Se quisermos analisar a época que o Benfica está a realizar, temos de a dividir em duas partes. Há um Benfica pré José Mourinho, e um Benfica pós José Mourinho. Bruno Lage começou a temporada com o desejo em ser campeão nacional, e para isso construiu um plantel à sua imagem. Rui Costa abriu os cordões à bolsa e gastou uma fortuna em contratações. Entre elas, houve uma que saltou logo à vista. Richard Ríos, médio colombiano, veio com o rótulo de estrela, e o seu lugar no meio-campo parecia já estar reservado. Para jogar ao seu lado, o Benfica foi buscar outro médio sul-americano com boas referências, Enzo Barrenechea.
Mas aquilo que prometia ser uma dupla de sucesso, viria a coincidir com um período de más exibições no arranque da temporada. O início em falso na Liga dos Campeões, com a derrota caseira frente ao Qarabag, foi a gota de água. Era notório que o meio-campo encarnado não estava a render aquilo que se esperava, ainda mais quando no lado direito do ataque jogava Fredrik Aursnes, um médio que de extremo não tem nada. Pode safar em algumas situações, mas aquele não é mesmo o seu lugar. Bruno Lage foi despedido e José Mourinho pegou na equipa. Era urgente mudar alguma coisa. O Benfica tinha de render mais, muito mais.


José Mourinho ainda utilizou a dupla Barrenechea-Ríos por mais algum tempo, as exibições, ainda que tivessem demorado, melhoraram, mas o técnico natural de Setúbal percebeu que o meio-campo encarnado podia ganhar uma nova vida. E ano novo, vida nova, a lesão de Barrenechea em janeiro e a irregularidade exibicional de Ríos fez com que Mourinho alterasse os homens do meio-campo. Fredrik Aursnes e Leandro Barreiro passaram a ser os novos donos daquele setor, com Rafa mais à frente no apoio a Vangelis Pavlidis, e a diferença foi evidente. A qualidade do futebol apresentado deu um salto gigante, e não foi por acaso que o épico triunfo por 4-2 frente ao Real Madrid foi com eles os dois a titulares.
Ao analisarmos estas duas duplas do meio-campo, percebemos que com Aursnes e Barreiro o Benfica não só ganha mais estabilidade no centro do terreno, como também fica mais forte ofensivamente. O médio norueguês anda por todo o lado, um verdadeiro box-to-box. Recupera bolas, vai à frente, joga e faz jogar, e quase todo o futebol das águias passa por ele. Já o jogador luxemburguês gosta de avançar no terreno com a bola nos pés e costuma aparecer em zonas de finalização. Põe intensidade no jogo quando é preciso, mas também sabe meter gelo quando o jogo pede. São dois médios que se complementam muito bem entre eles.


Quanto aos outros dois médios, Barrenechea é um jogador que fica mais preso no seu raio de ação, limitando-se ao principal papel de um médio defensivo, e muitas das vezes cumpre bem esse propósito. Ríos vê-se que tem qualidade, mas falta-lhe ser mais objetivo. Por vezes recebe a bola e parece querer desfazer-se dela o mais rápido possível. Há quem o acuse de só fazer passes para o lado. Não discordo de quem tem essa opinião, apenas acho que pode render mais daquilo que já mostrou até agora.
A lesão de Aursnes abriu portas para que Barrenechea e Ríos fossem novamente titulares, sendo que José Mourinho optou por colocar o internacional colombiano a jogar ao lado de Leandro Barreiro nas duas últimas partidas. E não é que ele foi considerado o melhor em campo no encontro com o Vitória SC? Mas lá está. Estamos a falar de um jogador que tem sido bastante irregular esta época, capaz do melhor e do pior. Ainda que ache que a dupla sul-americana também não é assim tão má como pintam, neste momento o meio-campo que dá mais garantias de sucesso é composto por Aursnes e Barreiro.

