Como explicar o trambolhão de Portugal no último dia dos grupos? – Diário do Mundial 2026 #17

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Cumprir o protocolo | Croácia 2-1 Gana e Panamá 0-2 Inglaterra

Croácia Jogadores
Fonte: Federação Croata de Futebol

O último dia da fase de grupos do Mundial 2026 foi potente, repleto de emoções e de histórias que marcarão esta edição da prova mais importante do mundo. Entre todos estes sentimentos, poucos terão marcado o desfecho do Grupo L, alfabeticamente o último em competição, diariamente, o primeiro a entrar em prova. Seria de esperar outra coisa de um Croácia x Gana?

Finalmente alguém pôs fim à odisseia de balizas desertas dos homens de Carlos Queiroz. Não há muitos romantismos para o Gana. Para lá da organização defensiva, há pouco para se aproveitar. Quando esta é ultrapassada, como foi no bom golo de Petar Sucic, fica complicado. A linha defensiva afundou em demasia e abriu-se uma cratera à entrada da área. Ainda houve uma reação tímida na segunda parte, quando os africanos ficaram com menos um médio e puseram Antoine Semenyo a funcionar como uma espécie de 10, mais próximo de um avançado que de um organizador, mas ficou uma amostra pequena. Com o apuramento conseguido, houve espaço a um relaxamento.

A Croácia é uma das seleções mais peculiares dos Mundiais nos últimos anos e mantém esse estatuto, por agora. Não fez qualquer jogo de grande relevo na fase de grupos, mas conseguiu seis pontos e um segundo lugar que respeita o estatuto alcançado recentemente, depois de uma final e de um terceiro lugar em edições consecutivas. Depois de Martin Baturina, também Petar Sucic – agressividade no último terço, capacidade de chegada e bom remate – quer agarrar um lugar nas costas do avançado. Há também Luka Modric e o seu arsenal quase infinito de recursos técnicos no passe. Em 2022 também era a Last Dance. 

Jude Bellingham Morgan Rogers Inglaterra Jogadores
Fonte: Federação Inglesa de Futebol

Inglaterra confirmou um primeiro lugar expectável sem nunca voltar a exibir o nível impositivo e afirmativo da estreia. Os adversários também não eram os mesmos. Desta vez, o Panamá não se fechou como a seleção do Gana e, também aí, houve um período relativamente longo de pouca ameaça. Curiosamente, e pensando numa campanha duradoura, até aos quartos de final estarão adversários mais pragmáticos e de recursos defensivos. Há bons testes para os ingleses pela frente.

Desta feita, a rotação trouxe algumas novidades, com os perfis mais criativos (noção relativizada pela vontade de agressão e vertigem do plantel) de Marcus Rashford e de Bukayo Saka, mas também pelo papel de Jude Bellingham como segundo médio. Dificilmente voltará a jogar aí como opção inicial, mas o inglês tem recursos valiosíssimos na capacidade de aparecer com movimentos de rutura. Harry Kane também se desprendeu da macumba do bruxo ganês. Desta vez, passou bem afastado do jogo, mas perto o suficiente para marcar um golo. Sem bruxas, é uma certeza para os ingleses.

O Panamá deixa o Mundial 2026 com uma nuvem negativa demasiado injusta. É a única seleção sem qualquer golo quando podia perfeitamente ter marcado em todos os jogos da fase de grupos. Mostrou uma versão bem mais competitiva do que a de 2018 e uma proposta de jogo bem interessante e vincadamente ofensiva. Na despedida, conseguiu travar Inglaterra por mais de uma hora num bloco médio bem capaz de controlar a profundidade, com José Córdoba a ganhar pelo ar, e a sair rapidamente em transição. Não há nenhum jogador tão evidente como Yoel Bárcenas, como segundo médio de ligação e chegada. 

Eis a classificação final do Grupo L:

  1. Inglaterra, 7 pontos
  2. Croácia, 6 pontos
  3. Gana, 5 pontos
  4. Panamá, 0 pontos

Training Season is Over | Colômbia 0-0 Portugal e RD Congo 3-1 Uzbequistão

João Félix Portugal
Fonte: FPF

Quando Dua Lipa irrompeu na sala de conferências de imprensa na sua versão mais afinada de “Future Nostalgia”, não era para ser levado tão a sério. É que 2026 está com um ar de 2010, num hemisfério distinto, a pairar pelo ar. Também aí um empate contra a seleção africana, uma goleada à seleção asiática e um novo empate contra os sul-americanos do grupo. Alguém avise os portugueses que agora a “Training Season is Over” e que as abébias têm de ficar para trás. Tal como em 2010, também a Espanha está num possível menu dos oitavos de final. É preciso chegar lá e, se possível, com confiança e energia. Mas Portugal está tudo menos “Levitating”. 

O empate diante da Colômbia é o mais preocupante capítulo da seleção nacional desde aquele jogo na Dinamarca, cuja derrota pela margem mínima foi a melhor notícia possível e permitiu ser revertida de tal forma que culminou na conquista da Liga das Nações. Que o resultado seja o mesmo, agora por terras norte-americanas. Por mais que a crença, a confiança e o sonho esteja aí, as dificuldades no processo, quer diante da RD Congo por se fechar bem, quer diante da Colômbia por jogar uma mudança acima, fazem as sirenes trocar. 

Os cafeteros são uma das seleções de maior competência neste Mundial. Ofensivamente, poucas são as seleções com tamanha fluidez no seu jogo, partindo de um modelo de jogo bem assimétrico, com prioridade à bola e não ao espaço e mobilidade constante. Mesmo sem os laterais titulares (e Daniel Muñoz é fundamental na dinâmica ofensiva), foi uma exibição de peso da Colômbia, partindo de dinâmicas e relações bem estabelecidas.

James Rodríguez Colômbia
Fonte: FIFA

Ninguém se destacou tanto, com os pés, como James Rodríguez. No que toca precisamente a isso, aos pés, continua a estar na maior das valências. Jogou de cadeirinha, sem grande incómodo na pressão, de frente para o jogo e com tempo para pensar e executar. Colocou a bola por todo o lado, inventou espaços e fez jogar. Impressionante. A Colômbia descobriu que podia jogar para valorizar James Rodríguez e tornou-se bem mais forte assim.  É Gustavo Puerta, uma das revelações do Mundial 2026, quem compensa todos os movimentos do lendário jogador que viveu em 2014 o seu apogeu e, desde aí, só pela seleção consegue encontrar o terreno mais fértil para se expressar no seu melhor. Precisamente pelo papel de jogadores como Puerta. Compensa, cobre e faz o trabalho sujo para permitir ao maior craque brilhar. Para lá disso, junta-lhe a capacidade como organizador, como jogador de condução e defensiva. Numa altura de médios dinâmicos, que jogador a Colômbia foi desencantar. Andou a jogar La Liga 2 na última temporada.

Nesta ideia de mobilidade total, Jhon Arias foi também um dos melhores em campo. Normalmente até joga mais por dentro, mas contra Portugal, partiu da direita como um falso extremo com predisposição para se juntar por dentro e jogar perto da bola. Tem atributos físicos brutais para o trabalho a que se propõe: segurar a bola para si, correr de um lado para o outro à procura do melhor espaço e rematar forte. Não é o mais destacado jogador colombiano, mas é um dos mais importantes. Curiosamente, nem foi o jogo mais espetacular para Luis Díaz, com menor protagonismo como o avançado de grande capacidade para atacar espaços. No ataque, foi Jhon Córdoba a grande novidade e a grande referência. Muitas vezes, a Colômbia procurou uma bola mais direta, contando com a capacidade e envergadura física do avançado para ganhar o duelo e enquadrar quem chegasse. Estrategicamente, ofereceu bem mais do que Luis Suárez, que refrescou o perfil, mas não entrou bem no jogo. Talvez os adeptos do Sporting lhe queiram mudar a música por umas horinhas. A Colômbia foi verde e vermelha, falhou o Suárez. Seria bonito, não fosse verdadeiramente falso.

Diante deste poderio, houve pouco de positivo a retirar da exibição portuguesa e tudo o que de positivo se destacou pelos piores motivos. Houve muito de Diogo Costa, de todas as maneiras e feitios a manter a baliza a zeros, e dos centrais. No duelo complicado com Jhon Córdoba, Renato Veiga conseguiu impor-se e fez uma exibição segura, talvez a mais sólida com a camisola de Portugal. Rúben Dias apareceu na segunda parte a defender a área e a responder a situações de cruzamento. Quando são estes os destaques de um jogo, fica tudo dito.

Diogo Costa Portugal
Fonte: FPF

Estrategicamente, o que Roberto Martínez planeou não funcionou. Rúben Neves entrou por alguma razão, mas não se entendeu o que pretendia o selecionador nacional com a presença do médio em detrimento de João Neves, o mais capaz no plantel de igualar a capacidade de funcionar de trás para a frente dos jogadores colombianos e de manter os índices de agressividade no alto. A presença de Santiago Arias, um lateral mais baixo e com menos projeção, é a explicação mais lógica. Fosse Daniel Muñoz e a capacidade de incorporar a linha defensiva para evitar inferioridades seria útil. Sendo um perfil diferente, acabou por não resultar. 

Ofensivamente, a exibição portuguesa viveu de ações individuais. Houve dois ou três cruzamentos de Pedro Neto, algumas ações positivas de João Félix da esquerda para dentro, principalmente na segunda parte e alguns momentos isolados de Bruno Fernandes. Diogo Costa, no final do jogo, destacou que é diferente jogar depressa que jogar com pressa. E foi isso que a seleção fez.

Forçados a estar tanto tempo sem bola, e em zonas distantes da baliza adversária, cada bola nos pés queimava. Por isso, por exemplo, Pedro Neto esteve tanto em jogo. É um jogador de produto final e de quantidade, mais do que de qualidade, ideal em certos contextos e limitador em tantos outros. Que a bola lhe tenha chegado tantas vezes, de uma forma quase viciada, esperando que a velocidade e mudança de direção agitassem as águas também não é de sua culpa, seja feita justiça. Faltou capacidade de pensar o ataque. Com Francisco Trincão, Bernardo Silva ou Gonçalo Ramos no banco, para posições e ideias diferentes, Roberto Martínez ficou demasiado focado no que a seleção jogou e pouco no que poderia jogar. E, por aí, se empatou um jogo que era de vitória obrigatória. 

Yoane Wissa RD Congo Jogadores
Fonte: FIFA

Não foi certamente o foco de muitos portugueses, mas a história da RD Congo é bonita, por mais que o belo golo de Eldor Shomurodov tenha tentado estragar as contas. Nenhuma seleção teve tão cara a presença no Mundial 2026. Para chegar às Américas, os africanos bateram Camarões, Nigéria e Jamaica em dois playoffs distintos. Entravam para a última jornada a precisar de uma vitória e, novamente, Yoane Wissa apareceu. É o herói de um dos contos de fadas deste Mundial. 

Eis a classificação final do Grupo K:

  1. Colômbia, 7 pontos
  2. Portugal, 5 pontos
  3. RD Congo, 4 pontos
  4. Uzbequistão, 0 pontos

Absolute Scenes | Argélia 3-3 Áustria e Jordânia 1-3 Argentina

Philipp Mwene Riyad Mahrez Argélia Áustria
Fonte: Federação Austríaca de Futebol

Onde estavas no 11 de setembro? E no golo do Éder? E onde passaste o último dia antes do confinamento? É normal a recordação de momentos impactantes estar muito associada à presença física, às memórias visuais e a detalhes. Nestes acontecimentos marcantes, revestidos de maior ou menor importância, dependendo dos gostos pessoais e prioridades de cada um, há uma nova questão que se impõe: por onde andavas nos descontos loucos do Argélia x Áustria da fase de grupos do Mundial 2026? Se a resposta for “A dormir”, então apresento os meus sentimentos.

O jogo tinha todos os ingredientes para se tornar enfadonho, mais uma versão do pacto de não agressão que os apuramentos consumados de austríacos e argelinos com um empate poderiam atrair. Depois de parada e resposta, não restavam grandes dúvidas de que este não era o objetivo. Mas os descontos, quando o empate por 2-2 se parecia arrastar até Riyad Mahrez esboçar uma vingança para com o passado e penalizar os que há mais de 40 anos protagonizaram a Vergonha de Gijón. Nesta história marcada por um desejo de vingança, apareceu Sasa Kalajdzic, um avançado com tantas lesões graves como golos importantes. Saltou do banco, foi para a área e mostrou que o futebol pode ser simples. Basta pôr o jogador mais alto na área, meter lá uma bola e torcer pelo melhor. Ainda houve um lance para a Áustria se salvar. Absolute Scenes. 

De futebol, entre tudo o que há a destacar, umas notas soltas. Sem guarda-redes, é difícil perspetivar grandes feitos argelinos. Agora foi Oussama Benbot a deixar a desejar. Não anula o facto de Marko Arnautovic, pela ideia do jogar em contratempo, ser o mais interessante ponta de lança da Áustria. Tanto a Argélia é demasiado permeável em transições ofensivas, como os austríacos, quando forçados a atacar sem ter como base a recuperação da bola em zonas altas têm limitações. Foram escondidas desta feita. Fica a certeza de que a tristeza entre os jogadores do Irão alcançou proporções descomunais. É normal a sensação de injustiça ser grande, depois de um Mundial 2026 que não permitiu à seleção iraniana jogar em igualdade de condições. Ter o apuramento negado por meros milímetros diante do Egito e festejar o golo da Argélia – que apurava o Irão no grupo dos terceiros lugares – para ver tamanho balde de água fria, deve estar entre as sensações mais dolorosas deste Mundial. 

Lionel Messi Argentina
Fonte: Federação Argentina de Futebol

A Argentina, num jogo para cumprir calendário e dar mais uma chance à Jordânia para aproveitar o Mundial, mostrou que não depende apenas de Messi para jogar. Não se livrou das certezas confirmadas de que, ainda assim, joga muito melhor com ele. Saltou do banco para marcar pelo sétimo jogo consecutivo, juntando 2022 e 2026. Se o capítulo escrito no Áustria x Argélia é inédito, os que o 10 argentino vai escrevendo são praticamente redundantes. Falta imaginação à história. Felizmente, não a falta em campo.

Lionel Scaloni lançou nomes menos utilizados, mas a Argentina manteve a identidade. É esse o maior elogio ao trabalho do treinador albiceleste, capaz de resgatar a identidade do futebol argentino e de espelhar a culturalidade no seu jogo. Mais do que táticas, modelos ou ideias de jogo, a Argentina joga como se joga nas ruas de Buenos Aires, de Rosário ou de San Miguel de Tucumã. É a Argentina (suplente) de Nico Paz, Giovani Lo Celso e Leandro Paredes. E, para bem de todos os males, Lautaro Martínez foi à bruxa e já marcou num Mundial. Deu para tudo.

Além de ver de perto a qualidade do futebol argentino e Lionel Messi, a Jordânia despediu-se do Mundial de forma digna. A última imagem é a mais próxima da realidade, já com Al-Tamari e Al-Mardi juntos a Ali Olwan em campo. Para lá dos principais talentos na frente, num ataque com baixas, ainda assim, e da liderança de Yazan Al-Arab, faltaram armas para passar da competitividade nos jogos à competitividade nos resultados. Não deixa de ser uma história bonita para um país que, pela primeira vez na história, chegou tão longe. 

Eis a classificação final do Grupo I:

  1. Argentina, 9 pontos
  2. Áustria, 4 pontos
  3. Argélia, 4 pontos
  4. Jordânia, 0 pontos

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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