O Benfica superou uma das deslocações mais difíceis desta temporada 2025/26 na Primeira Liga. A equipa de José Mourinho venceu o Gil Vicente por 2-1, em jogo relativo à 24.ª jornada. O técnico encarnado promoveu duas alterações face ao último encontro frente ao Real Madrid: Gianluca Prestianni rendeu Richard Ríos e António Silva ocupou o lugar de Tomás Araújo. Já César Peixoto não pôde contar com Gustavo Varela, por estar emprestado pelo Benfica, e lançou Héctor para o seu lugar, além de apostar em Agustín Moreira e Marvin Elimbi em detrimento de Joelson Fernandes e Antonio Espigares, após a derrota frente ao Estoril Praia.
As duas equipas apresentaram muitas semelhanças estruturais. A partir de um bloco médio, alternavam entre um 4-4-2 e um 4-3-3, dependendo sobretudo dos movimentos de Rafa Silva no Benfica e de Santi García no Gil Vicente. Na primeira fase de pressão, ambas procuravam condicionar a saída adversária com uma estrutura de 2+3. Perante organizações muito compactas e com prioridade em fechar o corredor central, os corredores laterais assumiam-se como fundamentais para criar superioridades e, consequentemente, perigo.
Como explicou José Mourinho em resposta ao Bola na Rede, parte da estratégia do Benfica passava por explorar o corredor direito através dos movimentos interiores de Gianluca Prestianni e das projeções constantes de Amar Dedic, quer por fora, quer – como tanto gosta – em condução para zonas interiores. O objetivo era obrigar Ghislain Konan a acompanhar o extremo argentino e aproveitar os rasgos de Dedic, tendo em conta que Agustín Moreira poderia não acompanhar ou chegar atrasado, conhecendo-se as características ofensivas do extremo uruguaio. Ainda assim, Konan foi conseguindo anular várias dessas tentativas e, no processo de construção, tem evoluído significativamente na saída de bola do Gil Vicente, tornando-se uma opção viável para a equipa sair apoiada pelo lado esquerdo. Surgiu em vários momentos projetado no corredor, oferecendo apoio a Agustín e acrescentando profundidade ao flanco.


Destaque também para Luís Esteves, um jogador que transmite segurança com bola à equipa de César Peixoto. Na dupla com Facundo Cáseres no meio-campo, assumiu um papel móvel na construção: baixava para construir na primeira fase, mas tinha igualmente liberdade para surgir em diagonais em zonas mais adiantadas. É importante sublinhar a coragem de César Peixoto ao apostar neste tipo de dinâmica, mesmo tratando-se de uma posição nevrálgica. A equipa não tem receio de adiantar vários elementos, quer em movimentos de rutura, quer na chegada à área. Em resposta ao Bola na Rede, o treinador explicou que a equipa não fica desequilibrada porque o lateral do lado contrário fecha por dentro e Facundo Cáseres assume uma função mais posicional para garantir o equilíbrio. Ainda assim, surpreende a forma como Luís Esteves, apesar do seu porte físico, consegue dar uma boa resposta também em organização defensiva num meio-campo a dois.
A verdade é que o Benfica aumentou o nível a partir dos 30 minutos e começou a criar as melhores oportunidades, curiosamente pelo corredor esquerdo, com Schjelderup e Samuel Dahl. Importa destacar a evolução do lateral sueco que, não sendo um jogador de grande agressividade no transporte ou no ataque constante ao último terço, associa-se muito bem naquele corredor. A equipa encarnada chegou mesmo ao golo aos 35 minutos, por Vangelis Pavlidis, na sequência de um pontapé de canto.


Depois das dificuldades sentidas nos minutos finais da primeira parte, o intervalo acabou por beneficiar o Gil Vicente. A equipa de César Peixoto restabeleceu a igualdade logo aos 51’, por Héctor Hernández, e passou também a explorar, com mais precisão, os corredores laterais, sobretudo através de Murillo, que encontrou algum espaço para manobrar.
Ainda assim, o Benfica – que na primeira parte recorreu algumas vezes à bola longa, sem grande sucesso, também pela ausência de Tomás Araújo (o central mais forte nesse capítulo) – passou, na segunda metade, a apostar mais nas variações de flanco para explorar o lado contrário, onde estava o verdadeiro ‘ouro’. Mesmo perante a competência do Gil Vicente a bascular para o lado da bola, era fundamental que extremos e laterais acelerassem já no último terço, potenciando situações de 1×1 para Andreas Schjelderup confrontar Zé Carlos no corredor. As águias voltaram à vantagem após uma excelente execução do extremo norueguês: com Zé Carlos a antecipar o movimento para dentro, Schjelderup puxou para fora e, de pé esquerdo, colocou a bola no fundo das redes.
O Gil Vicente ainda ameaçou, mas o resultado não se alterou até ao apito final. O Benfica soma três pontos muito importantes numa fase fulcral da temporada, numa altura em que começam a surgir jogos particularmente exigentes para os três grandes, mantendo-se na luta pelos primeiros lugares e sem aumentar a desvantagem pontual que tem para o primeiro e segundo classificados. Já a equipa de César Peixoto, apesar de ter perdido terreno para o quarto lugar – com o Braga agora cinco pontos à frente -, deixou sinais muito positivos, tanto na organização como na coragem competitiva demonstrada perante um Benfica obrigado a ganhar.


Rodrigo Lima
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Quando o Gil Vicente tem bola, o Luís Esteves acaba por ser um jogador muito móvel, capaz de participar na construção, mas também, aparecer em zonas mais adiantadas através de diagonais. Gostaria de lhe perguntar como é que se gere o risco e o benefício de o ter, por vezes, numa posição mais ofensiva? E pergunto-lhe também que papel tiveram os corredores laterais, sobretudo o direito, na estratégia da sua equipa para este jogo?
César Peixoto: O nosso meio-campo é muito móvel, temos timings para acionar a bola, para acionar tudo e mais alguma coisa. Eles jogam uns em função dos outros, jogam quase os três de olhos fechados ali no meio. A equipa está sempre equilibrada, nós temos uma equipa coesa defensivamente, muito organizada, não permitimos muito ao adversário, embora hoje, com estas equipas, seja natural que essas situações aconteçam mais. Mas o Luís, quando vai, os outros sabem o que têm de fazer para equilibrar a equipa. A equipa dificilmente está desequilibrada. Faltou-nos aqui ou ali matar uma jogada ou outra com falta para parar a transição do Benfica, mas quando o Luís vai a equipa sabe como equilibrar. Nós temos sempre o lateral do lado oposto fechado, temos os dois centrais, com o Facundo Cáseres logo ali preocupado com a vigilância do número 10, que hoje era o Rafa. Ou seja, a equipa está sempre muito equilibrada, não há nenhum problema. Nós queremos que a equipa seja ofensiva, que o Luís não tenha problemas em chegar lá à zona de finalização. Queremos colocar três, quatro homens na zona de finalização para fazermos golos. A equipa está trabalhada para isso desde o início, tem sido sempre assim e nós conseguimos estar sempre equilibrados e dificilmente permitimos muito ao adversário. Por isso, a equipa está mecanizada para essa situação e não vejo qualquer problema. Em relação aos corredores laterais, nós hoje queríamos que, no do lado direito, quando o Murilo depois viesse procurar bola no pé, porque sabíamos que os centrais do Benfica ficavam muito agarrados no corredor central e eram os médios que acompanhavam as diagonais. Aqui ou ali não conseguimos executar da forma como pretendíamos. O Konan conseguiu desbloquear várias vezes, chegou lá à frente muitas vezes. Acho que a equipa funcionou bem, sinceramente. Aqui ou ali tivemos uma dificuldade ou outra, mas é natural, estávamos a defrontar o Benfica. Acho que tivemos capacidade para ter bola, circular de um lado, circular do outro, empurrar o Benfica para trás. Jogámos por dentro, jogámos por fora, tivemos essa capacidade. Se calhar faltou-nos atacar um pouco mais o espaço em alguns momentos. O Benfica hoje procurou muito o jogo direto nas costas da nossa linha defensiva. Nós temos o jogo apoiado, que é a nossa ideia de jogo, mas eles sabem que, em quatro, uma tem de meter lá para abrir o espaço entre linhas, para termos mais capacidade de ligar, mas nunca foi muito preciso. Acho que podíamos ter sido mais agressivos nesse momento, podíamos ter metido uma ou outra, mas a equipa encontrou sempre soluções por dentro, com os nossos médios a circularem a bola para depois acelerarem por fora e criar situações de perigo. Acho que fizemos um bom jogo, acabámos por não concretizar.
Bola na Rede: Tendo em conta que o Gil procurou defender num bloco compacto e a fechar o corredor central, como é que foi gerindo as diferentes formas da equipa atacar, nomeadamente através do recurso à bola longa e às variações de flanco para explorar o corredor contrário? E, nesse sentido, pergunto-lhe também se a criação de maior perigo do Benfica poderia surgir na aceleração pelos corredores laterais?
José Mourinho: Há aí uma vaga nalguns países europeus de defesa ao homem que há duas décadas começou a ser completamente démodé. O Benfica e o Gil são das equipas que melhor defendem à zona. O Gil defende bem, bascula muito bem o lado da bola, fecha muito bem os espaços interiores. Nós tentámos abrir muito com o Dedic, com o Luca [Prestianni] a ir para dentro, a levar com ele o Konan, e depois a criar dificuldades ao ala, que é um ala ofensivo, e que tinha de vir obrigatoriamente com o Dedic, mas, muitas vezes, atrasado. Na 1.ª parte, começámos a criar por aí, sob o ponto de vista estratégico, mas, depois, sob o ponto de vista das qualidades individuais, começámos a desequilibrar muito pelo lado esquerdo, onde o Dahl tem… é muito longe de onde eu estou, mas tenho a sensação de que tem 2 situações muito boas, ou para marcar, ou para assistir, porque, por aquele lado, começámos a ir com 2 e com 3 jogadores, com Dahl, com Schjelderup, com Rafa, que aparecia ali. O Pavlidis também fez um trabalho extraordinário, é por isso que eu digo que há atacantes que só são bons quando marcam golos, mas há outros atacantes que também são bons quando não marcam golos. Acho que o Pavlidis fez um trabalho fantástico a esticar o jogo, a procurar as costas dos defesas, bolas longas como você diz. Equipas que jogam zonalmente bem como joga o Gil, e compactos como eles jogam, também temos de os obrigar a correr para trás, e acho que fizemos bem. O que eu não gostei no jogo foi a maneira como nós não gerimos o início da 2.ª parte, porque obviamente o Gil reage imediatamente. Nós temos a substituição, depois há ali uma acumulação de lançamentos, de pontapés de canto. Temos de saber gerir com outro tipo de maturidade. Inclusive a tentativa de reposição rápida do Trubin, numa situação como aquela, não se deve fazer, porque, quando a equipa está num momento difícil, e foi o primeiro momento difícil que tivemos no jogo, temos de saber gerir de outra forma. Não quero dizer com mais inteligência, mas menos naive.

