Rui Borges disse que o Sporting merecia pelo menos o prolongamento, e com razão. Face ao que aconteceu nos dois jogos, o Sporting podia muito bem estar nas meias-finais e ter prolongado a sua melhor participação de sempre na Champions League. No fundo, na grande maioria da eliminatória, pode argumentar-se que o Sporting foi melhor defensivamente – impecáveis na organização defensiva sem permitir muitas grandes oportunidades – e ofensivamente – tiveram porventura as melhores chances do global das duas mãos.
«A palavra orgulho é a certa. Os jogadores, pelo que fizeram nos dois jogos, mereciam mais. Merecíamos pelo menos o prolongamento. As melhores oportunidades são do Sporting. Foi fantástico o carácter da equipa. A palavra orgulho é certa. Qualidade que a equipa tem demonstrado em toda a época, não só hoje. Com mais impacto porque foi na Champions, mas também somos os melhores», foram estas as primeiras palavras de Rui Borges em conferência de imprensa após confirmar-se a eliminação diante do Arsenal no Emirates.
Com desvantagem de uma bola na eliminatória, Rui Borges montou uma estratégia ofensiva com o objetivo de instalar o grupo no meio-campo adversário e «arranjar o momento certo» para entrar no bloco do Arsenal, com prioridade em ataques mais demorados do que rápidos. Sem bola, a ideia foi «tentar puxar a pressão no lado direito para o Pote saltar a três. Era um corredor morto, porque acionando a pressão à direita, a bola não variava à esquerda». Olhando ainda ao 11 inicial, face à ausência de Iván Fresneda, o técnico dos leões apostou em Eduardo Quaresma para a lateral-direita e o defesa português voltou a mostrar que pode jogar nessa posição, assinando uma bela exibição a nível defensivo.
Se continuarmos por esta onda e falarmos agora de individualidades, jogadores como Morten Hjulmand – capitão e líder dentro de campo com a sua capacidade de ler o jogo e ser influente com e sem bola – e Maxi Araújo – pela pedalada e por ter estado ligado a duas das melhores oportunidades do Sporting (bola de Geny Catamo ao ferro e remate no início da segunda parte) – estiveram entre os destaques. Gonçalo Inácio e Ousmane Diomande saem com uma boa imagem e como dos principais motivos da incapacidade de Viktor Gyokeres em destacar-se, e João Simões quase foi herói ao empatar no final da partida. Do lado do Arsenal, há que destacar jogadores como Martín Zubimendi (gigante em campo), o capitão Declan Rice e mesmo Eberechi Eze pela primeira parte.
«Balanço? Muito positivo. De alguma forma, marcámos a história do Sporting. Olhar para as coisas de forma positiva, é o início de um sonho e de um crescimento que o Sporting tem vindo a fazer. Temos de conseguir manter o caminho e o crescimento. Tivemos a felicidade de olhar para o Sporting e para as equipas portuguesas de forma diferente. Mérito do Sporting, mas valoriza o nosso campeonato e as nossas equipas. Serviu para valorizar todos, mais ao Sporting que fez a caminhada, mas a todos nós portugueses e equipas portuguesas. Que seja um caminho crescente. Difícil, não temos as armas das grandes ligas europeias, mas conseguimos», disse também Rui Borges com uma avaliação à campanha na Champions League.
Esta campanha do Sporting na Champions League será recordada: não só por chegar aos quartos de final, mas também pela forma como conseguiu. Na fase de liga, ganhou todos os jogos que disputou em Alvalade (incluindo o campeão europeu em título, PSG), empatou na casa da Juventus e só perdeu com o Bayern Munique (chegou a estar a ganhar e só sofreu o primeiro golo aos 65’) e Nápoles, ambos os jogos fora. Na última jornada, venceu o Athletic Club por 3-2 com golo de Alisson Santos aos 90+4’ e garantiu a qualificação direta dentro do top-8. Como se não bastasse, ainda aconteceria uma reviravolta histórica nos oitavos de final com um 5-0 frente ao Bodo/Glimt em Alvalade. A melhor campanha de sempre do Sporting na Champions League.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Nesta eliminatória, o Sporting dificultou muito a construção ofensiva do Arsenal e a criação de grandes oportunidades. Taticamente, como explica a solidez defensiva no seu geral e que dificuldades encontrou com bola, sobretudo contra o meio-campo adversário?
Rui Borges: Dificuldades com bola é simples. O Arsenal tem das melhores linhas defensivas da Europa, centrais fortíssimos no duelo e rápidos. Não somos fisicamente uma equipa forte em duelos, gostamos de ter bola e jogo apoiado. Não temos muito jogadores para transição. Batemo-nos com uma defesa fortíssima atleticamente, em velocidade. Era importante instalar, quebrar e ficar com bola, com ataques demorados. Não podíamos querer sempre acelerar. Queríamos instalar e arranjar o momento certo para entrar no bloco deles, mais do que a transição. Centrais rápidos e atléticos. Dois jogaços do Luis, não cansa só correr, mas levar com os duelos. São dois animais. A dificuldade foi por aí. Defensivos, não deixámos criar nada. Lá, o Odegaard levou a não termos tantos timings de pressão e criou superioridades que não nos criaram perigo. Tínhamos superioridade atrás e não tínhamos na frente. Hoje foi por aí, tentar puxar a pressão no lado direito para o Pote saltar a três. Era um corredor morto, porque acionando a pressão à direita, a bola não variava à esquerda. A variabilidade dos médios do Arsenal é tanta que em alguns momentos não dá para saltar. O Eze como 10 ficava longe, conseguiram ligar com ele, mas não criaram perigo. Equipa fantástica nesse aspeto.
Não foi possível realizar pergunta a Mikel Arteta na conferência de imprensa de pós-jogo.

