Recordar é Viver | Uma década após a conquista do Euro 2016

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Será sempre difícil, para não dizer impossível, recordar o dia 10 de julho de 2016 sem um pingo de nostalgia e uma lágrima de saudade no olho. Faz 10 anos que Portugal, contra todas as probabilidades, ganhou o título de Campeão Europeu com um golo de Éder, contra a França.

Mas este momento tem que ser reconstruído com toda a glória que merece. Porque foi um dos títulos ganhos da forma mais portuguesa possível. No Stade de France, e já bem depois dos 90 minutos, o herói mais improvável de sempre da seleção portuguesa colocou a bola dentro das redes da seleção francesa, que até hoje deve ter pesadelos com esse momento, com o número 109 (minuto do golo) e com o nome do camisola 9.

No entanto, e apesar de toda a emoção da final, toda esta competição foi uma montanha-russa de expectativas e de muita fé. A seleção portuguesa chegou à final sem vencer um único jogo durante a fase de grupos (Portugal 1-1- Islândia; Portugal 0-0 Áustria e Portugal 3-3 Hungria) e mesmo assim apurou-se como um dos melhores terceiros classificados (daí o “surto” coletivo que tivemos este ano, com o Campeonato do Mundo, porque a história parecia repetir-se). Nos oitavos de final vencemos a Croácia com o golo de Quaresma, na meia-final apanhámos o País de Gales e ganhámos 2-0 com os golos de Ronaldo e Nani, e chegámos, então, à final com a França.

Todo este Euro foi marcado por momentos quase bíblicos que serviram de justificação para o triunfo da comitiva treinada por Fernando Santos. A lesão de Ronaldo aos 25 minutos da final, a postura do CR7 ao lado de Fernando Santos como um segundo treinador, a traça que pousou na cara do capitão, o remate de Raphael Guerreiro à barra, e o melhor de todos, o golo.

Passaram 10 anos e eu tenho a certeza que cada português se lembra bem de onde estava. Eu sei que estava rodeada de pessoas com os nervos em franja, a reclamar de tudo e mais alguma coisa (como bons portugueses). Estava calor nesse dia, havia tremoços e bebidas na mesa, assim como panados, batatas fritas e sangria. Porque português que é português não sabe ver a bola sem estes elementos, faz parte. Lembro-me do meu pai sair do trabalho e vir a correr para a casa, com o relato nos ouvidos. Lembro-me também de nunca ter tirado o relato dos ouvidos, e, por isso, ouviu primeiro aquilo que os olhos não iriam acreditar. Lembro-me de o tempo parar assim que lhe via a expressão no rosto e desviei os olhos para a televisão. Lembro-me do coração se esquecer de bater quando vi aquele jogador, tantas vezes criticado e que ninguém confiava, a rematar. Vi a bola entrar na baliza. E, de repente, o tempo voltou a correr, ouvi os festejos e festejei também, o coração voltou a bater muito mais acelerado do que seria considerado natural. Vieram as lágrimas, os sorrisos, os abraços. Era tão improvável.

Ainda me arrepio ao escrever sobre este dia porque sinto que foi muito mais que futebol. Foi um momento raro em que um país inteiro se reconheceu na mesma história. A que muitos vivem, a de quem tantas vezes esteve tão perto de conseguir algo, caiu, voltou a levantar-se e venceu. Aquele golo há 10 anos atrás continua a lembrar-nos que a persistência e a confiança em nós mesmos pode transformar o improvável em inesquecível. E essa foi e é a maior vitória de Portugal: acreditar que podia ganhar.

Com a Nike, Portugal venceu o seu primeiro Europeu
Fonte: Seleções de Portugal

A ferida do Campeonato do Mundo ainda é muito recente, mas que o dia 10 de julho de 2016 esteja tatuado em todos os que representam Portugal. Que levem o sentimento de orgulho, de crença, de nostalgia, de saudade que é tão nossa em tudo o que fazem. Que seja sempre sobre o amor ao futebol, ao desporto e à pátria.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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