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O novo campeão do mundo | Austrália 1-1 (2-4 g.p) Egito


Podia ser um jogo banal, mas há um dado histórico que torna o encontro mais alternativo dos 16 avos de final do Mundial 2026 um dos casos mais curiosos da prova. Até ao momento, todas as seleções que eliminaram a Austrália do Mundial conseguiram ser campeãs. Em 2006, a Itália levou o título e, em 2022, a Argentina ergueu o troféu. É praticamente impensável, mas é o Egito quem vai tentar manter esta estatística viva.
Curiosamente, nem está a ser o Mundial 2026 de Mohamed Salah. Se em 2018 uma lesão impediu-o de estar na melhor forma no melhor momento da carreirra, agora está numa fase descendente, claramente já sem a mesma agilidade e capacidade para se conseguir impor. Nada que esteja a ser preocupante para a seleção egípcia, que continua a proteger a sua maior estrela e a dar-lhe contexto para brilhar – já deixou apontamentos só ao alcance da sua qualidade técnica – e que vai assumindo novas figuras e referências.
Entre os novos destaques dos Faraós, nenhum tão grande como Emam Ashour. Já foi uma das maiores promessas do futebol egípcio (e africano), nunca chegou ao patamar de maior potencial, depois da aventura europeia, no Midtjylland, regressou a casa e ao Al Ahly, mas nunca perdeu as características que lhe eram, por demais, reconhecidas. Joga pelos dois lados e conjuga os atributos físicos, na velocidade e mudança de direção, com os técnicos no drible e condução. Faz um Mundial para voltar ao radar dos clubes europeus. Voltou a marcar, no cenário mais delicado: de cabeça, a aparecer ao segundo poste numa segunda vaga de um livre que o próprio bateu.


Do banco, também chegaram novas ideias. O prolongamento é 100% do Egito, muito por culpa das mudanças de Hossam Hassan. É o melhor marcador e uma das maiores lendas do futebol do país e conseguiu dar uma boa cara à seleção egípcia. Na atualidade, não tem o mesmo estatuto do passado, mas conseguiu recuperar algum do peso histórico dos Faraós. Desta feita, a forma como lançou Hossam Abdelmaguid para hibridizar a linha defensiva, a quatro ou a cinco, e deu confiança a Haissem Hassan, que mostrou argumentos no cruzamento e no drible, ajudou o Egito a crescer.
Antes dos penáltis, ficou uma das imagens mais curiosas deste Mundial 2026, quando todos os potenciais marcadores se meteram num círculo a ver videos de penáltis batidos contra Mathew Ryan. O Mundial de Mbappé é de tamanho nível que até num Austrália x Egito decidiu aparecer. Trabalho de última hora, lembrete de relevo ou obra do acaso, deu certo. Mathew Ryan nada defendeu e, desta vez, nem foi preciso Mostafa Shobeir usar as luvas. E, claro, Mohamed Salah apareceu. Nunca passa de moda a estética de um panenka bem feito num desempate dos 11 metros.
A Austrália competiu melhor com o plano base do que com os ajustes que Tony Popovic foi tentando fazer. Impressionante o Mundial de Nestory Irankunda. Desapareceu do radar demasiado cedo para um jogador com apenas 20 anos. Começou pelos corredores, terminou como número 9 para batalhar com os defesas e atacar as costas da linha defensiva. Mesmo diante blocos mais baixos, conseguiu sempre ganhar qualquer coisinha, nem que seja a falta. Aí, quem tem Harry Souttar, um gigante de 2 metros que tem nos Mundiais o momento de maior brilho individual. Saiu do Mundial de forma competitiva, como havia sido o compromisso.
Heróis com H grande | Argentina 3-2 Cabo Verde


Ainda não há bem palavras nem medidas para o que Cabo Verde conseguiu fazer diante da Argentina, uma das favoritas a reconquistar o título que defende. Na fase de grupos, tudo aparentou ares de passeio para a albiceleste. No primeiro jogo a eliminar, uma verdadeira batalha campal. Contra Cabo Verde, um país em estreia no Mundial que se agigantou e fez jogo muito duro. Levou nos pés os sonhos mais preciosos de um país em estreia nestas andanças. Sem derrotas em 90 minutos, deixa o Mundial com o estatuto de Herói. Com H grande.
Foi a estreia na maior prova do futebol de seleções para a seleção cabo-verdiana. Na fase de grupos, conseguiu travar e empatar com a Espanha e com o Uruguai. Na fase a eliminar, um marco histórico, travou a Argentina e levou o jogo para o prolongamento. Tem na consistência e solidez defensiva os grandes méritos, mas voltou a provar que não depende exclusivamente disso. Também soube ir atrás dos resultados por duas vezes. Só não foi três porque não calhou. Entre todas as histórias do Mundial 2026, nenhuma tão risonha quanto a de Cabo Verde. Contra os tubarões, brilharam os Tubarões Azuis.
Defensivamente, mais uma prova de solidez e combatividade. Estrategicamente, Bubista – é um ótimo treinador, se ainda restavam dúvidas – preparou a equipa para priorizar a defesa do espaço interior, tentando ao máximo impedir o jogo associativo, de combinações e tabelas dos argentinos. Extremos por dentro, médios por dentro e laterais a saltar na pressão. Para compensar, muita solidariedade de Ryan Mendes, à direita, e de Deroy Duarte, à esquerda, garantindo superioridades.


A espinha dorsal de Cabo Verde destacou-se ao longo do torneio e, particularmente, diante da Argentina. Nenhuma personagem é tão simpática no mundo do futebol como Vozinha, o guarda-redes que passou do anonimato para a fama, das redes do Chaves para as maiores redes do mundo. E, aqui, a referência não é ao Instagram. Contra a Espanha foi uma referência espiritual, acima de tudo, mas deixa a melhor exibição no Mundial contra a Argentina. Pelo caminho, Lautaro Martínez ainda deve andar a correr atrás da bola. Diney Borges até foi mais vistoso na fase de grupos, mas o que Pico Lopes fez contra a Argentina é de outro gabarito. Impressionante com bola, mas principalmente na defesa da área, pelo ar, pelo solo, pela liderança. À frente, Kevin Pina. O 4-1-4-1 dos Tubarões Azuis dá muito protagonismo ao médio, responsável pelos equilíbrios. Impressionante a leitura de jogo e a perceção dos espaços e da bola, para garantir coberturas próximas e limpar lances. Brutal no Mundial.
Ainda assim, Cabo Verde também viveu com bola. Nunca foi dominante, mas foi sempre competente. Contra a Argentina, marcou dois golos, de forma diferente e em momentos diferentes. Em qualquer cenário, Kevin Pina por todo o lado. Com bola, numa equipa a procurar chamar a pressão adversária para explorar espaços na frente, sempre muito sóbrio e ciente dos timings e ritmos do jogo. Na primeira investida, a seleção africana chegou pelos médios, com os irmãos Duarte a povoar a área. Na segunda, já no prolongamento, valeu a precisão técnica de Sidny Cabral. Já tem o golo do Mundial nos seus pés. Falta uma referência goleadora mais fiável a uma equipa com perfis complementares lá atrás, com Ryan Mendes e Jovane Cabral mais pensadores e interiores, Jamiro Monteiro como médio de risco no passe, Telmo Arcanjo (uma pena a lesão) como condutor e Hélio Varela e Willy Semedo a vir do banco para acelerar e atacar espaços. Foi feita história, mas o futuro é o próximo passo.
A Argentina não é inocente nesta história. Depois de chegar ao golo inicial, com Lisandro Martínez e Lionel Messi, os melhores em campo do lado sul-americano, a trabalhar juntos e a percecionar o espaço nas costas como o certo para chegar à área. A receção do 10 é de outro mundo. Depois, um certo conformismo transformado num nervosismo estranho e numa incapacidade para reagir ao empate. Só de bola parada conseguiu voltar a marcar, impedindo o risco de uma disputa de penáltis. A Argentina envolvente evaporou-se e deixou sinais preocupantes, com Lionel Messi a ser a esperança para algo diferente. Da soberba, nasceu a preocupação para os campeões do mundo. O mérito, esse, está em Cabo Verde. O mundo de distância entre as duas seleções ficou mais pequeno.
O doce esquecimento | Colômbia 1-0 Gana


Quando for preciso fazer uma lista das seleções candidatas à vitória, das mais entusiasmantes ou das que praticam um melhor futebol, pouco serão aqueles que colocarão a Colômbia num primeiro ou mesmo num segundo plano. Talvez não em Portugal que, apesar dos deméritos, já sentiu na pele o poder, a energia e as artes futebolísticas dos colombianos.
Desta feita, o resultado diante do Gana é demasiado curto para tudo o que foi o jogo. Apenas o desacerto dos sul-americanos na hora de ampliar a vantagem e um par de defesas impressionantes de Lawrence Ati Zigi impediram que a distância no resultado fosse superior. Talvez, os deuses do futebol tenham querido manter tudo assim, junto bem juntinho, para não contrariar a tese de que os 16 avos de final foram em tudo equilibrados, esquecendo o que os franceses e os espanhóis foram capazes de fazer. Aí, o jogo foi de Europeu. Com essas duas exceções, nenhum resultado teve contornos de goleada e só dois tiveram dois golos de diferença. Em quatro jogos, três só foram decididos para lá dos 90 minutos ou por um mísero golo de diferença. Impressionante.
Embora a Colômbia tenha tido chances e oportunidades para, por mais do que uma ocasião, visar a baliza adversária e dilatar o resultado, o 1-0 contra o Gana é um dos exemplos mais retratáveis deste encurtar das margens. Já há muito poucas equipas bónus e, nem essas, são garantia constante de facilidades. Que o diga o Equador. Ainda assim, e embora o resultado não o deixe claro, nunca a seleção de Nestor Lorenzo teve o jogo fora de controlo ou longe das próprias mãos. Também isso é uma prova de competência.


As mais-valias colombianas estão perfeitamente identificadas. De regresso à fórmula original, os laterais criaram vantagens na última linha, para criar problemas aos quatro defesas africanos. Não foi assim tão incomum ver lances passarem diretamente de Daniel Muñoz para Johan Mojica. Com o lateral direito profundo, James Rodríguez voltou a funcionar como falso extremo, da direita para dentro. Impressionante o que Gustavo Puerta fez, levando consigo Kwasi Sibo para dar mais tempo e espaço para o 10 colombiano decidir. Sem Jhon Córdoba, lesionado bem cedo, Luis Suárez fez a melhor exibição deste Mundial, pelas diagonais, mas também como jogador de apoio. Tornou-se especialista a lidar com blocos baixos em Alvalade. Marcou Jhon Arias que, por dentro, tem esta tendência para aparecer na área bem evidente. E, antes que falte algo, o que ainda joga Juan Quintero é para apreciar.
À Colômbia falta apenas que Luis Díaz suba o nível. Não se trata de falta de protagonismo, de vontade ou de contexto errado, mas de uma maior eficácia nas ações. Se a tendência desde o início já era de total liberdade para circular por dentro e provocar a linha defensiva do Gana, ao intervalo, quando Richard Ríos deu o músculo que James Rodríguez nunca deu e nunca dará, o objetivo foi potencializar ainda mais transições e os movimentos do extremo feito avançado total nas costas da linha defensiva. Ou apareceu fora de jogo ou falhou. Pode ser lido como um elogio à Colômbia que o seu melhor jogador ainda não esteja no melhor plano e, mesmo assim, a seleção jogue muito.
Ao Gana de Carlos Queiroz faltou ir mais além e passar da organização defensiva à capacidade ofensiva. Não é surpreendente, mas o registo sem remates à baliza adversária diz tudo. Desta vez, o golo madrugador, ainda no primeiro quarto de hora, obrigaria sempre a uma fuga do guião de resistência e sobrevivência que, e de forma bem alcançada, o treinador português imprimiu à sua seleção. Sem o conseguir fazer, os minutos foram passando e pouco ou nada aconteceu. O apuramento já pode ser visto como um triunfo relativo.

