A mais recente cartada do Benfica no mercado traz um nome que não deixa ninguém indiferente: Jhon Durán. Aos 22 anos, o internacional colombiano chega à Luz por empréstimo do Al Nassr, num negócio que envolve uma cláusula de compra não obrigatória e contornos salariais fora da nossa realidade.
Falamos de um jogador que o Benfica já cobiçava desde a sua explosão no Chicago Fire da MLS, mas que, entretanto, se perdeu na transferência astronómica de 77 milhões de euros para a Arábia Saudita e em passagens fugazes e muito conturbadas pelo Fenerbahçe e pelo Zenit. O talento puro é inegável, mas aterra em Lisboa como um autêntico bilhete de lotaria que Marco Silva terá de tentar decifrar.


Dentro das quatro linhas, se estiver motivado, Durán é um animal competitivo. Com 1,85m e 83kg, junta uma potência física fantástica a um pé esquerdo que remete para os tempos de Óscar Cardozo: finaliza de forma exímia, coloca a bola onde quer e tem a baliza sempre na mira. O seu grande fator diferenciador em relação ao que já existe no plantel é o poderio no jogo aéreo.
Tem uma impulsão assinalável e um cabeceamento letal, assumindo-se como a arma perfeita para resolver jogos bloqueados em que o Benfica precise de bombear bolas para a área. É o avançado de explosão, de ataque rápido à profundidade, fulminante nas diagonais curtas e que precisa de muito pouco espaço para faturar.
Taticamente, o colombiano é o oposto exato de Vangelis Pavlidis. Enquanto o grego se desgasta a trabalhar em prol do coletivo, a baixar no terreno e a ligar o jogo associativo, Durán exige que a equipa trabalhe para ele. Sente dificuldades evidentes no toque de bola sob pressão, não é um jogador combinativo para espaços curtos e tem muito a evoluir tecnicamente no jogo de costas para a baliza. O grande quebra-cabeças para Marco Silva será o encaixe, jogar com dois pontas de lança expõe perigosamente um meio-campo que ainda parece curto, pelo que esta chegada pode muito bem significar que o cobiçado Franjo Ivanovic está com guia de marcha para outras paragens.
O verdadeiro dilema, contudo, não está nos pés, está na cabeça. O historial recente de Durán é um autêntico resumo de indisciplina. A lista é longa: castigos na seleção da Colômbia por faltas disciplinares, danos numa propriedade em Inglaterra, expulsões por agressão (como o mata-leão na estreia pelo Zenit ou o vermelho direto no Aston Villa) e o hábito crónico de abandonar os clubes sem justificação, como aconteceu com José Mourinho na Turquia e, mais recentemente, na Rússia. Desde que viu os milhões sauditas à frente, o foco no futebol de alto nível parece ter desaparecido, dando lugar a uma instabilidade que pode destruir qualquer balneário.
Em suma, a contratação de Jhon Durán é a definição máxima do “tudo ou nada”. O talento inato para destruir as defesas da Primeira Liga está lá todo. Se Marco Silva conseguir o milagre de lhe domar a rebeldia e focar a sua cabeça exclusivamente no relvado, o Benfica ganha aqui um trator com capacidade para marcar dezenas de golos. Se o mental falhar, arrisca-se a ter um jogador que arruma as malas e vai embora ao terceiro jogo.
A qualidade técnica e física é brutal, resta saber se a vontade de voltar a ser um atleta de topo também fez a viagem para Lisboa.

