O fabuloso mundo dos 4 pontos – Diário do Mundial 2026 #15

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11 contra 11 e no fim quem ganha não é a Alemanha | Equador 2-1 Alemanha e Curaçau 0-2 Costa do Marfim

Equador Jogadores
Fonte: Federação Equatoriana de Futebol

O Equador era uma das seleções, estilisticamente, mais engraçada do Mundial 2026. É difícil conjugar a solidez defensiva com uma pressão montada tão à frente e de forma tão intensa, mas a equipa de Sebastian Beccacece conseguiu-o. Em 18 jogos, na qualificação sul-americana, sofreu apenas cinco golos e terminou à frente do Brasil, do Uruguai ou da Colômbia. Chegou à última jornada da fase de grupos do Mundial 2026 a precisar de vencer a Alemanha depois da derrota nos descontos diante da Costa do Marfim e do empate surpreendente, onde a faceta perdulária se destacou, contra Curaçau. Foi isso que se sucedeu, garantindo aos equatorianos um apuramento no terceiro lugar.

É impressionante a capacidade para o Equador montar uma pressão alta e intensa a 90 minutos. Diante da Alemanha, abdicou de pressionar os centrais (Nico Schlotterbeck é uma ausência notável) e colocou um autêntico colete de forças na zona dos médios. Retirou a força do jogo interior alemão, fez de Aleksandar Pavlovic um mero fantasma e ganhou bolas na pressão. Foi assim que surgiu o primeiro golo. A grande questão relativamente ao Equador está na capacidade de concretizar os ataques. É uma equipa sempre com mais quantidade de qualidade, como Curaçau comprovou. Desta vez, além de John Yebboah, Nilson Angulo foi titular como extremo agudo e capacidade de olhar para a baliza. Se Enner Valencia até se destaca mais pela capacidade defensiva, Gonzalo Plata é o elemento da ligação. Embora comece como número 10, tem liberdade para jogar em mobilidade total, aproximando-se da bola e gerando associações. Veio de Plata a garantia do Bronze no grupo.

É certo que a Alemanha já entrava apurada no 1.º lugar do Grupo, mas volta a revelar dificuldades. Excetuando a estreia, diante de Curaçau, não mais mostrou argumentos para estar no lote de favoritas. Julian Nagelsmann voltou a fechar o grupo – nunca foi ideia abrí-lo, o próprio já o confirmou – e não ganhou nada com isso. Depois da inferioridade exibicional contra a Costa do Marfim, volta a não deixar qualquer garantia contra o Equador. Os titulares vão continuar até ao fim independentemente do rendimento. Quer de Leroy Sané, que apesar do golo continua a jogar como peixe fora da água, quer de Deniz Undav, que continua pelo banco. 

Costa do Marfim Jogadores
Fonte: Federação Marfinense de Futebol

A odisseia de Curaçau terminou. Chegou ao Mundial para jogar e assim cumpriu. Curiosamente, o jogo da despedida foi o menos simbólico, sem o valor sentimental do golo marcado ou o valor numérico do empate. A Costa do Marfim termina o grupo no segundo lugar. Desta vez não foi preciso chegar aos descontos para o resultado mudar.

É no ataque que surgem os principais destaques da Costa do Marfim, quer à direita por Amad Diallo, quer à esquerda pelo super Yan Diomande. Desta vez, ambos foram titulares, mas o verdadeiro destaque foi Nicolás Pépé. Há uns anos, ninguém imaginaria que conseguisse dar a volta por cima de uma maneira tão alegre. A mudança para Espanha deu-lhe uma nova alma e mudou-lhe o perfil. Já não é apenas o extremo irreverente a pé trocado, embora também o consiga ser, mas principalmente um segundo avançado de qualidade em espaços curtos e de capacidade de infiltração. Um bis com sentimento.

Curaçau entreteu e bem-dispôs. Ficarão para sempre os momentos épicos depois do golo de Livano Comenencia, quando conseguiu fazer tremer a Alemanha com um empate que ninguém esperaria e depois do apito final diante do Equador, o jogo em que Eloy Room converteu num herói de culto. Donald Trump, o maior apreciador de muros nos EUA, deverá ter ficar encantado. De um ponto de vista mais geral, atenção ao Mundial de Tahith Chong. É o mais mediático dos jogadores de Curaçau – e o único nascido na pequena ilha – e mostrou ao que vem. O que lhe falta em definição oferece em energia e imprevisibilidade em campo aberto. 

Eis a classificação final do Grupo E:

  1. Alemanha, 6 pontos
  2. Costa do Marfim, 6 pontos
  3. Equador, 4 pontos
  4. Curaçau, 1 ponto

Tudo dentro dos trâmites legais | Japão 1-1 Suécia e Tunísia 1-3 Países Baixos

Anthony Elanga Suécia Jogadores
Fonte: Federação Sueca de Futebol

Um empate deixaria todos satisfeitos e foi exatamente isso que aconteceu. Num Mundial com protagonismo aos terceiros lugares, a última jornada da fase de grupos teria sempre estas histórias. O Japão sabia que, mesmo ganhando, dificilmente ultrapassaria os Países Baixos, a defrontar a modesta Tunísia. A Suécia sabia que o segundo lugar significa ultrapassar o Japão, mas que o empate era bem saboroso, garantindo um dos melhores terceiros lugares. Foi precisamente isso que se sucedeu.

O Japão continua a testar fórmulas diferentes para utilizar um plantel ao qual se têm ignorado os muitos desfalques. Nesse sentido, o onze escolhido por Hajime Moriyasu tem duas notas relevantes. Sem Wataru Endo, Kaishu Sano tinha sido sempre chamado. Desta vez, ficou no banco para Ao Tanaka e Daichi Kamada, médios de maior mobilidade, atuarem em conjunto. O primeiro funcionou, como tem sido hábito, baixando para a linha de três (no 4-3-3 nipónico no momento asiático). O segundo, que pode também jogar mais à frente, foi mesmo o primeiro médio em muitos momentos. Na frente, Daizen Maeda e Ritsu Doan jogaram no apoio a Ayase Ueda. Sempre que os japoneses conseguiram sediar-se no meio-campo ofensivo, deu certo. Quando tiveram de jogar como interiores, notou-se alguma falta de sensibilidade técnica. Podem ter sido, ambos os casos, testes para um muito saboroso Brasil x Japão, já a eliminar.

Na Suécia, a grande certeza é Anthony Elanga. Era muito estranho o papel reduzido que tinha no plantel, apenas como suplente para agitar os corredores. Desta feita, foi titular como elemento mais solto atrás da dupla de avançados (Alexander Isak e Viktor Gyokeres não mais chegaram ao nível da estreia) e mostrou argumentos. É certo que o homem da máscara foi mais exigido em apoio, mas a agressividade do avançado sueco nas suas costas permitiu explorar espaços importantes. Guardou mais um golo na sua conta pessoal. Veremos como os suecos se vão comportar sem Isak Hien que, sem fazer um grande Mundial, era a grande referência física para duelos mais diretos.

Brian Brobbey Países Baixos
Fonte: Federação Neerlandesa de Futebol

Os Países Baixos sabiam que teriam um jogo sem história, diante de uma das seleções mais frágeis deste Mundial 2026. Com uma vantagem por 2-0 aos sete minutos, acentuou-se a tendência para uma exibição mais a olhar para o relógio que a olhar para o campo. É certo que a Tunísia ainda chegou ao golo, mas o 3-1 bem seguido aliado ao empate do outro lado do grupo voltou a colocar tudo na mesma, numa demonstração inequívoca de superioridade.

Ronald Koeman encontrou algumas fórmulas para dar competitividade aos Países Baixos. Em todos os cenários, a presença de Brian Brobbey no onze ajuda os neerlandeses. É um avançado com presença física,  jogo de costas e felino no ataque a situações de cruzamento. Numa equipa muito capaz em transições e ataques mais rápidos, o ponta de lança tem estatuto definido. De resto, é a partir da direita, com a velocidade e projeção de Denzel Dumfries e Donyell Malen e com o envolvimento de Ryan Gravenberch, de trás para a frente, que esta dimensão mais direta do jogo neerlandês se verifica. Do outro lado, há Cody Gakpo a atacar a área.

Depois da eliminação, na segunda jornada, Ali Abdi, um dos principais jogadores da seleção tunisina foi bem claro. «Peço desculpa aos adeptos tunisinos, mas não às pessoas que se divertem a inventar e a espalhar boatos por aí. Isso não defende os interesses do país. Não temos tempo para trabalhar. Destrói-se tudo para reconstruir do zero em vez de se corrigirem os erros. Viemos jogar um Mundial com jogadores que nunca jogaram juntos. Construir uma seleção competitiva exige tempo e estabilidade. Não se pode preparar um Mundial disputando apenas alguns jogos frente a adversários que se andam a preparar há anos», destacou o lateral esquerdo. A Tunísia chegou ao Mundial 2026 com uma nova geração, mandando muitos dos históricos que garantiram o apuramento embora, e apostando numa mudança à força. Quando tudo descambou, a aposta passou por um novo treinador. Está tudo dito sobre os zero pontos.

Eis a classificação final do Grupo F:

  1. Países Baixos, 7 pontos
  2. Japão, 5 pontos
  3. Suécia, 4 pontos
  4. Tunísia, 0 pontos

O pacto de não agressão | Paraguai 0-0 Austrália e Turquia 3-2 EUA

Jordan Bos Austrália Omar Alderete Paraguai
Fonte: Federação Australiana de Futebol

A última jornada do Grupo D não trouxe futebol champanhe, mas trará, certamente, dados valiosos se alguém na FIFA for discutir duas das mudanças com mais impacto na fase de grupos do Mundial. Com terceiros lugares a apurarem-se, era natural que, em algum momento, as contas entrassem no relvado. Até ao momento, tal nunca tinha acontecido de forma tão declarada como no Paraguai x Austrália.

Um empate sorria, de forma diferente, às duas seleções. A Austrália é quem mais feliz sai com o cruzamento mais favorável nos 16 avos de final. Pelo segundo Mundial, Tony Popovic apura os Cangurus do Futebol, num dos países do soccer para as fases a eliminar do Mundial. Desta vez, num jogo sem história, mais evidente que nunca o impacto das escolhas nos objetivos. Com Nestory Irankunda como falsa referência, entraram Connor Metcalfe e Jackson Irvine, como jogadores de chegada. À direita, nova exibição interessante de Alessandro Circati, central que permite ao ala que se solte. Jogando no lado menos favorável, Jordan Bos sorriu com a liberdade.

O Paraguai só tentou disputar o jogo nos primeiros minutos. Mal percebeu que seguir assim traria desafios – e com a goleada sofrida diante dos EUA na memória – voltou a fechar-se na sua casinha. Desta vez, o 5-3-2 tentou espelhar, principalmente na linha defensiva, o 5-2-3 australiano, dando maior conforto aos alas para saltos maiores a toda a largura. Tirando um ou outro detalhe de Diego Gómez e Maurício (boa entrada vindo do banco), o empate foi rei e senhor. Falta um resultado para o Paraguai celebrar. 

Arda Guler Turquia
Fonte: Federação Turca de Futebol

Do outro lado, a Turquia poderia ter sonhado e o grupo poderia ter-se aberto caso outra das mudanças não tivesse sido implementada. Com o privilégio ao confronto direto, em detrimento do saldo de golos, a última jornada terá sempre mais certezas que dúvidas. O empate do outro lado não mudaria nada, mas abriria cenários diferentes para um jogo que, por não ter nada a jogar, teve um ótimo cenário para as duas equipas jogarem.

Não é aleatório que, depois de 62 remates divididos por dois jogos, a Turquia tenha marcado no primeiro chute que de nada valia. Mostrou-se muito mais capaz quando com espaço para aproveitar. A falta de uma referência no ataque foi demasiado bruta nos jogos contra blocos mais baixos. Neste contexto, onde a honra se sobrepôs aos resultados, houve outra capacidade aos turcos para jogar. Orkun Kokçu conseguiu lançar, Baris Alper Yilmaz teve campo aberto para correr, Oguz Aydin mostrou-se pelo pulmão e Arda Guler fez, finalmente, uma exibição com marca de água. Na despedida, deixou mostras do seu talento.

Aos EUA, o jogo interessou para descansar as principais figuras e procurar ganhar opções para a rotação. O onze titular de Mauricio Pochettino está perfeitamente definido, mas há alternativas. Para lá de Ricardo Pepi, já testado para o lugar de Christian Pulisic, outro nome se destacou. Se Timothy Weah, Giovany Reyna e Brendan Aaaronson têm outro peso no espaço mediático, Sebastian Berhalter mostrou que tem qualidade para assumir outro papel na equipa. Ainda não saiu do contexto norte-americano e, por isso, é um elemento mais alternativo no plantel. Pega bem na bola e tem o dinamismo necessário para saltar do banco e ter influência. 

Eis a classificação final do Grupo D:

  1. EUA, 6 pontos
  2. Austrália, 4 pontos
  3. Paraguai, 4 pontos
  4. Turquia, 3 pontos
Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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