João Prates está na Tribuna VIP do Bola na Rede. É treinador de futebol, licenciado em Psicologia do Desporto e está no seu espaço de opinião no nosso site. O técnico de 52 anos já orientou o Dziugas da Lituânia, o Vaulen da Noruega e o Naft Maysan, do Iraque, e esteve na formação do Al Batin e Hajer Club da Arábia Saudita.
Há decisões no futebol que custam tanto como dizer a um jogador que o clube já não conta com ele. No jogo Atl.Madrid x Tottenham, da Liga dos Campeões, uma situação gerou forte discussão entre adeptos e analistas. O jovem guarda-redes Kinsky foi substituído aos 17 minutos após dois erros que resultaram em golo frente ao Atlético de Madrid.
As reações foram imediatas, muitos disseram que o treinador “matou” o jogador ao retirá-lo tão cedo da partida. Mas quem já esteve num banco sabe que o futebol, sobretudo ao mais alto nível, raramente é assim tão simples. De fora, no conforto do sofá, as decisões parecem fáceis, no banco, elas são tomadas em segundos, sob enorme pressão e com milhões de pessoas a assistir. Cada decisão pode mudar o rumo de um jogo e, muitas vezes, também o equilíbrio emocional de uma equipa.
Substituir um guarda-redes após dois erros nos primeiros minutos é duro, muito duro, pode até parecer humilhante para o jogador. Tenho a certeza que nenhum treinador gosta de tomar este tipo de decisão. Mas liderança no futebol não se mede apenas pela empatia, mede-se também pela responsabilidade.
Um treinador não gere apenas um jogador, gere uma equipa inteira, o equilíbrio emocional do jogo e o momento competitivo de uma partida onde tudo pode mudar em segundos. E há sinais que muitas vezes o público não vê, a reação do jogador após o primeiro erro, a linguagem corporal depois do segundo golo, o capitão que fala para o banco e procura respostas.
Para quem está no banco, estes pequenos detalhes são sinais importantes tais como o sentimento dos jogadores dentro do campo debaixo da pressão de de milhares de olhos. É nesse momento que surge a decisão mais difícil, manter o jogador em campo e correr o risco de o expor ainda mais, ou retirá-lo para proteger a equipa e até o próprio atleta.
Porque existe uma verdade simples no futebol. Um avançado falhar um golo esquece-se rapidamente. Um erro de um defesa custa caro. Um erro de um guarda-redes pode mudar um jogo inteiro mesmo que tenha feitos cinco defesas que salvaram a equipa. Talvez a verdadeira questão nem esteja apenas na substituição, talvez esteja na decisão inicial.
Colocar um guarda-redes que praticamente não tinha minutos numa noite de Liga dos Campeões, perante um adversário da dimensão do Atlético de Madrid, é sempre um risco. E quando um treinador assume esse risco, tem também de estar preparado para lidar com as consequências.
Mas o trabalho do treinador não termina no momento da substituição. Na verdade, aí começa outra parte fundamental da liderança, o pós-jogo. Será que o guarda-redes terá força mental para reagir a um momento tão difícil? E terá o treinador a coragem de lhe voltar a dar confiança quando ele mais precisa? Porque há decisões no futebol que custam tanto como dizer a um jogador que o clube já não conta com ele.
Treinar também é isto, assumir decisões difíceis no momento certo e depois ter a coragem de proteger, reconstruir e voltar a confiar nas pessoas. No futebol moderno fala-se muito de sistemas táticos, métricas e análise de dados. Tudo isso é importante. Mas o jogo continua a ser feito de pessoas, emoções e decisões humanas. E é por isso que o trabalho de um treinador nunca será completamente compreendido de fora.
Porque enquanto milhões analisam um jogo durante horas ou dias, quem está no banco tem de decidir em segundos sabendo que qualquer decisão pode marcar um jogador, um jogo ou até uma carreira. E talvez seja precisamente aí que se mede a verdadeira liderança no futebol.

