O futebol, tantas vezes, resume-se a um detalhe simples: quem aproveita melhor o erro do adversário. No Estádio Luís Filipe Menezes no Olival, o FC Porto B fez disso um plano. E executou-o na perfeição contra o Chaves, saindo com uma vitória folgada, que não traduz o que se viu em campo.
No arranque da partida, foi a equipa flaviense que quis ter mais bola e iniciativa de jogo. Logo aos 3 minutos, Roberto obrigou Gonçalo Ribeiro a uma defesa tranquila, após cruzamento de Aarón Romero.
A equipa flaviense percebeu cedo onde podia ferir: nas costas do lateral portista Luís Gomes. Tanto Kaio Henrique como Luís Gomes deixavam muito espaço nas suas costas. Aarón Romero e Reinaldo exploravam o corredor esquerdo com insistência, aproveitando o espaço deixado pela projeção ofensiva do lateral portista. Mas houve sempre um problema. O Chaves chegava, mas não definia.
E no futebol, quem não marca, arrisca-se a sofrer. Um erro garrafal do experiente (16’) guardião cabo-verdiano Vozinha (que irá ser o titular da baliza da sua seleção no Mundial numa presença inédita do país lusófono nessa competição), desbloqueou a partida.
Até àquele momento, o FC Porto B estava com muitas dificuldades em acercar-se à baliza transmontana. Vozinha falhou de forma clamorosa, Gonçalo Sousa antecipou-se e serviu Leonardo Vonic. O avançado alemão de origem croata, frio e eficaz, fez o que lhe competia: golo. Primeira oportunidade, primeiro golpe. E o padrão manteve-se. O Chaves tentou reagir, através de remates desenquadrados de Ktatau e Bruno Rodrigues. A equipa transmontana colocou sempre muita intensidade, mas pecou sempre por falta de critério no último passe ou na tomada de decisão.
Pelo meio, um momento que nada acrescenta ao jogo: tensão entre Reinaldo e João Teixeira, com acusações graves que aqueceram os ânimos dentro e fora de campo. Felizmente, o jogo seguiu. E seguiu para mais um castigo pesado para a equipa flaviense.
Aos 36’, novo erro defensivo flaviense. Desta vez, uma escorregadela de Bruno Rodrigues, novamente bem aproveitada por Gonçalo Sousa, numa nova demonstração de eficácia portista.
Gonçalo Sousa voltou a aparecer no sítio certo, e com a lucidez certa, serviu Leonardo Vonic que voltou a fazer o mais fácil, apesar de que desta vez teve de esperar um pouco mais para ver o seu golo confirmado. Uma revisão de VAR de mais de três minutos ditou que a bola tinha ultrapassado largamente a linha de golo.
Bis do avançado portista. Duas oportunidades, dois golos. E uma primeira parte que se explica assim: o Chaves jogou mais vezes perto da área adversária, mas o FC Porto B foi a única equipa verdadeiramente perigosa.
Muito por culpa de um nome: Gonçalo Sousa. Irrequieto, móvel, inteligente, com um grande sentido táctico, esteve em todo o lado e fez a diferença em todos os momentos decisivos.
A segunda parte trouxe um Chaves mais ousado. As entradas, sobretudo a de Carraça, deram outra largura e qualidade ofensiva. O lateral português (com passado portista) foi, de longe, o elemento mais perigoso da equipa flaviense, criando sucessivos problemas ao bloco portista.
E oportunidades não faltaram. Jorge Delgado teve duas claras: uma aos 62’,, e outra aos 70’, com um toque de letra que só não deu golo por uma enorme intervenção de Gonçalo Ribeiro. Ambas oportunidades tiveram um denominador comum: Carraça. Talvez tenha sido tardia a sua entrada no terreno do jogo, e a sua equipa acabou por pagar caro os erros que cometeu, saindo vergada a uma derrota muito pesada.
Aqui esteve o resumo do jogo. O Chaves aproximava-se, ameaçava, criava… mas não concretizava.
Já numa fase em que o jogo pedia apenas gestão e o Chaves jogava mais com o coração do que com a cabeça, surgiu o melhor momento do jogo. Aos 87’, a pérola portista Mateus Mide (um dos jogadores capitais para Portugal se ter sagrado campeão europeu e mundial de sub-17 em 2025), fechou as contas. Grande lance, grande finta, grande golo. Um daqueles momentos que não se ensinam, aparecem, numa genialidade do médio-ofensivo português, a quem se augura um futuro muito promissor. Esse lance matou definitivamente o jogo.
O resultado final não engana… mas também não conta tudo. O Chaves teve momentos, teve espaços, teve oportunidades. Chegou muitas vezes ao último terço, explorou bem as alas, criou desequilíbrios.
Mas faltou-lhe o essencial: eficácia. Já o FC Porto B foi o oposto. Menos volume, mais precisão. Menos aproximações, mais golos.
Há jogos que se ganham com mais bola. Outros, com mais qualidade.
E há aqueles que se ganham com frieza. O FC Porto B foi pragmático, eficaz, e clínico. E teve dois nomes que explicam quase tudo: Gonçalo Sousa, que pensou o jogo. Vonic, que o resolveu.
O Bola na Rede esteve presente no Estádio Luís Filipe Menezes, mas não teve a oportunidade de colocar questões aos treinadores de ambas equipas.

