A renovação bateu à porta dos leões no mercado de transferências para a época 2026/2027, com o Sporting a ser a equipa que mais comprou, bem como vendeu em Portugal. Nos cofres leoninos entraram mais de 150 milhões de euros. Em sentido inverso, foram investidos mais de 123 milhões de euros. Foi uma autêntica revolução do plantel. Rui Borges procurou mudar as características dos jogadores que tinha à sua disposição. O Sporting procura esquecer as amarguras da época passada. Apesar de uma excelente campanha na Liga dos Campeões, a equipa de Rui Borges acabou a época sem troféus, com a derrota diante do Torreense a ser um balde de água fria nas ambições do Sporting.
Começando pelas saídas, há muito por onde debater. Jogadores vistos como nucleares para a estrutura do Sporting foram vendidos. Varandas, após a final da Taça de Portugal, deixou, de forma clara, a sua opinião sobre o que faltou ao Sporting: “O Sporting perdeu porque não competiu e não teve atitude de quem quer ganhar um troféu”. Os dados foram lançados e a mudança de paradigma estava a ser planeada.
A cada saída, é imperativo juntar o contexto. Quenda, Hjulmand, Trincão e Diomande saem numa tentativa de aproveitar o valor de mercado e as oportunidades de negócio que apareciam. Quenda já estava vendido há um ano, ficou para amadurecer. A venda de Hjulmand era uma certeza, o jogador ficou mais um ano, face a um acordo entre o jogador e o clube. Diomande era um ativo importante e a sua saída não era segura, mas uma possibilidade forte. Só com estas vendas, o Sporting arrecadou cerca de 130 milhões de euros. Trincão foi outra peça fundamental, contratado pelo Al-Ahli, essencial no momento de ligação ofensiva e um dos jogadores mais importantes na última década para os leões.


Nem todas as saídas foram fáceis. O Sporting sentiu a necessidade de “virar a página”, rompendo com jogadores que anteriormente eram acariciados pela massa adepta. Pedro Gonçalves e Daniel Bragança foram as mais notáveis, pelo contexto que se criou ao redor dos mesmos. Pedro Gonçalves era uma sombra do jogador de outros tempos e não dava o rendimento que dele era esperado, com a Fiorentina a avançar primeiro e a garantir a contratação do jogador. Outro caso delicado foi o de Daniel Bragança, o médio foi amaldiçoado pelas lesões e, apesar dos bons momentos, nunca correspondeu às expectativas. A situação complicou-se quando o português e o clube não chegaram a acordo para a renovação do contrato. A saída era iminente e o português decidiu rumar ao Torino.
O que me leva aos reforços dos leões. Como já foi anteriormente referido, o Sporting reforçou-se em peso para esta época, com alguns nomes sonantes. Nomes com um perfil que estivesse mais próximo do pretendido por Rui Borges.


Na baliza, não existiram muitas alterações. As exibições de Rui Silva têm sido muito contestadas, com momentos que poderiam entrar para os apanhados e que acabaram por prejudicar o Sporting nas primeiras jornadas. Para colmatar uma possível mudança de guardião, o Sporting contratou Kaique Pereira, antigo guarda-redes do Nacional. Resta saber se irá assumir a titularidade. Na defesa, Ibrahima Ba chegou para imprimir confiança numa defesa muito frágil e até medrosa. Gonçalo Inácio tem sido uma incógnita para a nova época, com bons jogos, mas também com performances que mancham o capitão dos leões. O central português parece ter receio do choque e do contacto físico. Entra Ba, um jogador mais semelhante a Diomande, mais físico e sem medo dos duelos.
O meio-campo foi o setor que mais alterações sofreu. Saíram os médios de recorte fino, mais cerebrais, para as entradas de jogadores mais físicos e robustos. Entraram Doumbia, Altimira, Silas Andersen e Pedro Lima. Os últimos dois parecem ser opções secundárias por agora. Doumbia encantou na pré-época, mas, neste momento, parece não ter um lugar definido no esquema de Rui Borges. Seja no meio ou encostado à linha, não há dúvidas quanto à qualidade do médio. Tem qualidade no transporte, uma dimensão física do outro mundo e um remate de meia-distância perigoso para os guarda-redes adversários. Resta encontrar um equilíbrio entre o caos ofensivo e o momento defensivo, quando o conseguir promete ser um jogador de alto nível e para outros campeonatos.


Sobre Altimira, não há muito para dizer. O médio espanhol tem sido o melhor reforço desta nova era leonina. Calmo com bola, assertivo nos duelos, o número “5” do Sporting tem impressionado. Altimira tem uma qualidade absurda, tanto no momento de construir, como no momento de “destruir”. O espanhol tem assumido o papel de “maestro”, com uma posição mais discreta, mas com um impacto bem visível. Em termos de lacunas no meio-campo, parece faltar um “8”, um jogador que consiga pautar as diferentes fases do jogo, mais próximo de um Morita ou Pedro Gonçalves.
No ataque, chegaram mais opções para Rui Borges. Zalazar ainda não mostrou a qualidade que encantou a “Pedreira”. O uruguaio ainda não correspondeu às expectativas, criadas muito pelo valor pago pela sua transferência. O título de “jogador mais caro da história do Sporting” pesa, sobretudo no impacto dentro das quatro linhas, os adeptos querem ver uma retribuição pelo valor pago, o que cria uma pressão extra no jogador. A qualidade de Zalazar é inegável, apesar de ainda não ter sido vista em Alvalade.


Para as linhas, Irankunda e Derry chegam como jovens com potencial. Derry chega sem opção de compra, sendo mais um jogador de plantel, para rodar em fases de maior desgaste. Já Irankunda procura relançar a carreira, depois de ser visto como uma promessa a nível mundial, tendo sido contratado pelo Bayern. Neste momento, não é titular, mas é uma opção viável de rotação, com o Sporting a ter a oportunidade de beneficiar bastante da rapidez e drible do australiano.
O Sporting arranca a nova época com um plantel recheado de caras novas. As vendas e entradas do Sporting contam uma história, representam uma mudança nos leões, desta vez moldado à imagem de Rui Borges. Com estas alterações, o treinador leonino tem a oportunidade perfeita para construir uma equipa na qual se identifique e que seja fiel à sua ideia de jogo. Nem tudo são rosas: Rui Borges fica sem desculpas. A direção investiu, reforçou a aposta no treinador, cabe ao próprio provar que tem o que é preciso para continuar no cargo.

