João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Portugal chega ao Mundial de 2026 com argumentos para acreditar. Poucas vezes na nossa história tivemos uma Seleção com tanta qualidade, tanta profundidade e tantas soluções em praticamente todas as posições.
No papel, Portugal tem talento suficiente para competir com qualquer seleção do mundo, mas o talento por si só não é suficiente para vencer. Mas à medida que a estreia da seleção de Portugal se aproxima, continua a existir um tema que domina todas as conversas, Cristiano Ronaldo.
Aos 41 anos, o capitão português prepara-se para disputar aquele que deverá ser o último Campeonato do Mundo da sua extraordinária carreira, e, como seria de esperar, as opiniões dividem-se. Uns defendem que continua a ser indispensável, outros acreditam que já não deve ser titular e há até quem considere que a equipa só poderá evoluir verdadeiramente quando deixar de depender da sua presença.


Na minha opinião, a discussão está muitas vezes focada na pessoa errada, o Mundial de Portugal não será decidido por Cristiano Ronaldo. Será decidido por Roberto Martinez.
Porque, no final do dia, o papel do selecionador não é gerir emoções, nem responder ao ruído mediático, o seu trabalho é tomar decisões difíceis e escolher aquilo que considera melhor para a equipa, definir a identidade com que Portugal vai jogar neste Mundial. E é precisamente aí que reside o maior desafio.
Cristiano Ronaldo já não é o jogador de há dez ou quinze anos, o tempo passa para todos. Hoje já não tem a mesma capacidade física para pressionar durante noventa minutos, repetir ações de alta intensidade ou participar constantemente nos momentos defensivos e ignorar esta realidade seria um erro.


O futebol moderno exige compromisso coletivo, exige que todos participem nos diferentes momentos do jogo, quando um jogador já não consegue oferecer determinadas características, a equipa precisa de encontrar mecanismos que permitam compensar essa situação.
Com Ronaldo Portugal não terá capacidade para pressionar alto, por exemplo, mas será isso que o Treinador quer como identidade da seleção? Mas existe também o outro lado da equação.
Ronaldo continua a possuir algo que não se ensina nem se substitui facilmente, LIDERANÇA, continua a atrair atenções, a preocupar defesas, a fixar centrais, a criar espaços para os colegas e, acima de tudo, continua a ter uma capacidade rara para decidir jogos num único momento. Essa qualidade também tem valor, e muito.
Por isso, não valorizo a questão, talvez não seja se Ronaldo deve ou não jogar, a verdadeira questão é perceber quando deve jogar, quantos minutos deve jogar e em que contexto pode ser mais útil à equipa. É aqui que Roberto Martinez terá de demonstrar liderança.


Os grandes treinadores não tomam decisões por gratidão, não escolhem jogadores pelo que fizeram no passado, não cedem à pressão das redes sociais, dos comentadores ou dos títulos dos jornais.
Tomam decisões com um único objetivo, facilitar o caminho da equipa para ganhar, se Ronaldo for a melhor solução para determinado adversário, deverá jogar, se outro jogador oferecer mais garantias num determinado contexto, então deverá ser esse jogador a entrar em campo. Sem dramas, sem tabus, sem receio das críticas.
A história recente mostra precisamente isso. No Mundial de 2022, Portugal foi eliminado por Marrocos num jogo em que Ronaldo começou no banco e Gonçalo Ramos foi titular, isso demonstra que a questão nunca foi tão simples como escolher entre um ou outro. O futebol de seleções é muito mais complexo do que isso.
As equipas vencedoras são aquelas que conseguem colocar o coletivo acima das individualidades, por maiores que essas individualidades sejam e temos bons exemplos e o mais recente foi a transformação do PSG ou o próprio exemplo da conquista do campeonato europeu.
Portugal tem qualidade para sonhar, tem experiência, tem juventude, tem talento, mas para transformar esse potencial em sucesso será necessária uma liderança forte, capaz de tomar decisões difíceis nos momentos certos e o líder é Martinez.


Cristiano Ronaldo continuará a ser uma peça importante da Seleção, mas o futuro de Portugal neste Mundial dependerá muito mais da capacidade de Roberto Martinez gerir esse legado do que do legado em si.
Porque os troféus não são ganhos pelas equipas que tomam as decisões mais populares, são ganhos pelas equipas que tomam as decisões mais corretas em prol de tornar o colectivo mais forte.
E nenhuma decisão será mais importante para Roberto Martinez do que a forma como decidir utilizar o maior jogador da história do futebol português.

