Mercado de transferências: dinheiro ou futebol?

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Já há alguns anos que se fala sobre o futebol estar a perder a sua essência e passar a ser um desporto movido pelas notas e pelos acordos. Mas nunca se notou tanto esta mudança como este ano.

A prova maior foi todo o alarido feito à volta das eleições do Real Madrid, que acabaram por dar vitória a Florentino Pérez, o presidente que já lá estava, em que durante toda a campanha a história de ambos os candidatos era “se votarem em mim prometo trazer grandes jogadores”, “serão os próximos galácticos”… A verdade é que ganhou, e – entre confirmações e rumores – a lista de novas aquisições de peso já vai longa: José Mourinho, Konaté, Bernardo Silva, Denzel Dumfries e, mais recentemente, Cucurella.

Marc Cucurella Espanha Euro 2024
Fonte: Filipe Oliveira/Bola na Rede

A verdadeira questão agora é: como é que se vai tomar conta daquele balneário? Mourinho é conhecido por saber manter as rédeas e domar egos, mas num clube que este ano passou por fases onde os jogadores não se entendiam uns com os outros, como é que trazer estes nomes vai ajudar a ganhar jogos. Porque em campo continuam a só poder estar 11 jogadores, e algo me diz que vários não vão gostar destas mudanças.

No entanto, isso leva-me a questões muito mais profundas (ou rasas, dependendo do ponto de vista). Que o Real Madrid sempre foi um clube que se move muito mais pelo dinheiro do que pelo jogo, já se sabe. E as estrelas que lá brilham são estrelas porque jogam mesmo bem, mas isso abre várias portas para um negócio que nunca foi mais exposto do que agora.

Hoje em dia parece que os clubes (os que podem) preferem trazer o jogador que mais vezes aparece na capa dos jornais seja por bons motivos ou não, do que ir buscar algum que efetivamente pode ajudar o clube a prosperar. E esta norma tem vindo a reger os mercados de transferências e contribuem para a perda da essência do futebol.

O futebol puro, que ainda se vai vendo nos escalões inferiores, já está em extinção. Os jogadores que arriscam e que têm marca própria, como Vinnie Jones, Ronaldinho Gaúcho, Maradona… São apenas nomes e lendas para relembrar o que o melhor desporto do mundo já foi.

É tudo um negócio, desenvolvido durante meses, e quem apresenta o melhor valor, leva o prémio. E, em certa parte, é percetível o porquê de ser assim. Obviamente os adeptos gostam mais de ver um nome conhecido a chegar ao plantel, e torcem o nariz ao nome nunca antes ouvido até o verem resolver o jogo.

Isto também cria uma pressão absurda nos jogadores, que já não podem ser só bons no que fazem, já têm de ser mais dinâmicos, ter o assessor certo, saberem adaptar-se, não se importarem de dar entrevistas e fazer umas sessões para marcas.

Mas onde fica o talento no meio disto tudo?

Rodri Bola de Ouro
Fonte: Ballon d’Or

Logicamente que continua a ser “o mais importante”. Sem talento, não se destacam. Sem boa publicidade, não se vendem. Mas apesar de o talento estar presente, nem sempre pode ser bem desenvolvido. Porque a questão dos clubes grandes é que existe sempre um plano a seguir, um objetivo a ser alcançado. E quem chega tem de se adaptar a isso e contribuir para que tal aconteça. Não tem propriamente liberdade total de jogar como quer ou como sempre foi habituado. São realidades que pesam na hora da decisão.

O mercado de transferências deste ano vai ser extremamente marcado pelas prestações no Mundial 2026, mas as movimentações até agora confirmadas já estão a levantar o véu do que vai ser uma época 2026/27 bastante mais competitiva e alterada.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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