na Rede: O teu projeto em seguida foi na seleção de Sub-15. Como foi voltar a orientar ‘miúdos’ e deixar os ‘graúdos’?
João Aroso: Foi estranho. Eu tenho o convite da Federação para voltar, depois de ter tomado a decisão de seguir outro caminho. Não por qualquer problema com o Paulo Bento, mantenho uma relação muito boa com ele, importante frisar isto. A Federação convidou-me para voltar e isso para mim foi positivo. É sempre bom quando voltamos a algum lugar, como já tinha acontecido no Sporting. Estes convites são sempre bons. Mas estranhei um pouco a faixa etária, mas por pouco tempo. Eu gostei muito, percebi que apesar de ser uma Sub-15, eram jogadores bem treinados, na sua maioria. Os bons clubes portugueses fazem um trabalho muito bom e havia jogadores já com muito conhecimento do jogo, com muito bons hábitos de treino. Acabou por não ser um choque tão grande assim. Foi uma experiência interessante, voltava a ser eu o treinador principal, ao fim de vários anos. Era um registo muito diferente daquilo que era estar na formação do Boavista. Diria que eram quase jogadores profissionais.
Bola na Rede: Estes selecionadores destes escalões jovens não têm de ter uma vertente mais educativa?
João Aroso: Sim, embora essa questão da educação deve estar sempre implícita. Em todas as fases é pedido isso. Tudo tem a ver com o saber estar em grupo, saber estar em equipa. De formas diferentes, de maneira óbvia. A personalidade e expressividade de um jogador de Sub-15 são diferentes de um jogador Sub-19 ou mais velho. Mas essa necessidade está sempre lá. Eu lembro-me com a seleção de Sub-15 uma das coisas que aconteceu foi ter-me apercebido que, antes de um jogo importante, os jogadores deitaram-se depois da hora definida e que estavam a conviver uns com os outros nos corredores do hotel. Levaram uma ‘dura’, fui lá ter com eles e fui mesmo direto. Eles pareciam coelhos a fugir para as tocas, a irem para dentro dos quartos. Eu no dia seguinte dei-lhes uma ‘ripada’ grande e disse que se voltasse a acontecer eles não punham mais os pés naquela seleção. Com jogadores desta idade tem de se lidar de uma maneira que não se pode lidar nos seniores. Aí seria de uma forma diferente, por razões óbvias. Naquela altura, estão na idade de levarem um sermão assim, de ficarem a pensar que podem não voltar. O jogo diz-nos muito. ‘Quero ver lá dentro o vosso rendimento, para saber se não faltou tempo de sono’, disse-lhes. Ainda assim, foi uma experiência muito interessante.
Bola na Rede: Durante 2016/17 assumiste o comando do Braga B, regressando ao futebol de clubes, num contexto de treinador principal num escalão profissional. Sentiste que foi o passo correto a dar?
João Aroso: Olha, eu não digo que não foi correto, mas se fosse agora teria feito algumas coisas de forma diferente. A verdade é que existiram várias questões. A experiência foi muito boa e muito desafiante. É muito difícil para uma equipa B competir na Segunda Liga. Acho isto muito claro, ainda para mais para um clube que não é o Benfica, o FC Porto ou o Sporting. Como vimos, o FC Porto B teve muitas dificuldades em permanecer na Segunda Liga, o Benfica B também já as teve. O Braga B já desceu e não foi comigo. Ainda não conseguiu chegar à Segunda Liga. O Vitória SC B igual. É extremamente difícil competir na Segunda Liga e eu senti essa dificuldade. Sentia muitas vezes que era uma equipa que jogava bem, mas depois os outros ganhavam. Houve mesmo várias coisas, mas que se calhar não são tão relevantes assim. O plantel era muito grande, tornava-se difícil ter uma boa gestão do treino… houve um conjunto de situações que tornou a minha missão mais difícil. Eu sucedi ao Abel Ferreira e o próprio Abel chegou a ter na equipa B do Braga uma fase muito difícil. Depois conseguiu ultrapassar isso, eu não consegui (risos). O António Salvador acaba por me despedir em janeiro de 2018. Faria coisas diferentes, não tão relevantes ao dia de hoje de definir. Acredito que as coisas podiam ter corrido melhor. A experiência fica, o meu crescimento também como treinador em situação de muita dificuldade fica também. Eu gostei muito também da experiência de treinar aquela faixa etária, foi muito positivo.
«Marrocos Tem condições financeiras, tem matéria prima, mas precisam de mais organização. Precisam igualmente de uma melhor mentalidade… quem viu a final da última CAN saberá do que falo».
O limite de competição em Portugal para as equipas B é a Segunda Liga. Em outros países vemos esse limite descer para um terceiro escalão. Estás de acordo com o que se faz em Portugal?
João Aroso: Eu acho que a Segunda Liga é um espaço muito bom, caso consigam aguentar. Um jogador jovem habituado a jogar na Segunda Liga está muito mais preparado. A Segunda Liga é de uma exigência enorme e todos os jogos são muito difíceis. Isto dá um estímulo ao jogador jovem, que os ajuda a estarem mais preparados para jogar na equipa principal. Isto não significa que uma equipa B que esteja na Liga 3 não possa ter boas condições. Vemos os casos do Braga e do Vitória, são exemplos. São casos recentes, até mesmo no contexto Benfica. Jogadores que saltaram a equipa B, nem passaram pela Segunda Liga. Podia dar outros exemplos. No Vitória tive algumas experiências dessas. Embora a etapa da equipa B seja importante, por vezes pode haver situações de jogadores com um potencial e um talento que lhes pode permitir queimar etapas. O João Neves no Benfica é um caso. Não passou praticamente na equipa B, mas mostrou capacidade de se afirmar na equipa principal. É importante que as pessoas percebam o seguinte: por vezes existem jogadores que dão rendimento na equipa B e que têm potencial e que quando há qualidade, é importante que todos se tenham espaço para se expressarem. Jogadores mais jovens podem ir para um espaço que não seja o da equipa B, mas sim o de Sub-23, por exemplo. Estou a pensar no caso do Benfica, com os jogadores que recentemente têm emergido. E tudo isto fazer sentido na mesma. Jogadores com potencial para chegar à equipa A, precisam de jogar. Precisam de ter estímulo para evoluir, são os jogadores aposta, ainda que não caibam todos na equipa B. Depois há outro contexto. Pode haver jogadores que, devido às suas caraterísticas, possam ter mais facilmente rendimento ou ser úteis em determinadas situações numa equipa A, que joga de uma determinada maneira, do que numa equipa B, que fruto até do campeonato que joga, encontra um determinado tipo de dificuldades que não permite que esses jogadores expressem essas suas caraterísticas.
Bola na Rede: Voltando à tua carreira. Em 2020 vais novamente para fora de Portugal e assumes a seleção de Sub-20 de Marrocos. Já conseguias prever que Marrocos se ia tornar na potência que está a mostrar ser hoje?
João Aroso: Acreditava mesmo que isso acontecesse. Antes de ir eu apenas sabia que Marrocos era um dos melhores países do futebol em África, que tinha muitos jogadores a jogar na Europa. Mas não tinha bem conhecimento da qualidade da formação, seja local, seja fora de Marrocos. Para mim foi uma grande surpresa a quantidade de jogadores de segunda geração, de emigrantes a viverem em países europeus, a jogarem em bons clubes na Europa. Muitos deles jogavam por essas seleções europeias, mas podiam jogar por Marrocos. Uma das minhas tarefas era tentar entrar em contacto com muitos desses jogadores, para decidirem jogar por Marrocos. Havia mesmo jogadores que podiam jogar por mais de dois países. Pais de nacionalidades diferentes e viviam noutro país. Eu percebi essa enorme qualidade em quantidade. Eu digo que Marrocos podia ter diversas seleções de qualidade. Tem jogadores com muita qualidade a atuarem em grandes clubes na Europa. Há outros que jogam em bons clubes em Marrocos, já que há o esforço grande do desenvolvimento da qualidade da formação de maneira local. A Federação tem investido muito e conta com um dos melhores centros de treino que eu já vi até hoje. Tem condições financeiras, tem matéria prima, mas precisam de mais organização. Precisam igualmente de uma melhor mentalidade… quem viu a final da última CAN saberá do que falo. Não se pode querer ganhar de qualquer maneira, pelo menos não se deve. Ainda assim, qualidade têm muita. Quando estive lá, a seleção A já era forte, mas cresceu ainda mais, fruto da muita qualidade que tem surgido e que é associada a bons clubes e a bom treino. Há uma preponderância de jogadores na seleção A que já nasceram na Europa. Claro que há alguns locais. Mas a expressão de jogadores nascidos fora é muito grande. É claramente, apesar de não terem vencido a CAN, na minha opinião o país mais forte atualmente no futebol africano. Acho que vai continuar a demonstrar isso, se a mentalidade dos dirigentes permitirem.
Bola na Rede: Devido às tuas palavras, presumo que não sentiste nenhum downgrade ao passares da Europa para o contexto africano…
João Aroso: Não, foi uma experiência muito boa. Havia qualidade de jogadores, também havia qualidade nas infraestruturas. Na altura era um projeto que acabou por ser penalizado pelo COVID. Era um projeto fortíssimo, que tinha um diretor técnico galês. A minha ida vai nesse contexto, fiz uma entrevista. Fui entrevistado e contratado. Entrou gente muito competente para as diversas áreas. Era um projeto muito forte e que acho que produziu coisas boas. Não foi mais além por causa da pandemia, sobre tudo. A pandemia perturbou tudo, Marrocos foi um país afetado e muita gente regressou a casa. Foram fases difíceis. Eu também pedi para regressar, muito fruto disso mesmo, desse impacto da pandemia.
«O Moreno não tinha as habilitações da UEFA Pro e eu tinha. Essa foi a razão que me fez recusar o convite umas 10 vezes. Eu não me revia num contexto em que poderia sequer pensar-se que eu estava a fazer um papel burocrático».
Bola na Rede: Estiveste algum tempo afastado dos bancos, mas em 2022/23 aceitaste rumar ao projeto do Vitória SC, para adjunto da equipa principal. Por que aceitaste esse projeto? Acredito que tenhas contado com mais ofertas antes.
João Aroso: Sim, tive. Fui tendo interessados. Às vezes a gestão da carreira não é fácil. Esperamos algo que nos seduza muito, mas às vezes esperar e recusar faz com que o tempo passe. Isso pode não ser positivo para nós. Começam a ver que estamos fora há já algum tempo. Esta gestão por vezes é difícil de fazer. Eu tinha tido, antes e depois, algumas possibilidades realmente boas. Algumas também por entrevista. Posso dizer, a esta distância, estive muito perto de ir trabalhar para o Leicester City. Era um contexto de direção técnica de academia, fiz entrevista. Fui o candidato eleito, numa situação ainda antes do Brexit, em 2019. Incrivelmente, por decisão do futebol do clube, fiquei sem o lugar, já que ele achou que devia ser um britânico e não trazer alguém de fora. Eu tinha siso o eleito num processo de várias entrevistas. Houve outras situações. Estive perto de treinar a seleção olímpica da Austrália, igualmente por entrevista. Também estive próximo, mais do que uma vez, de ter treinado uma equipa B de um grande clube português. Esteve para acontecer por duas ou três vezes. Gostava que tivesse acontecido, mas não vou referir qual o clube. Estas coisas foram acontecendo e isso fazia com que eu evitasse dar outros passos que eram menos interessantes, pelo menos para mim. No entanto, senti que tinha de voltar a treinar e o Moreno convidou-me diretamente para trabalhar com ele como adjunto, naquela configuração especial que se vivia. O Moreno não tinha as habilitações da UEFA Pro e eu tinha. Essa foi a razão que me fez recusar o convite umas 10 vezes. Eu não me revia num contexto em que poderia sequer pensar-se que eu estava a fazer um papel burocrático. Recusei de forma clara e convicta. Eu agradeço ao Moreno, já que foi um gosto enorme trabalhar no Vitória SC. Fico contente por ele não ter desistido e ter-me feito acreditar que queria a minha colaboração para muito mais. Foi isso que me fez aceitar, foi ele ter-me feito perceber que queria muito a minha colaboração de uma forma muito abrangente. Foi isso que fez com que rumasse ao Vitória SC. Tudo isto associado ao clube que é. Foi uma experiência muito boa. Gostei muito de trabalhar naquela instituição. Fico muito contente porque quando vou lá sou muito bem recebido, inclusivamente pelo adjunto. Acabei também, por fazer as declarações na flash interview, por ter um mediatismo um bocadinho maior para um treinador adjunto. Foi um período muito enriquecedor para mim também e que me fez crescer muito. O Vitória SC é um clube de uma exigência enorme, também ao nível interno. Era uma fase difícil, como todos se recordarão. O objetivo do Vitória SC para aquela época não tem a ver com as ambições que geralmente existem, estava um patamar baixo. Isto era fruto da condição financeira dramática em que a equipa se encontrava. Levou a uma aposta que me fez lembrar os tempos de Sporting. Havia necessidade, mas também qualidade, e por isso apostou-se na formação. Saíram miúdos de grande qualidade, como o André Amaro, o Bamba, o Dani Silva, o Tomás Handel, ainda que mais tarde devido a lesão. Eu não queria esquecer nenhum, mas estes acabaram por ser aqueles jogadores que se conseguiram afirmar mais. Isto é importante: havia uma estrutura de jogadores mais velhos que deu suporte aos mais jovens, para que eles pudessem emergir. Gostei muito de trabalhar no Vitória SC.
Bola na Rede: E aquele triunfo frente ao Gil Vicente, no qual foste o treinador principal, não te deu o ‘bichinho’ de voltares a assumir uma equipa?
João Aroso: Sim, mas tinha muito claro que ia sair, tendo o Moreno decidido deixar a equipa. Era muito claro para ambos que a minha colaboração era no âmbito do Vitória SC. Por uma questão de correção da minha parte para mim era claro que eu fazia aquele jogo e depois saía. Contudo, apesar de ter sido uma semana difícil do ponto de vista emocional, já que todos tínhamos um grande carinho pelo Moreno, do ponto de vista profissional fiz o melhor que podia. Tinha de o fazer. A sensação clara foi de que me sentia e sinto preparado para ser treinador principal. Isto sem que seja uma obsessão. Posso dizer que depois disso já tive um convite claro e efetivo para técnico principal e acabei por recusar, aceitando a situação que tenho agora. Não sou um treinador principal, embora seja quase.


Bola na Rede: Antes de falarmos da Coreia do Sul, passaste pelo Famalicão em 2024/25, aceitando a missão de ser o diretor técnico. Qual a razão que fez com que voltasses a assumir um papel de secretária? Também te pergunto os motivos pela experiência ter durado sete semanas.
João Aroso: Oficiosamente foi um bocadinho mais (risos). Ainda não tinha sido apresentado formalmente e já estava a trabalhar. Foi muito curto. Em primeiro lugar, eu não estava minimamente à espera disso. Eu tive um convite anterior para a direção técnica da formação do Leicester City, como já disse. Mas ainda antes, tive um convite para ser diretor técnico da Academia Sporting. Na altura recusei porque o que eu queria essencialmente era treinar. Esta situação do Famalicão surge de forma surpreendente para mim. Foi uma abordagem direta do presidente Miguel Ribeiro, que é alguém muito persuasivo. Ele dizia-me: ‘mister, eu preciso de um treinador para estas funções’. Eu dizia-lhe que queria treinar, mas ele continuava a insistir que queria um técnico e que não era fácil encontrar alguém com caraterísticas para funções daquele trabalho. Depois referiu as caraterísticas que via em mim e que eram importantes para tal função. Eu pedi algum tempo para pensar, já que tinha possibilidades para treinar. Mas elas demoraram a efetivar-se e, face à insistência do presidente Miguel Ribeiro, fizemos um acordo. Se me surgisse uma oportunidade que eu achasse muito interessante para treinar, ele permitiria a minha saída. De resto, não discuti absolutamente mais nada. Acabei mesmo por avançar. Estava seduzido pelo projeto do Famalicão. Gostava da visão do presidente. Confirmo e acho que é um dos exemplos mais interessantes no futebol português de como se pode juntar o negócio a um projeto de futebol, sem descaracterizar. Infelizmente, este é um perigo muito grande: descaracterizar um clube, retirar-lhe a alma e a identidade. Ali não, ali há respeito por essa identidade. E, ao mesmo tempo, é um projeto que funciona muito bem do ponto de vista do negócio. Portanto, apesar de curta, foi uma experiência que me permitiu estar na cúpula decisora. Tinha abrangência desde a equipa A até aos Sub-16. O que ficava difícil era chegar ao momento do treino e eu estar do lado de fora e não do lado de dentro. Tudo o resto foi uma experiência muito boa. Tenho os maiores elogios a fazer ao Famalicão e à sua estrutura. Foi do melhor que eu encontrei, do ponto de vista da competência e dos valores humanos, principalmente na estrutura do futebol profissional. Foi um gosto enorme. Ficou a ideia de que um dia eu posso vir a fazer isto, este cargo de diretor técnico. Porém, só um dia. Antes ainda tenho muito para fazer como treinador, dentro do campo.
Bola na Rede: Como é que se dá o convite para seres selecionador adjunto da Coreia do Sul?
João Aroso: Eu entro no Famalicão e surgem-me vários convites efetivos. Às vezes o tempo passa e nada se efetiva. Outras vezes, é ao contrário. Eu vou recusando. Um dos convites era para a Primeira Liga da Arábia Saudita. Há situações que são complicadas de recusar. O clube que me queria contratar foi o Al Okhdood, onde esteve até recentemente o Paulo Sérgio. Eu estava dentro, se eu quisesse. Foi difícil inclusivamente ter recusado. Como é que eu podia recusar? Eu acedi a ser entrevistado e tive o convite. Recusei porque não me seduz totalmente um passo destes, apesar de reconhecer que é uma liga que tem os jogadores que tem e os treinadores que tem. A realidade do Al Okhdood é diferente, como é lógico, mas era entrar na Primeira Liga da Arábia Saudita. Houve outras questões como o peso do Famalicão, de estar nesse clube. Também houve questões do ponto de vista pessoal e familiar que me fizeram pensar que estava melhor onde estava. Mais ou menos em simultâneo há um contacto para questionar se eu estava disponível para uma entrevista com a Federação da Coreia do Sul. Havia um interesse deles em ter um selecionador coreano, no decurso de saída do Jurgen Klinsmann. Eles queriam um selecionador da casa, que fosse institucionalmente a cara, uma figura quotidiana. Mas depois queria um treinador europeu para organizar todo o processo de organização do treino e do jogo. É neste sentido que vêm até mim e eu acedo a ser entrevistado. Sei que várias pessoas foram entrevistadas, não apenas em Portugal, mas também em Espanha. Eu fui à entrevista a pensar que devia haver muita gente, fui quase como experiência. Mas fizeram-me um convite formal. O convite tornou difícil a minha decisão, sobretudo por estar no Famalicão. Demorei algum tempo a decidir e a minha primeira resposta foi negativa. Eu recusei esse tal primeiro convite. Não me sentia confortável em sair do Famalicão. Depois houve uma insistência, viajaram até Portugal para estar comigo. Isto foi uma demonstração muito grande de que queriam de facto contar comigo. Tratei de algumas questões e limei algumas arestas, sendo que depois falei com o presidente Miguel Ribeiro, de forma a mostrar o meu desejo de sair. Perante a forma como as coisas me foram colocadas, mesmo do ponto de vista das minhas funções, tomei a decisão. Tinha a possibilidade de trabalhar no campo, qualificar-me para o Mundial 2026, estar com jogadores de muita qualidade, estar num bom país. As minhas funções, ou seja, o que queriam de mim, era um treinador de campo. O selecionador coreano é a cara principal do projeto, mas queriam alguém que organizasse o treino, desenvolvesse uma ideia de jogo. Queria inclusivamente que levasse elementos da equipa técnica. Perante o arrastar da minha decisão não foram logo todos os que estão agora. Inicialmente levei o Tiago Maia, analista. Depois houve um reforço muito positivo sobre a satisfação deles para com o nosso trabalho. Após a qualificação para o Mundial 2026 pediram-nos também um preparador físico e um treinador de guarda-redes lusos. Era suposto isto ter acontecido logo no começo. Mais tarde, trouxemos um fisioterapeuta. Foram pessoas recomendadas por mim. Juntou-se o Nuno Matias para ser preparador físico, ele tem muitos anos de Benfica. O Pedro Roma também veio, para a função de treinador de guarda-redes e que estava nas seleções jovens de Portugal. Somos quatro portugueses.
«Há situações que são complicadas de recusar. O clube que me queria contratar foi o Al Okhdood, onde esteve até recentemente o Paulo Sérgio. Eu estava dentro, se eu quisesse. Foi difícil inclusivamente ter recusado».
Bola na Rede: A Coreia do Sul só tem jogos em março. Quais são as tuas tarefas quando a equipa não está em estágio ou dentro de campo?
João Aroso: Jogamos na Europa com a Costa do Marfim e com a Áustria. Eu dividido o meu tempo entre vários lugares. Consigo estar em Portugal para acompanhar os jogadores coreanos a jogarem na Europa, eles pediram-me isso. Viajo muito pela Europa para observar jogos e estar com os jogadores, entrar em contacto com eles. Este contacto é muito importante. Observar jogos é possível de todo o lado, através da televisão e de plataformas. Tenho tido um feedback muito positivo por parte dos jogadores, de eles sentirem esta presença próxima da minha parte. O Tiago Maia também faz este trabalho quando está cá em Portugal. Para além disto, há muita coisa que fazemos. Felizmente consegue-se trabalhar muito com as tecnologias. Os analistas também ajudam muito. Desenvolvemos o nosso modelo de jogo com imagens, vamos tendo tempo disponível para estruturar algo. Planificamos com os preparadores físicos a questão do treino. Quando estou cá, isto é possível de se fazer. Quando estou na Coreia foco-me em acompanhar jogos da Liga Coreana, tenho reuniões presenciais para trabalhar em todas estas questões. Obviamente vamos fazendo reuniões periódicas. Eu cheguei recentemente da Alemanha, já que o selecionador esteve lá. Ele e alguns adjuntos estiveram a observar jogos, a Primeira Liga Coreana está parada. Estivemos lá em reunião. Não é a densidade de trabalho que existe num clube, mas há tarefas que vamos fazendo com muita sistematização, nomeadamente a observação dos jogadores. Os atletas que jogam na Europa, eu vejo todos os jogos deles. Às vezes até posso só ver as suas ações, vejo todas e faço o relatório. Este trabalho é sistemático. Tudo isto, quando estou fora do campo.
Bola na Rede: Como joga esta Coreia do Sul? O que podemos esperar desta equipa?
João Aroso: Há um contributo muito grande no que diz respeito ao meu trabalho do Tiago Maia. Não te consigo dizer em termos de estrutura como é que jogávamos na fase de qualificação. Mas posso dizer que defendíamos em 4-4-2, com uma ideia de pressão alta sempre que tal era possível. Caso contrário, estabelecer muito bem as nossas dinâmicas de pressão em bloco médio. Obviamente tínhamos que defender em certas ocasiões perto da nossa baliza. Mas em termos estruturais apresentar um 4-4-2 a defender. Já a atacar, quando estávamos no meio campo ofensivo, assumíamos um 3-2-5. Três defesas, com o nosso lateral esquerdo, os dois médios e depois jogávamos com o Son Heun-min aberto na esquerda, quando ele ainda jogava a extremo no Tottenham. Quisemos aproveitar as dinâmicas habituais dele. Do lado direito projetávamos o lateral e o Kang-in Lee ia para zona interior, já que é muito forte nessa zona. Esse era o nosso 3-2-5 a atacar. Por vezes estávamos em 3-4-3, mas na maioria das vezes colocávamos cinco jogadores em cima da linha defensiva adversária. Tudo muito em traços gerais. Depois tivemos uma outra fase. Houve uma conversa entre mim e o selecionador e chegámos à conclusão de que poderia ser interessante, tendo em vista o Mundial, preparar uma linha de cinco quando estivéssemos em bloco baixo. Porquê? As boas equipas colocam quatro/cinco/seis jogadores sobre a linha defensiva adversária, quando atacam. Aguentar isto com uma linha de quatro é muito difícil. Há equipas que baixam o médio centro, outros baixam um dos alas. Nós pensámos, olhando às caraterísticas dos nossos jogadores, jogar em três centrais. Tivemos uma competição em julho apenas com jogadores que atuam na Coreia do Sul e o Japão e decidimos experimentar. Funcionou bastante bem. O nosso 3-4-3 funcionou mesmo muito bem, com pouco tempo para treinar. Ainda assim, a equipa assimilou bastante bem esta especificidade. Também foram vários jogadores novos, os que atuam na Europa não participaram. Segue-se o passo seguinte, em setembro passado, já com os tais jogadores ‘europeus’. Tivemos dois jogos extremamente desafiantes na semana FIFA de setembro: Estados Unidos e México, ambos fora, ambos nos Estados Unidos. O México também parecia que jogava mais em casa que os próprios Estados Unidos (risos). Isto provocado pelo contexto cultural do que é esse país. Era uma zona de muitos mexicanos e parecia que estávamos no México. Tivemos um desempenho muito positivo. A sensação dos jogadores bastante boa também. Isso sedimentou a nossa ideia. Voltámos a jogar uma vez com uma linha de quatro defesas, num jogo contra a Bolívia, na semana FIFA de novembro. Mas os restantes foram em 3-4-3. Eu sinto que nós neste momento estamos preparados para jogar com as duas estruturas e com qualquer uma delas preparados para pressionar, utilizar uma construção a três ou a quatro. Com bola, tendencialmente assumimos esta configuração do 3-2-5, independentemente dos intérpretes. Se a base foi a linha de quatro, existe a tal questão do lateral esquerdo. Mas vamos procurando ter alguma variabilidade. Olhamos para as caraterísticas dos jogadores. Dando um exemplo: o PSG joga um futebol atraente e moderno, na minha opinião. Vemos quase todos os jogadores a interpretarem vários papeis e várias posições. Mas há duas coisas que ajudam muito a isso: o tempo para treinar e o facto do perfil da maioria desses jogadores lhes permitir jogar por dentro, por fora, mais à frente, mais atrás, pedir na profundidade, jogar à largura, jogar em zonas interiores, etc… quase todos têm caraterísticas que os fazem ser bons em tudo. No nosso caso, apesar de termos muito bons jogadores também, por vezes os jogadores têm de assumir predominantemente algo mais. É um pouco da nossa ideia e é assim que vamos configurando as nossas dinâmicas de jogo.
«Acredito que o primeiro grande objetivo é passar à fase seguinte. Nós temos uma boa equipa, composta por bons jogadores, mas está longe da qualidade e quantidade da seleção portuguesa. É incomparável».
Bola na Rede: Qual é o objetivo para o Mundial 2026?
João Aroso: Ele não foi assumido assim formalmente para fora, mas eu diria que eu acredito que o primeiro grande objetivo é passar à fase seguinte. Nós temos uma boa equipa, composta por bons jogadores, mas está longe da qualidade e quantidade da seleção portuguesa. É incomparável. Temos alguns jogadores de primeira linha do futebol mundial, mas depois temos alguns que jogam em patamares mais abaixo. Olhamos para a seleção portuguesa e estão todos no top. Há muitos que estão a top e não conseguem entrar no lote. Podemos estender isto a outras seleções que são de facto aquelas que têm outro tipo de ambições. Realisticamente, em primeiro lugar, passar à fase seguinte. Depois, cada eliminatória que puder vir a mais, será muito positivo.
«Gianni Infantino é o mesmo que entregou o Prémio Paz a um individuo da índole de Donald Trump, que é alguém que associado a tudo, menos ao respeito pelos valores humanos, ao respeito pelos outros».
Bola na Rede: Atualmente desempenhas funções de comentador. Gostas de o fazer? Vais continuar?
João Aroso: Acima de tudo, eu não sou comentador, mas sim treinador. Tive períodos com alguma duração na Sport TV, relativamente longos, e gostei muito. Ajudou-me na minha comunicação como treinador. Mas sempre que estava a comentar, via-me como um treinador, mas que naquela fase estava a fazer comentário. É assim que me vejo e não como um comentador. Este convite da RTP foi algo gostei muito, foi um gosto muito grande ter podido aceder positivamente, sempre na medida da minha disponibilidade. O meu primeiro trabalho é este como treinador na seleção da Coreia do Sul. Mas, como o contexto permite, porque são participações pontuais, que eu possa corresponder. Tem sido uma experiência muito positiva porque me revejo muito na forma como a RTP trata o desporto em duas vertentes: 1- na preocupação em falar sobre o jogo, que é aquilo de facto que eu gosto de fazer. Sinto-me menos confortável quando o assunto não é falar sobre o jogo, sobre os jogadores, sobre a componente tática e estratégica. É o que eu gosto de fazer. 2- a RTP, mesmo quando fala sobre o futebol, não de futebol, uma coisa um bocadinho diferente, o tal fenómeno do futebol, fá-lo com elevação, com respeito, com defesa dos valores da ética desportiva e do fair play. Eu revejo-me muito nisso. Aproveito essa oportunidade para procurar influenciar um bocadinho pela forma como eu olho para o futebol a este nível. O futebol é mais do que um desporto, é mais do que um fenómeno, tem uma força muito grande que pode e deve ser utilizada para a promoção dos melhores valores sociais e humanos. Custa-me muito que por vezes existam pessoas com lugares de destaque no futebol que não o façam na sua plenitude ou que eventualmente o procuram fazer, mas depois não sei se não redunda em hipocrisia. Vou dizer de forma muito clara. Quando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, fala de respeito e disse até que se sentia entristecido pelo que tinha visto no Estádio da Luz, e muito bem, já que eu condeno qualquer ato de racismo, mas é o mesmo que entregou o Prémio Paz a um individuo da índole de Donald Trump, que é alguém que associado a tudo, menos ao respeito pelos valores humanos, ao respeito pelos outros. Portanto, quando isto acontece, principalmente daquela forma, é algo que é muito negativo para o futebol e para a força que deve exercer no caminho do bem e de educar as pessoas, no sentido dos valores humanos e da ética desportiva. Acontecer um ato destes, com um impacto mundial tão grande, é uma machadada tremenda nesta capacidade e necessidade que nós temos, que o futebol ajude na promoção do bem.
«Se o treinador não tem competência para estar à vontade no que pede aos jogadores a este nível, no ponto de vista tático-estratégico, tem dificuldades. Mas em primeiro lugar não pode falhar nas relações humanas».
Bola na Rede: : Para fecharmos, és um homem do treino, mas este João Aroso não será o mesmo do começo de carreira. O treino também mudou de uma forma radical, acredito. O que é que se alterou mais? De que forma as tecnologias afetam o teu trabalho?
João Aroso: Falando do treino, em primeiro lugar é imperioso falar de José Mourinho. Quando comecei, coincidiu com ele. Também fazer uma referência a Carlos Queiroz. Quando comecei, era mais Carlos Queiroz. Isto no meu início mesmo. José Mourinho tem um contributo enorme para aquilo que é o desenvolvimento da qualidade do treino no futebol, o desenvolvimento da forma como se olha para o jogo, o desenvolvimento da qualidade do jogo… não falo somente em Portugal. O impacto dele foi transversal e que se estendeu a muitos países. Ele ter estado em várias ligas, nas mais importantes, ajudou. A evolução começou logo aí, foi uma evolução muito clara. Há um antes e depois de José Mourinho. Há outros nomes. O Guardiola tem um impacto muito grande. Ele aparece em 2008 e como treinador principal do Barcelona, onde introduz uma marca fortíssima. É evidente que já havia Rinus Michels antes, eu sei. Mas dentro daquilo que eu já conseguia acompanhar, acho que estes dois treinadores foram marcantes no desenvolvimento do treino e do jogo. A partir daí foi um beber da parte de muitos treinadores, com outras influências. Estes dois foram marcantes. Hoje em dia, cada vez mais, olha-se para o treino em função (ainda que não seja de agora) de como queremos jogar. Olhamos cada vez mais assim para isto. Quanto mais nós conseguirmos reproduzir no treino a forma como queremos jogar, naquilo que é de facto a parte fundamental do treino, mais nós estaremos a treinar com qualidade e a ser efetivos naquilo que fazemos, na minha opinião. Existe também uma intervenção do sports science, nomeadamente no âmbito da prevenção de lesão, da potenciação, que, desde que não haja inversão de prioridades, desde que seja muito claro que a prioridade tem que ser pensar no treinar futebol, no preparar a equipa para jogar o jogo que nós queremos e preparar o jogador, mesmo com trabalho individual do ponto de vista técnico-tático para melhorar as suas capacidades, para jogar, para desempenhar a sua função dentro do jogo que nós queremos jogar, desde que esteja estabelecido que a prioridade é essa, passa a existir um espaço importante de auxílio, desde que não induza um ruído, mas traga uma informação relevante, são obviamente bem vindos e acrescentam ao que é a preparação de uma equipa.
Bola na Rede: Acreditas que, hoje em dia, no futebol o ser humano ainda é mais importante que a máquina?
João Aroso: Totalmente. Eu lembro-me perfeitamente que o professor Manuel Sérgio dizia algumas coisas muito interessantes, mas sempre a valorizar o humano. Ele tinha uma expressão: ‘Não é o jogador, é o homem que joga’. Eu acho que isto diz um bocadinho do que eu penso sobre isso. Nós podemos perceber muito de treino e do jogo. Se falharmos nas relações humanas, estamos condenados ao fracasso. Portanto, a competência do treinador tem de estar alicerçada em perceber de treino, em perceber de jogo, hoje em dia o patamar da exigência colocado pelos próprios jogadores, fruto das experiências que têm e que os fazem perceber o jogo. Se o treinador não tem competência para estar à vontade no que pede aos jogadores a este nível, no ponto de vista tático-estratégico, tem dificuldades. Mas em primeiro lugar não pode falhar nas relações humanas. Se isto falhar, tudo o resto desaba, até mesmo aos melhores.



