As 6 razões para o insucesso de Portugal | Diário do Mundial 2026 #26

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Deu tudo menos Portugal |  Portugal 1-0 Espanha

Aymeric Laporte Rúben Dias Portugal Espanha
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

Portugal foi eliminado do Mundial 2026 pela Espanha. O roteiro de 2010 surge com um enredo muito próximo, com duas grandes diferenças: desta vez, o golo espanhol é 100% legal e, desta vez, a seleção nacional tinha obrigação de fazer uma competição de nível bem mais elevado. O nível da geração portuguesa assim o exigia, mas em nenhum momento, excetuando a exibição diante do Uzbequestão, uma seleção mais modesta, tal foi realidade. A derrota diante da Espanha obriga Portugal a fazer as malas três jogos mais cedo que o grande objetivo e deixa espelhados todos os sinais preocupantes que já se iam notando. 

Do Mundial, há muito pouco de positivo a retirar. Quando Diogo Costa é o melhor jogador de Portugal, de forma praticamente unânime e inequívoca, está tudo dito, não sobre o nível do guarda-redes, esse incontestável, mas sobre o processo que o leva a ser o grande destaque. Nuno Mendes voltou a apresentar-se a um nível sublime, Renato Veiga surpreendeu pela regularidade nas exibições e houve lampejos de alguns jogadores, João Félix e Gonçalo Ramos acima dos demais. Para lá disso, foi um torneio muito curto. E há razões que o explicam. Seis, um dos números associados a este Mundial. A numerologia, quando o campo dita o contrário, dificilmente será uma aliada por si só. 

A utilização e priorização do meio-campo foi secundária. É certo que Vitinha e Bruno Fernandes fizeram um Mundial bastante apagado, mas há razões que enquadram o desaparecimento individual e atenuam o pouco que os dois principais jogadores portugueses no panorama europeu conseguiram criar. Mesmo João Neves passou longe das grandes exibições, mas o maior dinamismo foi uma atenuante que aproximou o médio de um nível aceitável. Vitinha é um gestor de posses, capaz de prolongar o tempo de Portugal com bola e de aproximar a equipa através do passe. Quando a seleção jogou à apanhada contra a Colômbia ou quando viu a Espanha superiorizar-se e garantir para si a posse, deixou de estar em campo e é natural que assim seja. Rodri veio de uma época terrível e a um ritmo bem inferior ao que tinha há dois anos e fez o que fez. A matemática, por vezes, é simples. A ideia tática por detrás do papel de Bruno Fernandes, praticamente a jogar como segundo avançado, ainda está por ser descoberta. Andou o Mundial a compensar os movimentos de Cristiano Ronaldo e longe da bola. Contra a Espanha, para João Félix andar por dentro, nessas zonas, passou a jogar sobre o corredor esquerdo. É certo que o médio pode funcionar em zonas de criação, de definição ou, idealmente, entre as duas. Andando longe de ambas, o impacto será sempre reduzido.

Bruno Fernandes Rodri Portugal Espanha
Fonte: Federação Espanhola de Futebol

Ao longo do Mundial 2026, Pedro Neto foi titular em todos os jogos. Não há aqui qualquer tipo de crítica ou insinuação à qualidade do extremo, muito menos ao perfil, praticamente obrigatório na convocatória. O problema está quando a capacidade de oferecer produto final, de acelerar e procurar jogar sempre para o cruzamento e para o esticar jogo se substituem ao pensamento estruturado, à gestão dos timings e à capacidade e variabilidade criativas. Se Portugal não jogou com o meio-campo, também jogou sempre com extremos e corredores de constante aceleração, precipitando ataques e levando a um jogo com mais transições que organizações. Francisco Trincão andou perdido pelo banco nesta ideia. 

Como consequência quase natural, Portugal nunca foi capaz de se defender com bola, ficando sujeito a transições e a ataques rápidos dos adversários. É certo que, individualmente, quer Renato Veiga quer Rúben Dias – ligado ao golo de Mikel Merino – estiveram bem no Mundial. Ainda assim, o peso defensivo, bem evidente no jogo contra a Colômbia, onde a baliza a zeros está na conta de Diogo Costa, na forma como a RD Congo conseguiu chegar à frente ou na forma como Mikel Merino, aos 90 minutos, apareceu solto na área, mostram que, para lá das exibições defensivas bem conseguidas no cômputo geral, havia outro mundo de possibilidades para explorar.

Dentro dessas possibilidades a explorar, é possível olhar para o plantel como desaproveitado. Por mais que tenham entrado em campo 21 jogadores nos três primeiros jogos, há uma diferença considerável entre somar minutos e, de facto, entrar nas contas. Matheus Nunes, Samu Costa, Gonçalo Guedes, Francisco Trincão ou Gonçalo Ramos foram praticamente residuais nas escolhas de Roberto Martínez. Não que fosse obrigatório serem titulares ou entrarem em todos os jogos, mas houve cenários em que poderiam ter dado mais. A gestão do plantel e o subaproveitamento do grupo não deixaram Portugal continuar a sonhar.

Cristiano Ronaldo Portugal
Fonte: FIFA

Não há um elefante na sala no assunto Cristiano Ronaldo. O ciclo para pensar no futuro do capitão português na seleção abre-se agora, como se abriu em 2024 ou em 2022. Sendo assumida a decisão, por ambas as partes, de continuar o percurso lado a lado, o tema passou a ser a gestão de Cristiano Ronaldo. Quando foi feita, Portugal venceu a Croácia. Podia ser um abrir de perspetivas e de novas possibilidades, entendendo que a gestão só não era uma possibilidade, como era bem-vinda. Depois da derrota contra a Espanha, Roberto Martínez voltou a deixar claro que, precisando de um golo, Cristiano Ronaldo continuaria sempre em campo, esquecendo, porventura, que para o avançado marcar, é preciso que a bola lá chegue em condições. A discussão em torno de CR7 tem sido adulterada. Neste momento, não se deve discutir o que Cristiano Ronaldo pode oferecer à seleção. Isso é indiscutível, não há qualquer maneira de rebater que continua a ter um peso espiritual sobre colegas e adversários e que, dentro da área, continua a movimentar-se e a procurar a baliza com o instinto matador a que nos habituou, com a ressalva que 41 anos obrigariam sempre. A discussão tem antes de se centrar se, para isso, vale a pena abdicar do exercício da pressão alta, da capacidade associativa ou da exploração da profundidade, mediante o perfil que se queira. Gonçalo Ramos deixou a dica de forma bem clara, mas não entrou nos minutos finais contra a Espanha. Gonçalo Guedes, com um perfil distinto, mas valorizado nas palavras de Roberto Martínez, não entrou em campo. 

A preparação do ciclo do Mundial, como um todo, é o último ponto a apontar à seleção nacional. Desde 2024, Portugal foi reciclando problemas e procurando 1.001 soluções para os combater. Se a estratégia da adaptação ao adversário é perfeitamente válida, também é certo que encaixa bem melhor em seleções com menos recursos técnicos e criativos. Com os jogadores de Portugal, tudo o que não seja impor e estabelecer um jogo comum, com nuances naturais a cada adversário e plano definido, é colocar a seleção um passo mais distante do sucesso. Antes do Mundial, as exibições contra a Dinamarca, a Hungria ou a Irlanda deixaram expostas vulnerabilidades, escondidas entre garantias da perfeição.

A Espanha conseguiu superiorizar-se a Portugal, particularmente na segunda parte, quando assumiu o controlo da bola e se aproximou da área adversária, com Dani Olmo em destaque. De médio de toque de bola e ligação a um toque, dado o espaço reduzido que existia, ganhou espaço para rodar entrelinhas e aproximar a equipa do último terço. Quando Luis de la Fuente percecionou esse espaço, lançou Fabián Ruiz e Mikel Merino, um dos melhores médios do mundo a ler e atacar espaços. Garante golos. Foi a melhor exibição de Rodri por longos tempos como médio de definição de saídas e fluidez. É impressionante como a Espanha continua, ao fim de cinco jogos, sem sofrer golos. E Lamine Yamal e Nuno Mendes é um dos duelos dos tempos modernos. Felizmente, continuará a sê-lo por longos anos. 

Justiça poética | EUA 1-4 Bélgica

Romelu Lukaku Bélgica
Fonte: Federação Belga de Futebol

Poucas vezes a palavra justiça é bem empregue no futebol, sendo reduzida à sorte, fado ou destino da bola que entra ou sai como se, nesse cenário, houvesse algo de justo ou injusto. A justiça não mede a aleatoriedade da bola que entra ou que sai nem nunca medirá. Ainda assim, o facto de ser uma palavra mal empregue, não significa que tenha de ser apagada do dicionário do futebolês. E, a goleada da Bélgica diante dos EUA é a coisa mais justa deste Mundial.

Que tudo o que envolve a organização estadunidense da maior competição do mundo está rodeado de uma cobertura de mentiras, jogos de bastidores e falcatruas já todos sabíamos. Tem sido esse o modus operandis da FIFA nos últimos largos anos, um procedimento reforçado desde que Gianni Infantino assumiu os destinos da organização. Em 2022, o presidente da FIFA acordou gay, catari, trabalhador e sem noção, todos em simultâneo. Em 2026, acordou agarradinho a Donald Trump, num sono em conchinha tão reconfortante que duas personalidades diferentes se aproximaram e envolveram tanto que viraram apenas uma.

É absurda a decisão de suspender, fazendo uso de um regulamento mal explicado, um cartão vermelho. Poderia ser compreensível se não houvesse VAR e se tratasse de um erro clamoroso da arbitragem. Havendo VAR e sendo um vermelho óbvio e evidente, ainda se torna mais preocupante. Talvez o Laranja não seja o melhor prisma para entender as cores. O que se seguiu foi uma das faces mais negras da história dos Mundiais. Que a interferência iria surgir nos bastidores era óbvio. Vê-la a acontecer em frente a todo o mundo e apresentá-la de forma orgulhosa é descarado, repugnante e revoltante. Não há, no mundo, tantas personagens tão lastimáveis como Donald Trump ou Gianni Infantino. Os tipos maus não andam nas ruas, camuflados entre a população e atuando de forma desviante. Vestem fato e gravata, andam de jato privado – quantas árvores serão necessárias para que Gianni Infantino, mais do que ver futebol, se bajule em frente a uma câmara – e sorriem para a câmara. Mais vazios que os sorrisos, só os princípios.

EUA Bélgica Mundial 2026
Fonte: Federação Norte-Americana de Futebol

Folarin Balogun não tem culpa, evidentemente, mas ficará com uma mancha pesada num Mundial onde até estava a ser protagonista. A Mauricio Pochettino e aos EUA, não havia pior maneira de sair da competição. Estavam envolvidos numa aura positiva de bom futebol, atratividade para os adeptos estrangeiros e convencimento, aparente, para os locais. Saem totalmente vergados do Mundial, com uma derrota pesada e os anticorpos de todos os que gostam do futebol. Pior que tudo isso, saem do Mundial com a sensação de que, não fosse todo o circo montado em torno desta questão, e o jogo teria sido bem diferente.

Há mérito à Bélgica no plano e nos ajustes estratégicos, mas, acima de tudo, na forma como entrou em campo com sede de vingança. O único vermelho foi o do sangue nos olhos dos Diabos… Vermelhos. Talvez os EUA tenham mesmo um problema com vermelhos e, desta feita, não é sobre Bernie Sanders. Até se poderia dizer que o problema de Donald Trump com vermelhos não teria qualquer conotação política, mas tudo o que envolve a mais alta patente – não inteligência – dos EUA é político. Político e repugnante. Quem sorriu foi mesmo a Bélgica. Primeiro porque a exibição da equipa da casa foi totalmente anticompetitiva, da defesa da área, à atuação do guarda-redes ou à total ausência de capacidade de envolvimento ofensivo, numa imagem, também futebolisticamente falando, muito pobre. Depois, porque, aproveitando essa vontade de vingar uma injustiça, a Bélgica conseguiu fazer uma das melhores exibições dos últimos largos anos.  

Rudi Garcia, depois de complicar as coisas, acabou por olhar mais para o futebol e menos para os estatutos. Deixou, de uma assentada, Jeremy Doku, Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku no banco e deu um melhor envolvimento à equipa, com Leandro Trossard à esquerda e Dodi Lukebakio à direita, mas também um meio-campo mais completo e influente no jogo. Foi Charles De Ketelaere quem se superiorizou na área, mas foi Leandro Trossard quem, antes disso, conseguiu criar situações de cruzamento. Exibição impressionante do extremo, um dos mais capazes de dosear o risco e a segurança no jogo. Complementado, no outro lado da balança, por Dodi Lukebakio, que trouxe coisas positivas ao jogo. Nicolas Raskin faz bem à Bélgica, Youri Tielemans – que rende bem mais de trás para a frente que ao contrário – continua em destaque e Hans Vanaken tem sempre golo e remate. Estrategicamente, a aposta em Nathan Ngoy para controlar as diagonais e influência de Balogun no espaço, foi crucial. A imperfeição deu lugar a um jogo quase perfeito para a Bélgica e para o futebol. Dentro de campo, só a lesão de Amadou Onana, que seria fundamental no embate diante da Espanha, retira o foco do positivo. Dentro de tamanho sofrimento, um respiro de alívio. 

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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