Há jogos que os adeptos simplesmente não querem que cheguem, não os imaginam, pensam que não irão acontecer. O aficionado comum pensa sempre na jornada seguinte, nas partidas contra os rivais, onde terão que gritar a uma só voz para guiar o emblema que apoiam ao destino final: a vitória. O encontro entre o Sporting e o Gil Vicente tinha um carácter decisivo, com o segundo e o quinto lugares ainda em aberto. Os leões procuravam confirmar a entrada na Champions League, cabendo-lhes cumprir os requisitos mínimos. Já os minhotos iam em busca do sonho de poderem chegar às competições europeias, a cereja no topo do bolo para um campeonato com vários pontos interessantes de análise em Barcelos.
Este era o último suspiro da Primeira Liga 2025/26, mas as bancadas de Alvalade tinham olhares cabisbaixos. Não era uma partida desejada, mas sim um jogo marcado por despedidas. Afinal, todos ambicionamos ver a estreia de jogadores, principalmente se forem ao nosso gosto, mas ninguém deseja a despedida de um herói. Hidemasa Morita realizou o último jogo de verde e branco em Alvalade. Este era o prato principal do menu. E continuaria a ser, mesmo que se durante os 90 minutos tivessem sido como os do PSG 5-4 Bayern Munique.


O japonês esteve quatro temporadas de leão ao peito, contratado para a sucessão de Matheus Nunes, depois de se ter destacado no Santa Clara. Hidemasa Morita fez uma exibição que representa na plenitude a sua passagem por Alvalade: seguro, com retoques de que não é um qualquer. Ainda que a noite de sábado nos traga como primeira memória a despedida de Pizzi na Amoreira, a saída de campo do médio do Sporting também é um momento bonito. As lágrimas deixadas no abraço com Rui Borges revelam-nos (ou melhor, recordam-nos) o sentimento que o atleta tem para com a instituição da Segunda Circular.
Poucos são os jogadores que sentem assim um clube, é um fenómeno cada vez mais raro, com os plantéis a sofrerem mudanças constantes, impedindo a criação de uma história entre os heróis de dentro do campo e os adeptos que tanto desejavam ser como eles. Uma das consequências do futebol moderno. Hidemasa Morita não era tantas vezes assim o homem do jogo, não é um atleta da gama de Morten Hjulmand, Francisco Trincão ou Maxi Araújo, mas sempre esteve presente. Viveu alguns períodos complicados, mas conseguia quase sempre acrescentar, conquistando uma vaga no onze inicial, algo que poucos lhe apontariam no começo da sua caminhada. Um jogador ponderado, cumpridor, trabalhador. Mais um soldado para a causa num dos melhores períodos da história recente do Sporting. O seu registo é como o algodão, não engana: 165 jogos, 11 golos e 17 assistências. Dia 24 de maio ainda pode ir a jogo, mas o Jamor não é Alvalade e o Universo Sporting já lhe fez a sua despedida. Dura será a tarefa do seu sucessor, mesmo que o investimento feito para a sua chegada seja elevado.
O médio abandona o lado verde e branco da Segunda Circular sem deixar lucro e sem rumar a um colosso, mas Hidemasa Morita não precisou de nada disso para entrar no coração dos leões. Um regresso ao Sporting é improvável, um retorno a Portugal sem ser pela porta 10A, totalmente impossível. Foi a última dança do jogador no salão que é Alvalade. E não desiludiu.


Outras duas despedidas ocorreram à mesma hora, no mesmo sítio. Geovany Quenda vai rumar ao Chelsea e também mereceu os aplausos dos adeptos, que têm legítimas esperanças de voltar a ver o extremo de leão ao peito, numa fase mais adiantada da sua carreira. É uma situação distinta à de Morita, sem a mesma carga emocional, ainda que seja um menino da casa. O jogador tem toda uma carreira pela frente, com um potencial de atingir altos voos. Resta a certificação de que escolheu o projeto certo para dar o salto. Já do lado do Gil Vicente, um homem forte da casa também disse o adeus definitivo (neste caso não há uma final da Taça de Portugal para jogar). Zé Carlos, capitão dos minhotos, também mereceu a ovação dos adeptos. O lateral direito não renovou contrato e prepara-se para viver uma nova aventura e tem todo o direito a dar o salto. Uma antiga promessa que cresceu pelas mãos do Leixões e o Leça, com o Braga a identificar o seu talento, mas foi em Barcelos que encontrou a felicidade. Mesmo a passagem menos positiva por Ibiza retirou qualidade ao jogador.
Zé Carlos, tal como Hidemasa Morita, não é uma das primeiras referências que nos vêm à cabeça quando pensamos no plantel do Gil Vicente. Luís Esteves, Santi García ou Elimbi estão noutro patamar. Contudo, o português liderou este barco até ao último dia e parte do sucesso da equipa de César Peixoto se deve a isso mesmo.


O Sporting venceu o Gil Vicente por 3-0, num jogo em que os leões estiveram por cima na maior parte do encontro. O golo de Eduardo Quaresma é de uma beleza pura, com o defesa português a viver uma grande fase. Já o de Luis Suárez vinca a raça que a equipa mostrou ao longo da época, com o pormenor do calcanhar de Hidemasa Morita a dar um toque de brilhantez. Morten Hjulmand também fez o gosto ao pé. Mais um momento com sabor a despedida. Contudo, neste caso o ponto de final da ligação entre as duas partes não está confirmado.
Os leões falharam o objetivo primordial da sua época: atingirem o tricampeonato. O segundo lugar serve de prémio de consolação, com a possibilidade de conquista da Taça de Portugal a dar rasgos de felicidade a vários adeptos. A prestação na Champions League enche de orgulho de todos. Fica o ensinamento para o futuro para Frederico Varandas: gerir um plantel (não tão largo) com três competições é complicado.
Os minhotos também não vão marcar presença nas próximas provas europeias, mas o objetivo neste caso tratava-se da manutenção, conseguida com alguma dificuldade em 2024/25. César Peixoto tem nas suas mãos um projeto com margem para crescer e para se estabelecer no top 10 de Portugal. Um treinador que ‘casa’ bem com a equipa e que conhece como poucos o que é o Gil Vicente.


Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: O Sporting fecha a Primeira Liga na segunda posição e o Rui utilizou vários jogadores nesta caminhada. Quais foram os atletas que evoluíram mais taticamente?
Rui Borges: Eu acho que todos eles. O Maxi Araújo cresceu naquilo que era a posição, o Francisco Trincão acho que foi o jogador que mais cresceu a nível tático, embora pise terrenos que já pisava anteriormente. Em alguns momentos tem tarefas diferentes e cresceu muito nesse aspeto. Acho que foi muito por aí. O Iván Fresneda também fez uma grande época. O Geny foi dos que mais cresceu a nível tático, um jogador muito mais maduro. Vou muito por aí.

