Há noites que não são apenas vitórias; são afirmações. Na quarta-feira à noite, na Luz, o Benfica viveu uma dessas raras ocasiões em que a história se escreve a vermelho e branco, com emoção, coragem e ambição. Frente ao Real Madrid, o Benfica venceu por 4-2, num jogo épico, intenso, jogado olhos nos olhos com um colosso europeu e selado perto do fim com o golo de Turbin. Uma vitória histórica, que garantiu o apuramento para os playoffs da Champions League e que não pode, nem deve, ser ignorada. Não foi apenas um bom resultado; foi uma noite à Benfica, daquelas que lembram a Europa quem este clube é.
Ainda assim, depois da euforia, impõe-se a lucidez. Estamos no final de janeiro e o balanço da época continua a ser exigente. O Benfica já caiu na Taça da Liga e na Taça de Portugal, ficando pelo caminho em duas competições onde tinha obrigação de discutir o título. No campeonato, a margem de erro esgotou se cedo, fruto de demasiados pontos perdidos numa fase inicial que continua a pesar na classificação. A desvantagem existe e não desaparece com uma grande noite europeia, por muito simbólica que ela seja.
Este enquadramento torna mais visível que o arranque do segundo mandato de Rui Costa não está a decorrer como idealizado. A promessa de estabilidade ainda não se traduziu numa linha desportiva clara e consistente. José Mourinho, por sua vez, continua a ser José Mourinho: confiante, assertivo, convicto nas palavras. Transmite liderança e crença, mas os resultados nem sempre acompanham esse discurso. A equipa oscila, as exibições variam e, apesar do elevado investimento realizado, o Benfica transmite, por vezes, a sensação de ainda estar à procura de si próprio, sem uma identidade plenamente consolidada.


É aqui que surge o velho ditado português: o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Enquanto benfiquista, custa aceitá lo. Esta equipa tem talento, tem nomes, tem momentos, e tem noites como a de de quarta-feira, que provam que o rumo pode ser corrigido. A dúvida não está na capacidade, mas no tempo. Recuperar no campeonato será extremamente difícil, ainda para mais com um Porto que se mantém sólido e regular, mas isso não pode servir de conforto nem de desculpa.
Porque importa dizê-lo sem rodeios: não ser campeão é um falhanço. Um clube da dimensão do Benfica não vive da aproximação, vive da conquista. Lutar não basta. Trabalhar para chegar ao primeiro lugar é uma obrigação permanente, mesmo quando o caminho parece ingrato e o calendário apertado. A exigência não se suspende porque o contexto é adverso.
Na Champions, porém, o cenário é diferente e deve ser encarado com ambição. O apuramento para os playoffs, selado com uma vitória histórica frente ao Real Madrid, obriga o Benfica a pensar mais alto. Os quartos de final não podem ser vistos como um feito impossível, mas como algo atingível dado o contexto. Seja qual for o sorteio, este Benfica já demonstrou que pode competir, que pode impor se e que pode querer mais.
Não basta fé, mas ela também não é irrelevante. A fé acompanha o trabalho, não o substitui. E se esta odisseia de José Mourinho quiser ser mais do que um conjunto de episódios soltos, então terá de transformar noites como a de quarta-feira num ponto de partida e não num ponto isolado. Porque o Benfica não existe para sobreviver às épocas difíceis. Existe para as enfrentar, corrigir o rumo e ganhar. Sempre com ambição. Sempre com exigência.

