O FC Porto venceu em Rio Maior por 1-4 e manteve a liderança da Primeira Liga, mas o resultado final conta pouco daquilo que foi o jogo. Durante uma hora, os dragões defrontaram um adversário que percebeu exatamente onde tinha de fechar o espaço e que esteve a poucos minutos de transformar a memória de fevereiro numa segunda dor. O que separou os dois cenários não foi uma alteração estrutural de fundo nem um momento de inspiração no jogo corrido. Foi a bola parada.
Filipe Coelho montou o Casa Pia num 5-4-1 sem bola, com uma ideia muito clara para a zona que mais interessa ao FC Porto: o espaço entrelinhas. Os centrais dos lados, Selvi Clua e David Sousa, não ficaram à espera dentro da linha. Saltavam sobre o portador sempre que a bola entrava nessa zona, procurando condicionar a receção e obrigar o jogador do FC Porto a virar-se para trás. Selvi Clua, em particular, recuava com frequência para compor a última linha e assumia de forma quase permanente a atenção sobre a ligação interior de Gabri Veiga. Numa equipa que tinha sofrido onze golos em cinco jornadas, foi um plano competente e bem executado.


Perante uma primeira linha fechada por dentro, o FC Porto procurou o caminho mais óbvio: as costas da defesa. Foi aí que Jakub Kiwior assumiu o papel mais influente da primeira parte. O central polaco lançou repetidamente por cima da pressão para o espaço nas costas da última linha do Casa Pia, sobretudo à procura de Gabri Veiga, André Silva e Francisco Moura, e a mesma intenção apareceu nos movimentos de Hwang In-beom e do próprio Gabri Veiga, que alternavam entre aparecer entrelinhas e atacar diretamente as costas dos centrais. Não é uma solução nova. Contra o Moreirense, já tinham sido os passes longos de Kiwior e de Bednarek a resolver o problema de progressão perante um bloco de cinco.
A diferença é que, desta vez, o FC Porto dominou sem criar. Gabri Veiga acertou no poste logo aos seis minutos, Pablo Rosario tentou à entrada da área, William Gomes teve uma primeira aproximação, e depois disso o jogo esvaziou-se de perigo portista. O Casa Pia, esse, foi crescendo, e fê-lo exatamente pelo caminho que se antecipava: a transição ofensiva. Sempre que recuperava, procurava acelerar de imediato, e foi num desses momentos, aproveitando um mau atraso de William Gomes, que Henrique Araújo ganhou o duelo a Alberto Costa e ficou isolado perante Diogo Costa aos 30 minutos. Falhou. Doze minutos depois, já não falhou: Pablo Rosario atingiu Selvi Clua dentro da área, José Bessa apontou para a marca de grande penalidade e o Casa Pia fez o primeiro golo da temporada.
Se o interior estava fechado e a profundidade era controlada por uma linha de cinco, restava ao FC Porto o corredor. E é aqui que aparece o comportamento mais interessante da equipa de Francesco Farioli, aquele que tem vindo a repetir-se de jogo para jogo: as associações entre o lateral, o extremo e o médio interior.


O mecanismo é simples de descrever e difícil de defender. O extremo fixa o lateral adversário para o obrigar a manter a posição, o lateral portista sobrepõe-se ou oferece-se por fora para ocupar quem sai a pressionar, e o médio interior aparece entrelinhas ou nas costas dessa linha, no espaço que os dois primeiros acabaram de abrir. Um fixa, outro arrasta, o terceiro recebe. Contra o Moreirense, foi esse encadeamento, com Gabri Veiga a romper e Pepê a receber livre no corredor esquerdo, que produziu o golo da vitória. Em Rio Maior, foi por aí que o FC Porto encontrou os poucos momentos em que conseguiu atacar a área com vantagem posicional.
O ponto que merece discussão é outro: este mecanismo precisa de tempo e de repetição para produzir golo, e o FC Porto não está, neste momento, a converter essa superioridade nos corredores em finalização. É a mesma limitação que ficou exposta frente ao Moreirense e, de forma muito mais evidente, frente ao Manchester City. Contra o Casa Pia voltou a acontecer.
Nos dois jogos do campeonato em que o FC Porto teve de resolver um problema, foi a bola parada a resolvê-lo. Frente ao Moreirense, o empate chegou de um livre de William Gomes cabeceado por Jan Bednarek. Em Rio Maior, o empate ao intervalo nasceu de um canto, com Pablo Rosario a segurar a carga e a servir André Silva para o 1-1 aos 45+3 minutos, e a reviravolta nasceu de outro canto, com Gabri Veiga a colocar a bola na área para o cabeceamento de Kiwior. Para o polaco, foi o primeiro golo em 47 jogos com a camisola azul e branca. Para a equipa, foi a terceira vez em duas jornadas que um lance parado alterou o rumo do jogo.
Não é um acaso, e também não é um detalhe menor. Com blocos cada vez mais compactos e adversários cada vez mais preparados para fechar o corredor central e controlar a profundidade, o lance parado deixou de ser um bónus e passou a ser um plano paralelo. O FC Porto tem altura, tem bons batedores e tem trabalho evidente nas movimentações dentro da área. Numa Liga em que os grandes vão encontrar semana após semana equipas organizadas em cinco atrás, esta é provavelmente a arma mais rentável que Farioli tem à disposição, e o que aconteceu em Rio Maior confirma-o: sem os cantos, este jogo tinha ficado complicado.


Depois do 1-2, o Casa Pia partiu-se. Aos 66 minutos, um corte deficiente de Khaly deixou a bola nos pés de Borja Sainz, que finalizou de primeira para o 1-3, e Santiago Giménez, lançado para o lugar de André Silva, estreou-se a marcar de grande penalidade para fechar as contas. Os números finais deram ao encontro uma aparência que ele não teve durante uma hora.
O FC Porto segue na liderança isolada e com o estatuto de melhor visitante da prova, ainda que tenha sofrido em Rio Maior o primeiro golo fora de casa esta época. Mas a próxima semana pede outra coisa. O clássico com o Benfica no Dragão traz um adversário que não vai entregar o corredor central nem defender numa linha de cinco à espera do erro, e que dificilmente permitirá ao FC Porto uma hora de posse tranquila e estéril. Contra um bloco baixo, a bola parada tapa o buraco. Contra o Benfica, a pergunta vai ser outra: quanto é que estas combinações nos corredores conseguem produzir quando o adversário também quer a bola.
Do lado do Casa Pia, fica um plano defensivo bem desenhado e o primeiro golo da temporada. Fica também o último lugar, e a confirmação de que a competência tática, por si só, não chega quando o momento de decidir aparece aos 30 minutos e a baliza está à mercê.
Bola na Rede em conferência de imprensa
Bola na Rede: Vimos várias combinações no corredor entre o Alberto, o Willian e o Inbeom a aparecerem entrelinhas, com um a fixar a marcação para libertar o outro. O que procurou o FC Porto com essas triangulações perante um bloco de cinco do Csa Pia?
Francesco Farioli: Eles abordaram o jogo de uma forma muito diferente do que fizeram nos jogos anteriores, onde foram muito mais corajosos a pressionar e a colocar pressão à frente. Hoje tiveram uma abordagem diferente, muito mais conservadora. Com bola, é uma equipa que, pelo que vimos, tenta sempre jogar, mas hoje o passe mais curto deles foi de 80 metros para a frente, para tentar disputar a segunda bola. Isto exigiu de nós algum tempo para mudar a abordagem, a adaptação e a preparação do jogo. Num relvado que não estava ao melhor nível e muito seco, não era fácil encontrar combinações por dentro, por isso tivemos de ir muito mais pelas alas. Foi essa a dinâmica do jogo e, na segunda parte, com um pouco mais de velocidade, as coisas correram um pouco melhor do que na primeira parte.
Bola na Rede: Defensivamente, vimos um Casa Pia sólido na primeira parte, numa linha de 5, com os centrais a tentar condicionar o jogo entre linhas do FC Porto. Qual era o objetivo da equipa nessa ocupação da zona interior?
Filipe Coelho: O objetivo da linha de cinco com o Selvi encostado entre o Kaly e o Geraldes era parar o ímpeto que os médios interiores do FC Porto têm. Ataque à profundidade incrível, agressivos, rápidos a chegar. Em vez de na linha de quatro andarmos a correr atrás deles, decidimos esperar por eles e que eles batessem de frente, absorver essas roturas de forma mais sólida. João Rego e Ofori sempre a cuidar desses médios também pela frente. O nosso bloco era tão compacto que muitas vezes os médios eram obrigados a aparecer à frente do nosso bloco e isso ajudava-nos ao controlo e evitava que eles entrassem à profundidade no corredor central e limitássemos a procura da profundidade, pelo Diogo, pelo Bednarek e pelo Kiwior, do Pepê e do William Gomes.

