Ricardo Dias, médio do Atlético CP, concedeu uma entrevista ao Bola na Rede, onde assumiu o objetivo do clube de lutar pela subida à Segunda Liga.
O Bola na Rede entrevistou Ricardo Dias e o experiente médio do Atlético CP assumiu sem rodeios a ambição de garantir a passagem à fase de subida e lutar pelo regresso do histórico clube de Alcântara à Segunda Liga. Recordando o seu percurso desde a formação no FC Porto até ao estatuto de vice-campeão mundial de Sub-20, o capitão destacou a forte união do balneário na Tapadinha como a chave para alcançar o sucesso esta temporada.
Bola na Rede: Gostaria de começar por abordar o teu percurso de formação. Começaste no Beira-Mar e ingressaste no FC Porto aos 15 anos. De que modo é que essa experiência moldou a tua evolução no futebol?
Ricardo Dias: Boa tarde. Antes de mais, sim, eu sou natural de Aveiro, por isso acabei naturalmente, como qualquer miúdo que gosta de futebol lá em Aveiro, por ir para o Beira-Mar. Tive lá 7 anos na formação, até aos 15 anos. Depois houve o interesse do Porto e os meus pais sentiram que já era uma boa altura em que eu passava a estar fora de casa. Já não estavam muito preocupados comigo porque acabei por ser também um bom aluno e dar as garantias para que essa transição fosse bem feita. Acima de tudo, sempre fui um rapaz que gostava muito de futebol, que tentava fazer as coisas bem e era bastante competitivo. As oportunidades foram surgindo e fui crescendo e melhorando enquanto jogador, mas tudo de forma muito natural. Ou seja, jogava futebol porque gostava imenso, mas ao mesmo tempo conciliava os estudos todos. Sempre foi uma característica que tive. Depois, naturalmente, no Porto acabei por ser chamado às seleções e fazer um bom percurso, acabando por me tornar profissional ainda no Porto.
«É o expoente máximo do nosso futebol português»
Ricardo Dias
Bola na Rede: Como descreves a experiência de te estreares pela equipa principal do FC Porto enquanto jovem vindo da formação, vendo concretizado o trabalho desenvolvido ao longo dos anos?
Ricardo Dias: Sim, eu tive ali os dois anos de júnior em que, felizmente, tive a oportunidade de contactar diariamente com a equipa A: vários treinos, convocatórias na Taça da Liga (não cheguei a entrar, mas fui algumas vezes convocado) e três jogos na Liga dos Campeões. Ter essa experiência e depois combinar com o jogo com o Sertanense, em que ainda joguei 30 minutos, naquele momento acaba por ser um sonho que uma pessoa está a viver ali. Abre-nos um bocado os olhos e faz-nos perceber que ali é outro futebol, é outro nível, ou seja, é o expoente máximo do nosso futebol português. Foi, sem dúvida, um grande prazer e uma honra ter tido essa oportunidade.
Bola na Rede: Recuando na tua carreira, sagraste-te vice-campeão mundial de Sub-20. Que impacto e que marcas deixou em ti essa geração?
Ricardo Dias: Foi uma competição muito interessante porque não havia expectativas nenhumas sobre a nossa seleção. Inclusive, a fase de grupos nem sequer foi transmitida em Portugal, ou melhor, acho que não deu em canais públicos, o que até gerou alguma discussão, mas de facto não havia quaisquer expectativas na nossa equipa. Aos poucos fomos conseguindo criar um bom grupo e, dentro de campo, acabámos por nos unir bastante. Nós fomos apelidados de ‘Geração Coragem’ e se calhar foi um bocado por isso: porque fomos corajosos e unidos, e conseguimos um feito espetacular. Portanto, apesar de não termos conseguido ganhar a final, fomos a prolongamento com o Brasil e demos bastante luta, deixámos uma grande imagem da nossa equipa.


Bola na Rede: Após várias épocas na Primeira Liga, com passagens por clubes como a Académica, acabaste por ingressar no Alverca, onde te sagraste campeão da Liga 3 e conquistaste a subida de divisão. Quais foram os fatores determinantes para aceitares esse projeto?
Ricardo Dias: Olha, eu estava no AVS, no Norte, devido à transição do Vilafranquense para cima, para a Vila das Aves. Estava já numa fase em que tinha preferência por estar perto da família, neste caso em Lisboa. Estava nas Aves e não estava a ser um jogador titular, acabava por ser suplente e entrar em alguns jogos, não estava a ter as oportunidades que queria e estava longe de casa. Entretanto, surgiu a oportunidade de vir para o Alverca. O Alverca contactou-me e acabei por abraçar essa ideia e o projeto. Foi essencialmente isso: sentir-me mais feliz, ser mais útil à equipa e estar perto da família.
Bola na Rede: Encontras-te atualmente na tua segunda época ao serviço do Atlético CP. O que te levou a aceitar o desafio de representares este clube?
Ricardo Dias: Na altura, tínhamos subido o Alverca. Houve ali uma mudança radical ao nível de estrutura, de plantel, e, dentro das opções que me surgiram e daquilo que eu pretendia (que era essencialmente continuar perto de Lisboa), o Atlético foi sem dúvida o projeto mais forte e o que me passou mais confiança. Mostraram bastante interesse em mim e isso agradou-me imenso. Foi essencialmente isso que me fez escolher o Atlético.
Bola na Rede: O Atlético CP é um clube com um historial assinalável no futebol nacional. Que perceção tinhas da dimensão do clube antes de ingressares?
Ricardo Dias: Tinha essencialmente a ideia desses feitos. Sabia que era um clube histórico que competiu com os grandes do nosso campeonato durante muito tempo. Para além disso, houve o projeto recente que está a ser construído, que me foi apresentado e com o qual me identifiquei, e que está a corresponder às expectativas.
Bola na Rede: O treinador chegou ao clube no mesmo período. Que ideias e projeto te foram apresentados durante esse primeiro contacto para te convencerem a assinar pelo clube?
Ricardo Dias: Curiosamente, na altura falaram comigo da direção e a primeira coisa que disseram foi para ter um primeiro contacto com o treinador, sem sequer falar de valores nem de nada. Foi de facto uma das primeiras pessoas que me apresentou o que pretendia para a equipa. Tivemos uma longa conversa e ele acabou por ser uma pessoa bastante importante para a minha decisão, pois explicou-me aquilo que pretendia de mim e o que pretendia para a equipa, e eu identifiquei-me e gostei dessa abordagem.


«É um clube de que tenho aprendido a gostar ao longo do tempo»
Ricardo Dias
Bola na Rede: Encontramo-nos no Estádio da Tapadinha, um recinto emblemático do futebol português. Como caracterizas o ambiente nas bancadas e a relação que tens vindo a construir com os adeptos?
Ricardo Dias: É curioso que é um clube de que tenho aprendido a gostar ao longo do tempo. Gosto cada vez mais com o passar do tempo. É um clube com o qual me estou a identificar mais e é muito interessante ver a dinâmica que existe aqui ao fim de semana. Há um mix de adeptos: o pessoal daqui de Alcântara que vive o clube de forma fervorosa, e depois muitos estrangeiros que vêm aqui à Tapadinha. Cria-se aqui uma dinâmica muito interessante, agora também com este espaço, a curva. Sem dúvida que é um clube de que estou a gostar cada vez mais.
Bola na Rede: Na época transata, após ultrapassarem o Felgueiras na Taça de Portugal sem sofrer qualquer golo, defrontaram o Benfica. De que forma se prepara um confronto com um opositor desta dimensão e de que modo sentem, enquanto Atlético, que este é o vosso lugar?
Ricardo Dias: Preparar um jogo contra o Benfica acaba por ser fácil para nós, jogadores, porque toda a gente quer jogar esse jogo. A motivação está no máximo e é uma semana fácil. Felizmente conseguimos dar uma excelente resposta. Acho que o plantel esteve… conseguimos bater-nos muito bem contra o Benfica e dar uma excelente imagem do Atlético e da Liga 3. Foi, sem dúvida, uma oportunidade, principalmente para a malta mais nova, de mostrar o potencial que existe. Mas acaba por ser muito fácil preparar esse jogo.


Bola na Rede: Como é que tu e o plantel vivenciaram esse encontro e o período subsequente, considerando a excelente imagem deixada perante uma das maiores equipas do país?
Ricardo Dias: Esses jogos muitas vezes são extremamente complicados e pode correr muito mal ou pode correr bem, e nós conseguimos dar uma boa imagem. Senti a equipa muito solta, não estava nervosa, a tentar cumprir aquilo que tinha sido pedido, e acho que fomos exímios nesse capítulo. No pós-jogo acaba por haver algum deslumbramento, não é? Estamos a viver um dia em que depois não há continuidade, porque o número de adeptos nos jogos a seguir não tem nada a ver, os adversários são diferentes… por isso acaba por haver um pouco de deslumbramento. Mas é voltar à realidade e ter a capacidade de perceber que o mais importante para o Atlético é o campeonato.
Bola na Rede: A nível de campeonato, o Atlético CP ficou a apenas três pontos do apuramento para a fase de subida. Como avaliaram esse desfecho e quais são os objetivos para a presente temporada?
Ricardo Dias: Sim, claramente. Acho que já foi dito que acabou por ser uma época negativa o ano passado, porque o grande objetivo do Atlético é ficar nos quatro primeiros para ir à fase de subida e lutar pela promoção. Não o conseguindo, foi claramente negativo. Mas sinto que o plantel, numa fase em que podia ser mais difícil e em que os níveis de motivação muitas vezes não são os melhores, soube dar uma boa resposta. Tivemos logo duas ou três jornadas em que ganhámos e ganhámos bem; ou seja, tivemos uma boa mentalidade para tentar resolver a manutenção o mais rápido possível. Nesse aspeto, conseguimos dar uma boa resposta. Para este ano, é tentar aprender um bocadinho com os erros. Há dois anos o Atlético também não tinha começado bem o campeonato e depois conseguiu ir à fase de subida, mas penso que a grande diferença neste momento está aí: estamos a ter um arranque inicial bastante interessante e queremos dar continuidade à identidade que estamos a criar neste grupo e neste plantel.
Bola na Rede: Numa perspetiva individual, como analisas o teu rendimento ao longo da última época?
Ricardo Dias: Individualmente acabo por ser um jogador muito de equipa e fico ligado à parte negativa de não termos conseguido o primeiro objetivo, que era ir à fase de subida. Logo por aí, não acabou por ser uma época muito boa. De resto, foi uma época razoável da nossa equipa e se calhar minha também: uma época de muitos altos e baixos, em que fazíamos dois bons jogos, duas ou três vitórias a seguir, e tínhamos outros dois não bem conseguidos. Acabou por ser uma época muito irregular da nossa parte, o que foi bastante penalizador para os nossos objetivos.
Bola na Rede: Tendo no teu currículo a conquista da Liga 3 e várias promoções de divisão, de que forma é que essa tua experiência acumulada pode impulsionar o grupo a alcançar a subida à Segunda Liga?
Ricardo Dias: No ano passado, quando cheguei, o plantel brincou bastante com isso. Infelizmente as coisas não correram bem, por isso este ano é tentar esquecer essa parte. Eu vinha do Alverca com duas subidas seguidas e também tinha feito parte do plantel do AVS que subiu da Segunda Liga para a Primeira; ou seja, tinha três subidas seguidas. O plantel brincava bastante com isso: “É agora, é este ano que vamos subir!”. As coisas não correram bem, por isso queria deixar essa brincadeira de parte este ano para ver se corre melhor.
Bola na Rede: Com mais de 290 jogos oficiais disputados e aos 35 anos de idade, o que continua a alimentar a tua motivação para continuares no futebol?
Ricardo Dias: Continuo no futebol porque, enquanto me sentir bem e feliz a jogar, acima de tudo é isso, e me sentir útil, vou continuar. Estou numa fase em que é pensar ano a ano, mas enquanto tiver isso, enquanto me sentir útil e feliz a jogar futebol, é essencialmente isso que me faz continuar.


«Os objetivos do Atlético passam primeiramente pelos quatro primeiros lugares»
Ricardo Dias
Bola na Rede: Em suma, quais são os teus grandes objetivos pessoais e coletivos para esta temporada? É possível sonhar com a subida à Segunda Liga?
Ricardo Dias: Os objetivos do Atlético passam primeiramente pelos quatro primeiros lugares, porque estamos num campeonato de duas fases em que primeiro temos de garantir a passagem à fase de subida. Esse é, sem dúvida, o principal objetivo neste momento, mas o clube tem claramente o objetivo de subir à Segunda Liga. Os objetivos individuais acabam por ser os mesmos: ajudar o Atlético a conseguir os seus objetivos.
Bola na Rede: Na presente época, no encontro mais recente, o Atlético CP conseguiu marcar dois golos em inferioridade numérica após a tua expulsão. É esse o espírito de garra e de entreajuda que estão a tentar criar no balneário para o resto da temporada?
Ricardo Dias: É exatamente essa a identidade de que falava há bocado que estamos a criar. Lembro-me de que, quando levo o segundo cartão amarelo, tenho um jogador a dizer-me: “Nós vamos ganhar o jogo por ti!”. É esse o espírito que se está a criar aqui dentro. A própria lesão do Bura nesse jogo, logo na primeira parte, em que percebemos claramente que era uma situação grave… É muito esse espírito de entreajuda e de união que se está a criar neste plantel e que acho que tem feito toda a diferença, mesmo em relação à época passada.
Bola na Rede: Atuando como médio defensivo, como te caracterizas enquanto jogador e como defines o perfil ideal para esta posição no futebol atual?
Ricardo Dias: Como médio defensivo, acabo por ser um jogador muito de equilíbrios, um jogador de equipa que tenta manter a equipa equilibrada em todos os momentos do jogo. O médio defensivo perfeito é isso: no futebol atual, é um jogador com capacidade de pautar os ritmos de jogo, ter bola e fazer a ligação da defesa para o ataque. Acaba por ser esse o médio defensivo perfeito, na minha opinião.

