O renascimento do Dragão: da cicatriz de Amesterdão ao regresso da mística

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O FC Porto voltou a ser campeão nacional num tempo em que muitos ainda procuravam perceber se o clube do Dragão conseguiria recuperar a estabilidade perdida nos últimos anos. Mais do que um simples título, o 31.º campeonato representou uma reconstrução profunda de uma estrutura que parecia presa entre o desgaste do passado recente, a pressão da mudança presidencial e a urgência de voltar a competir ao mais alto nível.

De facto, o que aconteceu no Dragão ao longo dos últimos dez meses diz muito sobre futebol, sobre liderança, sobre reconstrução, e sobre aquilo que separa os clubes que ganham dos que apenas participam.

Por conseguinte, o 31.º campeonato da história azul e branca não nasce apenas de uma soma de vitórias, mas de uma reconstrução profunda de um clube que percebeu que precisava de mudar quase tudo para voltar a ganhar. E nasce, sobretudo, da coragem de André Villas-Boas em assumir riscos num momento em que o erro seguinte podia ter consequências devastadoras.

Depois de uma primeira época de presidência marcada por turbulência, contestação e falhanços evidentes nas apostas em Vítor Bruno e, mais tarde, em Martín Anselmi, Villas-Boas percebeu que o FC Porto necessitava de uma rutura mais séria. Não bastava mudar o treinador. Era preciso mudar a lógica, o pensamento, a estrutura e a forma de construir uma equipa. E foi aí que surgiu Francesco Farioli.

Francesco Farioli, o filósofo que encontrou no Dragão a redenção

Quando Francesco Farioli aterrou no aeroporto Francisco Sá Carneiro, a 3 de julho de 2025, trazia consigo um peso difícil de ignorar. O italiano chegava ao FC Porto semanas depois de protagonizar um dos colapsos mais traumáticos do futebol neerlandês recente. O Ajax deixara escapar uma vantagem de nove pontos a cinco jornadas do fim e oferecera o título ao PSV. Em Amesterdão, ficou a imagem de um treinador jovem incapaz de gerir a pressão dos momentos decisivos.

No Dragão, porém, olharam para lá da cicatriz. Villas-Boas, tal como revelara numa entrevista ao podcast “O Código Farioli”, da Rádio Renascença, já admirava o técnico italiano há algum tempo, sensivelmente desde 2023/24, época em que timoneiro transalpino levou o Nice ao quinto lugar da Ligue 1, com a melhor defesa do campeonato, com apenas 29 golos sofridos.

O presidente portista viu, então, naquele treinador de 37 anos algo que encaixava no futuro que imaginava para o clube. Não apenas pelas ideias táticas, mas pela forma quase obsessiva como pensa o jogo. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Florença, influenciado por Roberto De Zerbi e profundamente marcado pela escola italiana, Farioli encara o futebol como uma construção racional, estética e emocional ao mesmo tempo.

Francesco Farioli FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

O sistema, para ele, não é nem nunca foi o centro da discussão. O essencial são os princípios, dominar o jogo, controlar os ritmos, reagir rapidamente à perda da bola, pressionar de forma coordenada. No fundo, obrigar o adversário a viver desconfortável. E, acima de tudo, transformar uma equipa num organismo coletivo capaz de pensar como um só.

No FC Porto encontrou terreno fértil para aplicar essas ideias, mas Farioli também percebeu rapidamente onde estava. Entendeu que o clube precisava de recuperar a agressividade emocional que perdera. Assimilou o espírito competitivo do Dragão, entrou em alguns “bate-bocas”, comprou diversas batalhas institucionais e aproximou-se da ideia histórica do “juntos contra todos” que tantas vezes definiu o clube. Sem copiar ninguém, mas percebendo perfeitamente o contexto.

E, ao contrário do que muitos antecipavam e ansiavam, o fantasma do Ajax nunca entrou verdadeiramente no balneário portista.

O maior mercado da história do clube

A escolha do treinador foi apenas o primeiro passo, mas o segundo foi ainda mais ousado.

Na própria apresentação de Farioli como novo técnico do clube, André Villas-Boas prometera “o maior mercado de sempre” e cumpriu. O FC Porto investiu mais de 90 milhões de euros em reforços (que se podem transformar em mais de 100, mediante o cumprimento de objetivos associados a alguns jogadores), numa altura em que ainda tentava estabilizar financeiramente a SAD. De facto, foi uma aposta de risco, mas uma “jogada” pensada ao detalhe.

O clube deixou de contratar jogadores sem enquadramento lógico e passou a recrutar perfis claramente identificados para o modelo de Farioli. Toda a estrutura trabalhou na mesma direção. Administração, scouting, staff e equipa técnica passaram a falar a mesma linguagem.

Pepê Victor Froholdt FC Porto Jogadores
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

Victor Froholdt chegou do Copenhaga e transformou-se imediatamente num dos rostos da época. Médio de pulmão inesgotável, intenso sem bola, criterioso com ela e cada vez mais influente ofensivamente. Daqueles jogadores que parecem estar em todo o lado ao mesmo tempo. Não é por acaso que foi eleito o melhor jogador e melhor jovem da Liga.

Jan Bednarek e Jakub Kiwior deram ao FC Porto algo que faltara durante demasiado tempo: segurança defensiva. Uma dupla de centrais fisicamente imponente, agressiva nos duelos e extremamente confortável a defender metros largos nas costas.

Gabri Veiga, que já tinha chegado ainda com Martín Anselmi, trouxe critério, criatividade e capacidade de chegada à área. Pablo Rosario tornou-se num dos jogadores mais úteis do plantel pela inteligência tática e polivalência demonstrada. Alberto Costa acrescentou profundidade e potência física ao corredor direito. Borja Sainz, apesar de tudo, ofereceu compromisso coletivo e agressividade sem bola. Ainda chegaram Luuk de Jong, a fazer lembrar as antigas “surpresas” no jogo de apresentação aos sócios, e Dominik Prpic, projeto de defesa-central.

FC Porto x Sporting Morten Hjulmand e Gabri Veiga
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Depois houve janeiro, que acabou por ser decisivo. Enquanto os rivais acusavam desgaste, o FC Porto reforçou-se ainda mais. Chegaram Thiago Silva, experiência pura para um balneário jovem; Seko Fofana, músculo e intensidade para refrescar o meio-campo; Terem Moffi, alternativa às lesões no ataque; e Oskar Pietuszewski, adolescente polaco irreverente que entrou diretamente para agitar jogos e desequilibrar no um para um.

Todos estes foram retoques que completaram um plantel, por si só, já funcional. O resultado foi uma equipa equilibrada, vertical quando necessária, sólida quando a situação o exigia, com alternativas reais em todos os setores e com a profundidade suficiente para nunca depender de um único homem. Farioli tinha um plantel e isso, em competições longas e exigentes, é tudo (para se ter uma noção, 33 foi o número de jogadores campeões pelo emblema azul e branco).

Uma equipa construída a partir da defesa

Existe uma frase antiga no futebol e até no desporto, em geral, que raramente falha: ataques ganham jogos, defesas ganham campeonatos.

O FC Porto de Farioli foi a personificação dessa ideia. A equipa terminou a primeira volta com 16 vitórias e apenas um empate (0-0, diante do Benfica, no Estádio do Dragão), tendo, nessa fase, sofrido apenas quatro golos. Aliás, durante largos períodos, parecia praticamente impossível criar perigo contra aquele bloco defensivo.

Francesco Farioli Jakub Kiwior
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Convém referir que o FC Porto não foi uma máquina ofensiva exuberante durante toda a época, mas também não precisava de o ser. Foi, isso sim, uma equipa tremendamente competente, capaz de sofrer quando necessário, capaz de controlar jogos sem bola e capaz de ganhar por 1-0 sem entrar em pânico, algo que explica o facto de metade (14 em 28) das vitórias na prova terem sido pela margem mínima.

E isso acabou por destruir psicologicamente a concorrência. No final da primeira metade, o campeonato não estava ganho, claro, mas os alicerces estavam lançados com uma solidez que dava ao clube uma margem de conforto que há muito não se via no Dragão (sete pontos de vantagem para o segundo classificado, Sporting, e dez sobre o terceiro, Benfica), até porque, antes da vitória, à quinta jornada, frente ao CD Nacional (1-0), o clube azul e branco não era sequer líder isolado da Primeira Liga há, imagine-se, 1217 (!) dias, o que equivale a, sensivelmente, três anos e quatro meses.

O modelo de jogo de Farioli: intensidade racional e uma equipa moldada ao detalhe

Francesco Farioli trouxe ao FC Porto uma ideia de jogo muito mais complexa do que a simples imagem de uma equipa pressionante e intensa. O italiano nunca quis apenas um conjunto agressivo. Quis, acima de tudo, uma equipa capaz de controlar emocionalmente os jogos, dominar espaços, perceber ritmos e adaptar-se aos diferentes contextos competitivos sem perder identidade. E foi precisamente aí que o FC Porto deu o salto.

O 4-3-3 servia como ponto de partida, mas raramente explicava tudo. Em posse, os extremos jogavam muito abertos para esticar o bloco adversário, enquanto os interiores procuravam constantemente movimentos de rutura entre linhas. Os laterais começavam muitas vezes em posições mais baixas, quase prudentes, para atrair pressão e criar espaço interior para Alan Varela ou Froholdt receberem de frente para o jogo. A partir daí, acelerava-se.

O “6”, normalmente Varela ou Pablo Rosario, assumia importância vital. Era o organizador silencioso da primeira fase de construção, quase sempre o homem livre que permitia ligar o jogo e mudar rapidamente o centro da ação. Quando os adversários começaram a condicionar mais agressivamente essa saída, o FC Porto adaptou-se. Froholdt e Gabri Veiga passaram a baixar mais no terreno para participar na construção, enquanto os laterais ganharam liberdade para subir metros e aparecer em zonas interiores ou exteriores, dependendo do contexto.

Alberto Costa FC Porto
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Alberto Costa tornou-se particularmente importante nesse crescimento ofensivo da equipa. A potência física permitia-lhe aparecer constantemente no corredor direito, muitas vezes quase como extremo adicional. Já Martim Fernandes, apesar da utilização intermitente, fruto das lesões, oferecia outro tipo de riqueza, mais técnica e criativa, surgindo frequentemente por dentro para combinar curto e dar fluidez à circulação.

Na frente, o ponta de lança deixou de ser apenas uma referência fixa de área. Samu, antes da grave lesão, tornou-se fundamental na forma como enquadrava os ataques. Estava a evoluir imenso na forma como segurava jogo, atraía centrais e criava espaço para as entradas dos médios. Assim sendo, o FC Porto começou a explorar muito mais o conceito do “terceiro homem”, algo muito presente no pensamento de Farioli.

Todavia, foi sem bola que esta equipa verdadeiramente se transformou numa máquina competitiva. O comportamento defensivo do FC Porto foi talvez o maior segredo da época. A pressão alta existia, naturalmente, mas era extremamente organizada. Não havia perseguições emocionais nem descontrolo posicional. Tudo parecia sincronizado, na medida em que os extremos fechavam linhas interiores, os médios saltavam no momento certo e os centrais defendiam muitos metros nas costas com enorme agressividade.

Porém, quando precisava de baixar o bloco, a equipa desmontava-se rapidamente, sem qualquer tipo de receio ou “vergonha”, para uma estrutura próxima de um 5-4-1. O trinco baixava para junto de um dos centrais (nunca para o meio dos mesmos), os extremos baixavam até formarem praticamente uma linha de quatro no meio-campo e o ponta de lança ficava isolado na frente, preparado para explorar transições ou simplesmente servir de primeira contenção. Era um comportamento muito visível nos momentos de maior aperto, fosse contra que equipa fosse.

Essa capacidade de alternar entre pressão alta e bloco médio-baixo deu uma enorme maturidade competitiva ao FC Porto. A equipa sabia exatamente quando acelerar e quando proteger espaços. Sabia sofrer sem entrar em pânico e sabia defender vantagens mínimas sem deixar de competir.

Kiwior e Bednarek FC Porto x Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Daí a importância absurda da dupla Bednarek-Kiwior. Com as devidas diferenças, a todos os níveis, os dois centrais fizeram lembrar a mítica dupla Jorge Costa-Ricardo Carvalho e encaixaram perfeitamente neste modelo híbrido. Bednarek dava liderança, agressividade e domínio aéreo. Kiwior oferecia velocidade, leitura e qualidade na saída curta.

Atrás deles, Diogo Costa voltou a parecer um guarda-redes de dimensão mundial, decisivo tanto entre os postes como na gestão da profundidade. Aliás, em muitos jogos, decidiu pontos praticamente sozinho. Nas vitórias pela margem mínima (e ainda foram algumas), houve quase sempre uma defesa fundamental do capitão portista, tendo, além disso, acumulado um recorde pessoal de 21 clean sheets no campeonato.

Reitero que, ofensivamente, o FC Porto nunca foi uma equipa desenhada para o espetáculo permanente. Farioli percebeu cedo que não tinha matéria-prima para viver apenas da estética. Preferiu, antes, construir uma equipa pragmática, fortíssima nos detalhes, preparada para ganhar jogos de diferentes formas. Principalmente no início da temporada, houve noites de futebol dominante e sufocante. Noutras ocasiões, designadamente com o passar da temporada e o acumular de desgaste, surgia a versão mais operária do campeão, confortável a vencer por 1-0/2-1 e a controlar emocionalmente o adversário.

Festejos Jogadores FC Porto
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

As bolas paradas acabaram igualmente por assumir enorme importância dentro deste modelo. Não apenas pela qualidade de execução (Gabri Veiga como principal arma), mas pela quantidade de jogadores fortes fisicamente que o plantel possuía. Bednarek, Kiwior, Samu, Froholdt, Fofana ou até Pablo Rosario transformavam muitos cantos e livres laterais em momentos de verdadeiro pânico para os adversários.

E depois existia talvez o aspeto mais diferenciador de todos: a gestão física. Farioli rodou constantemente a equipa sem destruir rotinas e dinâmicas coletivas. O FC Porto chegou aos jogos e aos meses decisivos com frescura física, algo que contrastou brutalmente com o desgaste evidente dos rivais, sobretudo do Sporting.

No fundo, este FC Porto foi uma equipa profundamente moderna. Física, agressiva, organizada e extremamente inteligente na forma como ocupava os espaços. Uma equipa menos romântica do que algumas versões históricas do clube e até do que alguns dos anteriores campeões, talvez, mas tremendamente competente, e, na esmagadora maioria das ocasiões, emocionalmente mais forte do que quem tinha pela frente.

Uma maratona de sofrimento controlado até à consagração

Como já referido, o FC Porto assumiu a liderança isolada na quinta jornada, altura em que venceu o Nacional, sendo que, na ronda anterior, já tinha batido o então bicampeão nacional Sporting, por 1-2 (a liderança isolada apenas foi confirmada no jogo seguinte, porque o Benfica tinha um jogo em atraso). Assim, por lá ficou, sem deixar cair o cetro, até ao apito final da última ronda.

Há que referir que a segunda volta trouxe, inevitavelmente, alguma turbulência. É, de resto, da natureza dos campeonatos longos que assim seja. A derrota em Rio Maior, por 2-1, foi um mero acidente de percurso, tratada como tal pelos próprios jogadores e pelo treinador. Um resultado isolado que não alterou a trajetória do grupo.

Gabri Veiga FC Porto Casa Pia
Fonte: Pedro Barrelas / Bola na Rede

Mais simbólicos foram os empates que, apesar de tudo e com um grão de sorte diferente, poderiam ter encerrado a questão do título mais cedo. No Dragão, diante do Sporting, depois de um golo de Seko Fofana, aos 76’, o FC Porto esteve a vencer até ao último minuto. Até que Francisco Moura cometeu um penálti que, numa primeira instância, Diogo Costa até defendeu, mas que, depois, nada pôde fazer quanto à recarga de Luís Suárez. O que podia ter sido um regresso à almofada de conforto dos sete pontos de avanço sobre os leões, segundos classificados, converteu-se numa faca nas costas, mas nem por isso a equipa perdeu o rumo.

Na Luz, em visita ao reduto do Benfica, o FC Porto mostrou uma das suas melhores exibições da época, chegando ao intervalo a vencer por 0-2, algo que nunca havia feito na história do novo Estádio da Luz. O mérito era enorme, a primeira parte tinha sido soberba. Contudo, a segunda parte não correspondeu ao mesmo nível, visto que, aliado ao mérito encarnado de não desistir e correr sempre atrás do resultado, as substituições não tiveram o efeito desejado e o empate acabou por consumar-se. Uma oportunidade perdida, sem dúvida, mas não um desastre, até porque, na mesma ronda, o Sporting também havia empatado a duas bolas em Braga.

Rodrigo Mora Gustavo Sá FC Porto Famalicão
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

O episódio mais doloroso para os adeptos portistas aconteceu em casa, diante do Famalicão. A equipa esteve por duas vezes em vantagem, marcou o 2-1 aos 90+2 minutos (também por Seko Fofana), e, ainda assim, foi alcançada no derradeiro lance da partida. Um autêntico balde de água gelada para quem estava nas bancadas. Mesmo assim, a liderança manteve-se e a distância foi sempre gerida com maturidade.

A 2 de maio, e já depois de uma igualdade a duas bolas do Benfica em Famalicão que colocou os azuis e brancos a apenas um ponto do título, esse acabaria, então, por ser confirmado, num Dragão em ebulição emocional, perante um Alverca que resistiu enquanto pôde, mas que acabou derrubado por aquilo que tantas vezes funcionou como arma silenciosa da equipa de Francesco Farioli: a bola parada, neste caso, num canto.

Apareceu Jan Bednarek, o central polaco, verdadeiro “capitão sem braçadeira” desta equipa pela liderança competitiva, pela agressividade e pela estabilidade emocional que transmitiu durante toda a época, elevou-se acima de toda a gente e desviou para o fundo da baliza o golo que selou o 31.º campeonato nacional do clube. Um 1-0 curto no resultado, mas gigantesco no simbolismo. O FC Porto voltava ao topo quatro anos depois e fazia-o da forma que melhor definiu esta temporada: sofrimento, controlo, detalhe e eficácia.

Jan Bednarek Thiago Silva FC Porto Jogadores
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Curiosamente, já na ressaca das celebrações, surgiu um daqueles episódios improváveis que o futebol, de tempos a tempos, insiste em oferecer. Sem a mesma tensão competitiva, com várias mexidas no onze e inevitavelmente embalado pela euforia dos festejos, o FC Porto perdeu na Vila das Aves, por 3-1, frente a uma equipa já despromovida. Um resultado histórico pela negativa, mas também absolutamente singular: em 91 edições do campeonato português, nunca uma equipa matematicamente condenada à descida tinha conseguido derrotar um campeão já consagrado.

Um detalhe estatístico quase absurdo, que impossibilitou a turma orientada por Francesco Farioli de igualar o recorde de pontos numa edição da Liga (em 2021/22, o FC Porto, de Sérgio Conceição, fez 91), mas que em nada beliscou uma época que, no essencial, devolveu o FC Porto ao lugar onde sente que pertence.

Assim sendo, no dia da real consagração, embora num jogo já sem grande interesse para o adepto comum, a equipa portista ainda venceu, o Santa Clara, por 1-0, fruto de um autogolo de Sidney Lima, totalizando 88 pontos na competição.

Jorge Costa, Pinto da Costa e a alma invisível deste título

Nenhuma análise séria desta época pode ignorar a dimensão emocional que envolveu o FC Porto.

A morte de Jorge Costa abalou profundamente o clube. O eterno capitão, o “Bicho”, era muito mais do que um dirigente. Representava uma ligação viva ao FC Porto mais feroz, mais competitivo, mais visceral.

O título foi conquistado precisamente a 2 de maio. O número de Jorge Costa. Coincidência ou não, para muitos adeptos tornou-se impossível dissociar as duas coisas.

A ligação ao título vai além da data. No jogo de apresentação da equipa aos sócios, na vitória, por 1-0, frente ao Atlético de Madrid, Jorge Costa havia confidenciado a Farioli que o FC Porto tinha voltado a ter uma equipa. O próprio treinador relatou o momento numa entrevista à Sport TV, em janeiro. Uma frase dita por alguém que conhecia o clube como poucos, que viveu os seus momentos mais gloriosos como jogador e como capitão, e que não viveu para ver a confirmação das suas palavras.

Também a memória de Jorge Nuno Pinto da Costa pairou constantemente sobre a época. O “Presidente dos Presidentes” já não estava fisicamente presente, mas a sua influência continuava a sentir-se em cada referência à mística portista.

Esse espírito esteve, portanto, presente ao longo da época. Uma equipa que jogou com alma, com entrega, com aquele sentido de pertença que é difícil de fabricar artificialmente e que, quando existe, se sente nas bancadas e no campo de uma forma que os números nunca conseguem capturar por inteiro.

O ADN Portista e uma história de hegemonia discreta

O título de 2025/2026 pode e deve ser lido no seu contexto histórico, até porque os números não mentem.

O FC Porto tem agora 31 campeonatos, contra 38 do Benfica, uma diferença que parece grande, mas que se torna reveladora quando se enquadra na trajetória do clube ao longo das últimas décadas. Quando Jorge Nuno Pinto da Costa chegou à presidência do clube azul e branco, em 1982, a diferença era de sete títulos a favor do FC Porto para 21 do Benfica. Em 1996, o Benfica tinha o dobro dos campeonatos do rival nortenho: 30 contra 15.

Ora, o que se passou nos quarenta anos seguintes é uma das histórias mais impressionantes do futebol português. O FC Porto acumulou títulos, troféus europeus, reconhecimento mundial, e construiu uma identidade desportiva que vai muito além do campeonato nacional.

Desde o 25 de Abril de 1974, o clube do Dragão venceu mais do que os dois rivais juntos. No século XXI, a diferença é ainda mais expressiva: 41 títulos portistas, contra 26 do Benfica e 21 do Sporting. Em campeonatos e Taças de Portugal combinados, o FC Porto tem, também, mais do que Benfica e Sporting juntos neste século.

No total, 87 títulos no futebol, os mesmos do Benfica e mais 30 do que o Sporting. São números que contextualizam o presente. Apesar de os últimos treze anos terem sido menos prolíficos do que o clube habituou os seus adeptos, com apenas quatro campeonatos, contra seis do Benfica e três do Sporting, este título de 2026 pode ser lido, com algum otimismo fundamentado, como um regresso a um “velho normal”.

Em síntese, além da sua conquista, este campeonato foi também uma reafirmação histórica. A mística e o ADN portista estão ou, pelo menos, parecem estar mesmo de volta.

André Villas-Boas, o homem que “arrumou a casa”

Seria injusto reduzir tudo apenas a Francesco Farioli. André Villas-Boas assumiu um clube financeiramente fragilizado, dividido e desportivamente perdido. Herdou anos de desgaste estrutural e, em apenas dois anos, conseguiu reconstruir praticamente tudo.

Arrumou as contas, modernizou o clube, atraiu milhares de novos sócios, e, sobretudo, voltou a criar entusiasmo dentro da massa adepta.

André Villas-Boas FC Porto
Fonte: Mário Pinto / Bola na Rede

Houve coragem política e desportiva. Coragem para romper com o passado recente. Coragem para assumir erros. Coragem para investir quando muitos pediam prudência absoluta.

Hoje, o FC Porto parece novamente um clube alinhado. Estrutura, treinador, scouting e adeptos caminham na mesma direção, algo que, no futebol moderno, vale quase tanto como talento.

Mais do que um título, uma declaração de intenções

Posto isto, o campeonato de 2025/2026 do FC Porto foi muito mais do que um troféu. Foi a prova de que um clube com história, com estrutura e com ambição pode reconstruir-se mesmo quando parecia mais distante do topo. Foi a validação de um projeto construído com paciência e ousadia em simultâneo. Foi, também, a confirmação de que Francesco Farioli era o homem certo para um momento difícil, e que o futebol português voltou a ter no Dragão um adversário que os outros clubes têm razões sérias para temer.

O Dragão acordou. E acordou com a consistência de quem não tenciona voltar a adormecer tão cedo.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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