Os dados não mentem. O Estrela da Amadora, que voltou a carimbar a manutenção nas últimas jornadas da última época, está a ser uma das sensações do arranque de época. Os primeiros jogos não eram propriamente fáceis, com confrontos contra Sporting, Braga e Famalicão, todos top-5 na última temporada. Ainda assim, o registo, não sendo perfeito, é assinalável.
Até ao momento, não há espaço para qualquer derrota na temporada. São duas vitórias e três empates. Tão impressionante, em todos os jogos o Tricolor da Reboleira marcou, pelo menos, dois golos. É certo que, excetuando o último, também sofreu dois em todos os jogos. Mas a tendência inverteu-se.
A temporada é longa e conclusões precipitadas são sempre de evitar. Ainda assim, depois de uma vitória contra o Braga, num jogo antecedido por uma mudança de estádio repentina e todas as consequências que daí chegaram, há espaço para refletir e encontrar padrões e fórmulas que permitem o sucesso até ao momento.
Capacidade de superação


Excetuando o jogo contra o Alverca, o Estrela da Amadora começou todos os jogos em desvantagem no marcador. Mesmo no Ribatejo, na primeira de duas visitas ao estádio que acolheu o duelo contra o Braga, num certo momento houve um momento de desvantagem.
Há dedo de treinador na capacidade de reagir à adversidade, mas já lá vamos. Mesmo com os ajustes necessários, reagir à adversidade não é uma garantia. Há uma mudança de atitude, mais atrevida, capaz de misturar a segurança na postura com o atrevimento nas intenções, que vai guiando o Estrela da Amadora.
Mais importante, não é uma mudança atrelada apenas em alguns jogadores. Há uma espécie de sintonia comum à equipa, transmitida também pelos adeptos numa comunhão bonita de se ver, que baliza a atitude. O Estrela da Amadora joga bem e fá-lo com a língua de fora.
Impacto das mexidas de Pepa


Não são necessariamente falhas no plano ou maus planeamentos, mas o Estrela da Amadora tem tido falsas entradas em muitos jogos, com golos sofridos cedo. Ainda assim, e porque a atitude já foi destacada, é tão ou mais importante olhar para a forma como Pepa e a sua equipa técnica conseguem mexer com o jogo e fazer ligeiros ajustes para responder aos problemas.
Contra o Braga, foi simples de perceber que a pressão HxH a campo inteiro, com Dorgeles a fechar Santiago Serra e os centrais exterores arsenalistas a acompanhar os extremos do conjunto da Reboleira, provocou desconforto e erros. No golo sofrido, Rafa Soares mete a bola em zona proibida. Acima do erro, Santiago Serra, imagem de serenidade e maturidade, estava fechado. Cada bola perdida ia rapidamente ter a Gabri Martínez, de fora para dentro a pé trocado e com sentido de baliza.
Rapidamente, e ainda na primeira parte, o Estrela da Amadora reagiu. À direita, Abraham Marcus abriu completamente a posição, para causar dúvida a Gabri Martínez e Sergi Barcia – a segunda parte é de luxo a explorar este passe – e Max Scholze começou a entrar por dentro. À esquerda, Santiago Serra desceu para a linha dos centrais, tirando Dorgeles do centro do terreno e abrindo espaço para uma ligação interior com Ianis Stoica, numa primeira fase a dar solução por dentro. A teia de mar ações individuais foi superada e o Estrela da Amadora passou a jogar.
Variabilidade maior no jogo


O Estrela da Amadora continua a gostar de acelerar – e já lá vamos, naturalmente – mas está mais completo. O erro no golo sofrido mostra que o caminho é longo e não está isento de infelicidades e momentos de desacerto, mas o foco também pode estar no golo do empate, numa jogada construída desde trás. Não abdicar da bola e pensar as acelerações é o grande objetivo da temporada.
Para este pensamento, há alguns nomes em evidência, mas nenhum tão forte como Santiago Serra. Dos médios do Estrela da Amadora, é o que parte por fora na procura dos holofotes. Não ganhou a Europa League, não é familiar do craque do PSG nem veio do Bayern Munique. Os restantes nomes já mostraram argumentos, mas a nível de controlo da bola, gestão dos ritmos e impacto na saída, a maturidade e coragem do jovem de 19 anos é assinalável.
Depois, há, na equipa como um todo, uma estruturação da identidade coletiva feita para valorizar a bola. Guarda-redes e centrais não têm medo de ter a bola, os laterais são participativos e capazes de interpretar, os médios estruturam o jogo e o avançado, Leandro Antonetti, vai fazendo um pouco de tudo. Os extremos, esses, estão lá para desequilibrar.
Manutenção da verticalidade e do desequilíbrio


O grande desafio para a nova vaga de pensamento que tem inundado as equipas da classe média da Primeira Liga é a conjugação da vontade de ter bola e atrair o adversário com a capacidade de manter uma ameaça ao espaço que crie, pelo menos, dúvidas ao rival. Procurar sair a jogar desde trás sem qualquer tipo de ameaça e desconforto no espaço, permite aos rivais encurtar de tal forma o espaço disponível que o sufoco é maior.
O Estrela da Amadora tem conseguido ser capaz de evitar esse cenário. O crescimento de Abraham Marcus contra o Braga é auto explicativo. Gabri Martínez começou a saltar demasiado alto e abriu um buraco grande. Sergi Barcia, com muito espaço para cobrir e alguma falta de tino nos momentos da contenção, completou o abrir da passadeira para o extremo que somou uma assistência de trivela e ainda teve nos pés duas oportunidades de ouro.
Há perfis distintos nesta vontade de acelerar. Abraham Marcus é jogador para o fazer preferencialmente com a bola no pé, a este unida com uma espécie de super cola que torna difícil a missão de a tirar. À esquerda, Ianis Stoica é um acelerador de jogo e um jogador com muita capacidade de chegada e de infiltração. Com isso, traz o golo. Beni Souza é o mais descomplexado dos extremos, também o mais criativo, conjugando as duas dimensões – a da finta, do drible curto, da técnica em terrenos reduzidos, e a da velocidade, da agressividade na procura do espaço e da passada larga. Não há muitos jogadores mais entusiasmantes no futebol português.
Afirmação da individualidade


Como consequência de um futebol positivo, que Pepa descreveu como sorridente para os jogadores, as individualidades vão sobressaindo. Para o fim, e porque não foram destaques tão evidentes contra o Braga, mas têm sido importantes na época do Estrela da Amadora, dois jogadores que já estavam na Reboleira, mas que têm atingido o pico exibicional.
O primeiro é Eddy Doué. Beneficia deste papel, mais como segundo médio e com menos responsabilidades posicionais. Conjuga a dimensão do transporte, da condução, da capacidade de queimar linhas em posse, com uma criatividade no passe e um leque de soluções interessante para um jogador com estas características físicas.
O segundo é Leandro Antonetti. É complicado encaixar o avançado de Porto Rico numa caixinha. Talvez a melhor seja mesmo a dos avançados completos, capazes de fazer um pouquinho de tudo. Joga com confiança e com capacidade para intercalar as ações, quer em apoio, quer no espaço. Até esta época, não se sabia que tinha tanta facilidade para procurar o remate e encontrar espaços na área. Quando o coletivo ajuda, o individual sobressai sempre. Não devia haver outro princípio mais importante no futebol.
BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Na segunda parte, e já falou na tentativa de tentar recuperar o controlo do jogo, acaba por lançar um terceiro médio e por apostar numa dupla mais móvel na frente, com o Gabriel Silva muito móvel. O que pretendia com estas alterações?
Carlos Vicens: Com o Gabriel [Silva] poder aproveitar os movimentos na profundidade, a sua rapidez e a relação com o golo. Com o Jonas [Wind], ganhar presença na área rival e também jogo, porque sabemos que é um jogador que o entende muito bem. O Diego [Rodrigues] é um jogador capaz de ter momentos determinantes, capaz de influenciar o jogo vindo de fora, com assistências e com chegada à área. É um jogador perigoso. Com o [Diogo] Travassos, por exemplo, está bem nos desequilíbrios. O Gabri Martínez tinha completado 45 minutos no outro dia. O Tommy [Marqués] refrescou a linha de meio-campo, sabendo que era um jogo que, nos últimos minutos, tinha muitos momentos de ida e volta. Tem a capacidade para chegar aos sítios com rapidez e dar-nos um bocadinho de controlo. Aproximou-nos da baliza contrária, que é sempre o mais difícil no futebol, e hoje custou-nos um bocadinho mais.
Bola na Rede: Já aqui destacou algumas das dinâmicas com que o Estrela da Amadora conseguiu ultrapassar a pressão individual do Braga. O Estrela da Amadora nos últimos anos, principalmente desde o regresso à Primeira Liga, tem sido uma equipa com um jogo direto muito vincado. Quão importante é ganhar também esta capacidade para sair a jogar desde trás e pensar mais o jogo, não perdendo essa ameaça na profundidade que o Estrela continua a ter? Qual a importância de ganhar esta dimensão para o jogo e para a variabilidade do jogo do Estrela?
Pepa: Isto é uma ideia, uma ideia de jogo que os jogadores estão a comprar e estão a absorver com um sorriso na cara e muita vontade de crescer e aprender. Sinceramente, eu joguei, mas mesmo que não tivesse jogado, os jogadores sentem-se mais realizados e mais felizes dentro de campo a fazer aquilo que gostam e aquilo que sabem. Posso dizer uma coisa: o golo sofrido foi a tentar sair a jogar. É o que é. É um erro, mas os erros acontecem. Nós preferimos perder, por exemplo, mas a tentar fazer aquilo que trabalhamos e a ter essa coragem para jogar. Agora, temos é de ser inteligentes dentro de campo. Ter essa variabilidade de jogo apoiado, de jogo jogado, de jogo associativo, mas nunca deixar de agredir. Muitas das vezes, o espaço está lá e, como aconteceu hoje, bola no Marcus [Abraham], bola no Leo [Antonetti], bola no Ianis [Stoica], bola no Beni [Souza] quando entrou. Temos de ser uma equipa com capacidade para atrair a marcação, mas o objetivo é sempre a baliza contrária. As melhores oportunidades, mais uma vez o digo, são nossas.
