João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
O futebol tem uma capacidade única para nos levar de um extremo ao outro em poucos dias. Depois do empate frente ao Congo, Portugal parecia uma equipa sem rumo, após a goleada por 5-0 diante do Uzbequistão, surgem novamente os elogios e as certezas absolutas. A verdade, como quase sempre acontece, está algures no meio.
Portugal melhorou, isso é inegável, mas mais do que os cinco golos marcados, a principal mudança de um jogo para o outro foi a atitude competitiva da equipa. Foi visível uma maior agressividade nos duelos, uma pressão mais coordenada, maior intensidade sem bola e, acima de tudo, uma vontade coletiva de dominar o jogo desde o primeiro minuto.


Podemos discutir aspetos táticos, se Vitinha deve baixar mais para iniciar a construção, se os três médios devem jogar mais próximos entre si para controlar melhor os espaços interiores, se João Félix encontrou finalmente uma boa ligação com Nuno Mendes no corredor esquerdo, tudo isso é importante, mas antes da tática existe algo ainda mais decisivo, a mentalidade com que os jogadores entram em campo.
Contra o Congo, Portugal pareceu confortável demais, frente ao Uzbequistão, apresentou uma equipa mais ligada ao jogo, mais comprometida com os momentos sem bola e mais determinada em cada ação. E depois há Cristiano Ronaldo.


Durante toda a semana foi alvo de críticas, algumas legítimas, outras claramente excessivas. Mas a resposta foi aquela que tem dado durante mais de vinte anos de carreira, golos.
Independentemente da idade ou das discussões sobre o seu papel na seleção, Ronaldo continua a possuir uma característica rara nos grandes competidores. Quando é colocado em causa, responde dentro das quatro linhas.
Ainda assim, tal como não fazia sentido destruir a equipa após o empate com o Congo, também não faz sentido colocá-la já num pedestal depois desta goleada.


As grandes seleções não se avaliam apenas pelos resultados, avaliam-se pela consistência das exibições, pela capacidade de competir ao mais alto nível e pela forma como respondem nos momentos de maior exigência.
É precisamente por isso que o jogo frente à Colômbia assume uma importância especial. Mesmo já qualificada, a seleção colombiana deverá representar o adversário mais exigente desta fase de grupos. Será um contexto competitivo completamente diferente, capaz de revelar se a evolução de Portugal foi apenas uma boa resposta a um jogo ou o início de uma identidade mais consistente. Portugal deu um passo em frente, agora precisa de provar que consegue dar o seguinte.
Entre a desilusão e a euforia existe um espaço chamado realidade, e é precisamente diante da Colômbia que essa realidade começará a ficar mais nítida.

