Houve uma inversão em Alvalade e ela vale mais do que os três pontos. Nas duas primeiras jornadas, o Sporting foi uma equipa que construía tudo antes do intervalo e depois se desfazia. Contra o Alverca aconteceu o contrário: os leões marcaram cedo, atravessaram uma primeira parte longa e sem brilho, e resolveram a partida em cinco minutos do segundo tempo. Não é um pormenor. É a diferença entre uma equipa que sofre com a vantagem e uma equipa que a sabe empurrar para a frente.
O jogo começou pelo fim. Aos dois minutos, numa recuperação a meio-campo, Maxi Araújo arrancou por zona interior e rematou de fora da área para o fundo da baliza de Matheus Mendes. Foi a estreia do uruguaio com a braçadeira de capitão e foi, no cômputo dos noventa minutos, o melhor jogador em campo. Já se escreveu aqui que Maxi vale menos pelo espetáculo do que pela presença: é o homem que aparece na área contrária e, no lance seguinte, corta a transição adversária no corredor esquerdo. Com a braçadeira, essa dimensão apenas se tornou mais evidente.


Depois desse golo madrugador, seguiu-se o que se pode chamar, com alguma generosidade, um exercício de paciência. O Sporting não voltou a criar perigo relevante até ao intervalo e o Alverca, longe de se encolher, insistiu numa pressão alta que incomodou os leões na primeira fase de construção. Vale a pena olhar para o que Rui Borges pediu à equipa nesse período. O Sporting procurou sistematicamente dois espaços distintos: o intervalo entre a linha defensiva e a linha média ribatejana, e as costas dos centrais. Os defesas lançavam direto em Luis Suárez e Geny Catamo; por dentro, a construção mais associativa passava por Flávio Gonçalves e Rodrigo Zalazar. Duas vias, portanto, escolhidas consoante o Alverca apertava ou recuava.
E o Alverca apertou. Sérgio Ferreira apresentou uma equipa que defendia com cinco na última linha num bloco médio, mas que, nos momentos em que saltava para a pressão, se reorganizava numa estrutura muito próxima de um 4-4-2. Foi uma proposta corajosa para quem entra em Alvalade e produziu resultados durante quarenta e cinco minutos. Com bola, os ribatejanos procuraram combinar pelos corredores para escapar à primeira linha de pressão leonina e insistiram nas costas de Iván Fresneda, identificando ali o espaço mais vulnerável. Houve mérito na leitura. Faltou, como o próprio treinador reconheceu depois, consequência.


Porque foi exatamente daí que veio a ruína. Ao pressionar à frente, o Alverca alongava-se, e o Sporting tem qualidade suficiente na frente para castigar quem lhe deixa metros nas costas. Aos 55 minutos, Geny Catamo chegou perto da linha de fundo e tentou o cruzamento; a bola passou por baixo do corpo de Matheus Mendes e entrou. Cinco minutos volvidos, o mesmo Geny desmarcou Luis Suárez, que ganhou a frente a Bojang, contornou o guarda-redes e atirou para uma baliza vazia. Dois golos inventados pelo moçambicano, que continua a ser o jogador mais desequilibrador do plantel quando lhe dão espaço para conduzir.
Sobre Suárez é preciso escrever com cuidado, porque o tema deixou de ser futebolístico há algum tempo. O colombiano entrou no onze porque Fotis Ioannidis nem sequer integrou a comitiva, e entrou num estádio que o tinha assobiado uma semana antes. Marcou o primeiro golo na prova e o trigésimo nono ao serviço do clube em cinquenta e seis jogos, números que, ditos assim, deviam bastar. Não bastam, e é essa a estranheza. Rui Borges deixou o recado no final: os adeptos deviam olhar para o rendimento dos jogadores dentro das quatro linhas. Tem razão. Um avançado que precisa de sentir o estádio contra si antes de marcar é um avançado que se está a desperdiçar, e a janela de transferências ainda não fechou.


Houve outra novidade importante. Com Gonçalo Inácio no banco, e com a imprensa espanhola a associá-lo ao Barcelona, Rui Borges apresentou uma dupla de centrais formada por Ibrahima Ba e Zeno Debast. O treinador falou depois numa boa dor de cabeça para escolher o eixo, e o elogio parece justo: a linha defensiva foi mais serena do que nos dois jogos anteriores e Rui Silva passou uma noite consideravelmente mais tranquila do que aquela que viveu diante do Vitória SC. Não resolve o problema de fundo na baliza, mas alivia-o.
Ficou a mancha dos 88 minutos. Figueiredo, servido por Vasco Moreira, atirou de ângulo apertado e fez o 3-1. Foi o quinto golo sofrido em três jornadas, todos eles na segunda parte. Rui Borges considerou esta a exibição mais consistente da época e falou num processo de crescimento coletivo. Provavelmente é verdade. Mas há aqui um padrão que já não se explica só com cansaço, e cinco golos em três jogos é muito para uma equipa que quer discutir o título até maio.
Do lado ribatejano, o retrato é mais duro do que o jogo sugere. O Alverca soma um ponto em três jornadas e ocupa o décimo sexto lugar. Sérgio Ferreira assumiu que falta à equipa maturidade competitiva e não estará longe da verdade: entregar a bola duas vezes seguidas em Alvalade custou-lhe o jogo. Convém, ainda assim, não confundir tabela com processo. Defrontar o FC Porto e o Sporting nas três primeiras jornadas é um calendário cruel para quem tem um treinador novo, dez reforços e um banco curto. A ideia existe, a coragem também. O que falta é o detalhe, e o detalhe, neste escalão, é a diferença entre um ponto e sete.
O verdadeiro teste do Alverca começa agora, contra os adversários diretos. E o do Sporting começa quando fechar o mercado e souber ao certo com quem poderá contar.
Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Na primeira parte vimos o Sporting procurar muito o espaço entre a linha defensiva e a linha média do Alverca, tanto quanto o espaço nas costas dos defesas. Queria perguntar-lhe, taticamente, qual foi o objetivo?
Rui Borges: Primeiro, nós estamos num processo de crescimento coletivo. Às vezes, os posicionamentos ofensivos, até em termos de jogo posicional, ainda não estão totalmente alinhados com aquilo que queremos, mas os jogadores estão a tentar crescer. O Zalazar e o próprio Flávio são dois jogadores que serão muito importantes e estão a passar por um crescimento individual e coletivo, procurando os melhores posicionamentos para podermos quebrar as linhas de pressão do adversário logo na fase inicial de construção. O Sérgi também foi muito importante na primeira parte. Acho que, em muitos momentos, funcionou quase sempre como o homem livre, o homem de ligação. Fez um belíssimo jogo, super concentrado, sempre ligado à partida e muito bem posicionado, tanto com bola, como sem bola. Por isso, em termos estratégicos, tudo teve muito a ver com os posicionamentos do Flávio e do Zalazar. Às vezes, procurávamos arrastar os centrais do Alverca (que se defendia numa linha de cinco); outras vezes, eles não acompanhavam e queríamos que, em alguns momentos, fossem os nossos jogadores a definir/receber entrelinhas. No entanto, não conseguimos ligar o jogo tanto quanto queríamos e, mesmo quando o fazíamos, às vezes precipitávamo-nos sozinhos nas tomadas de decisão. Ainda assim, tanto o Flávio como o Rodrigo Zalazar cresceram bastante na segunda parte nesse sentido. A equipa melhorou no processo ofensivo, nas ligações e, posteriormente, no ataque à profundidade sobre a área adversária. Isto tem muito a ver com o próprio crescimento do grupo. Vamos melhorar; o tempo demonstrá-lo-á e fará com que aconteça, não tenho a menor dúvida disso.
Bola na Rede: Defensivamente, vimos o Alverca numa linha de cinco. No entanto, quando saltava, a pressão tornava-se num 4-4-2. Eu gostava de perguntar o que é que alterou da primeira para a segunda parte e qual era o objetivo desta alteração?
Sérgio Ferreira: Considero o Sporting uma equipa muito dinâmica. Contra um adversário assim, mais do que fazer muitas trocas posicionais em termos defensivos, o importante é manter o nosso bloco compacto e ter capacidade para criar referenciais de pressão claros. Sinto que a equipa conseguiu subir as linhas quando era necessário, algo que já fazemos bem desde o ano passado, onde nos sentimos confortáveis, e que era fulcral para a nossa estratégia. Defendemos em bloco médio ou alto em função da construção do Sporting, que se apresentou num 4-4-2 ou num 4-3-3 assimétrico. Era crucial estarmos atentos à faixa média, tanto por dentro como por fora, para nos referenciarmos e igualarmos a dinâmica de construção deles. A nossa intenção passava por pressionar alto e ganhar a bola mais perto da baliza adversária, através de uma pressão vertical, embora também estivéssemos preparados para uma pressão em largura. Contudo, a verdade é que o Sporting conseguiu, por várias vezes, projetar os médios para explorar o corredor lateral; a bola saía para fora, voltava a entrar por dentro e isso complicou a nossa circulação e posicionamento. No fundo, tudo parte da nossa intencionalidade de jogo, tendo sempre em conta o plano estratégico e a forma como o adversário joga para procurarmos as melhores respostas para as dificuldades do jogo.

