João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Durante mais de uma década, o Paris Saint-Germain perseguiu um objetivo, conquistar a Liga dos Campeões. Para isso, investiu como poucos clubes na história do futebol. Chegaram alguns dos maiores nomes do futebol mundial, Neymar, Messi, manteve Mbappé. Ao mesmo tempo, passaram pelo banco treinadores de enorme reputação internacional sem atingirem o objectivo principal.
O talento nunca foi um problema, mas o sucesso europeu continuava a escapar.
Olhando para trás, talvez a questão nunca tenha sido a qualidade dos jogadores ou dos treinadores, talvez o verdadeiro problema estivesse na forma como o clube estava organizado desportivamente. Durante muitos anos, o PSG construiu plantéis centrados em nomes, o estatuto individual parecia ter um peso superior à compatibilidade coletiva, o resultado eram equipas recheadas de talento, mas muitas vezes desequilibradas em aspetos fundamentais para competir ao mais alto nível como ter um verdadeiro colectivo.


Porque uma equipa não é apenas a soma dos seus melhores jogadores, uma equipa é a qualidade das relações que consegue construir entre eles. A chegada de Luís Campos e Luís Enrique representou uma mudança profunda de paradigma.
Pela primeira vez em muitos anos, o PSG deixou de procurar as melhores estrelas disponíveis no mercado e passou a procurar os jogadores certos para uma determinada ideia de jogo. A prioridade deixou de ser o nome, passou a ser o perfil.
Capacidade física, intensidade competitiva, disponibilidade para o trabalho sem bola, inteligência tática, mentalidade competitiva e sobretudo o mais importante para Luis Enrique, o compromisso com a equipa. O recrutamento passou a responder às necessidades da equipa e não ao impacto mediático da contratação.


Como treinador, existe uma frase de Luís Enrique que considero particularmente reveladora. Após a saída de Mbappé, afirmou que passaria a controlar tudo dentro da equipa. Muitos interpretaram estas palavras como uma crítica ao jogador francês, eu vejo-as de outra forma. Vejo-as como uma reflexão sobre liderança e controlo organizacional.
Quando uma equipa possui jogadores com uma dimensão extraordinária, é natural que surjam exceções, o treinador adapta comportamentos, ajusta equilíbrios e cria mecanismos para potenciar o talento individual. Mas cada exceção tem um custo coletivo, se um jogador tem mais liberdade, outros terão de compensar. Se um jogador participa menos em determinados momentos do jogo, outros terão de assumir responsabilidades adicionais.


Enquanto o retorno justificar esse investimento, a equipa aceita-o, o problema surge quando a exceção começa a condicionar a identidade coletiva que o treinador pretende. Foi precisamente aí que Luís Enrique encontrou uma oportunidade, com a saída de Mbappé, o PSG perdeu um dos melhores jogadores do mundo. Mas ganhou algo igualmente importante: Coerência.
Onze jogadores sujeitos aos mesmos princípios, onze jogadores comprometidos com a mesma ideia, onze jogadores a trabalhar para o mesmo objetivo e basta ouvir as declarações dos jogadores na final da liga dos campeões. E quando isso acontece, o treinador deixa de gerir exceções para passar a consolidar comportamentos.
Na minha experiência, é precisamente aí que nascem as equipas verdadeiramente competitivas. O sucesso do atual PSG não resulta apenas da qualidade dos seus jogadores, resulta da qualidade das decisões tomadas antes dos jogadores chegarem, resulta da estabilidade concedida ao treinador para trabalhar e impor as suas ideias. Resulta da capacidade de proteger uma visão estratégica mesmo quando os resultados imediatos poderiam gerar pressão para mudar de rumo.
Esta talvez seja a principal lição que o PSG deixa ao futebol moderno. O dinheiro continua a ser importante, o talento só é importante se for para construir um colectivo forte.


Porque o talento ganha jogos, a organização ganha campeonatos. E quando uma organização consegue alinhar liderança, recrutamento, treino e cultura competitiva em torno da mesma visão, o sucesso deixa de depender das individualidades e passa a depender do processo.
O PSG procurou durante anos a Liga dos Campeões através das maiores estrelas do mundo. Acabou por encontrá-la quando decidiu que a estrela principal seria a equipa.

