Aos 46 anos, o italiano Enzo Maresca voltou à cidade de Manchester para orientar a equipa principal do City. Depois de treinar os sub-21/sub-23 em 2020/21 e de ser adjunto de Guardiola na histórica época 2022/23, em que os cityzens conquistaram a Premier League, FA Cup e Champions League, Maresca assume agora o papel principal na liderança do vice-campeão inglês.
A era Guardiola foi longa e marcada por uma forma de jogar muito própria que levou o Manchester City ao topo da Europa pela primeira vez. Neste artigo, abordamos as mudanças relevantes no elenco dos sky blues, as ideias tácticas de Enzo Maresca e as diferenças e semelhanças relativamente ao seu antecessor.
A substituição da equipa técnica não foi a única mudança importante a acontecer no Etihad durante este defeso. As saídas de peças importantes do meio-campo como Bernardo Silva, Tijjani Reijnders e principalmente Rodri, acrescentam complexidade ao desafio proposto a Maresca.
A direção do City tratou de abrir os cordões à bolsa para garantir que a falta de qualidade no plantel não poderá ser uma desculpa. Elliot Andersen e Iliman Ndiaye chegam com provas dadas na Premier League, bem como o protagonista da quarta transferência mais cara da história do futebol: Enzo Fernández. Ayyoub Bouaddi, promessa marroquina proveniente do Lille, será outra aposta para a rotação do centro do terreno, ainda que com uma margem maior para afirmação.
Na posição de ponta-de-lança, Maresca terá Haaland como a grande arma que lhe faltou em Londres (apesar da importância cada vez mais marcada do brasileiro João Pedro). Já Rayan Cherki e Phil Foden assumirão um papel semelhante ao de Cole Palmer, como criativos com mais liberdade de posicionamento.
Maresca, tal como Guardiola, é um grande apologista do jogo posicional. O futebol cuidado e com paciência na construção de jogo continuará a ser princípio fundamental nesta nova era, com o 3-2-2-3 em posse de bola a manter-se como base tática do treinador italiano. A linha de três centrais e os dois trincos (um deles frequentemente um lateral que muda de posição em posse) criam inúmeras linhas de passe e dão opções para superar a primeira fase de pressão adversária.
É importante realçar que o Guardiola que recentemente abandonou o Manchester City não é o mesmo que chegou ao clube em 2016. Nas últimas temporadas, elementos como passes de rutura, transições rápidas e progressão com bola/drible aumentaram de forma significativa, refletindo uma adaptação ao futebol atual. Esta abordagem alinha-se com o futebol praticado pelo Chelsea de Maresca, que foi na última temporada uma das equipas com mais remates resultantes de contra-ataques e ataques diretos.
A utilização dos extremos, por outro lado, vai-se aproximar mais do período inicial de Guardiola em Manchester: posicionamento mais junto à linha, dando a amplitude que frequentemente se perde com a entrada de um lateral para o meio-campo, e qualidade no um para um, situação em que os jogadores se encontrarão no desfecho de várias jogadas. Semenyo e Doku serão jogadores importantes nesta função.
A forma como a equipa pressiona é um dos fatores diferenciadores entre os dois técnicos. Maresca dá primazia a uma pressão mais agressiva e com maiores referências de marcação homem-a-homem, em oposição à proteção da estrutura zonal que era preferida pelo catalão. Um dos maiores desafios deste City será não abrir espaços em prol da maior intensidade.
A derrota na Community Shield frente ao Arsenal deixou a descoberto algumas fragilidades da defesa do City, com vários lances perigosos dos gunners a resultarem de uma perda evidente do controlo do espaço após saídas de posição para pressionar um atacante.
No entanto, o Arsenal é um dos piores adversários que se pode ter pela frente quando se está em fase de reconstrução da equipa. A coordenação dos momentos de pressão e, acima de tudo, da reorganização defensiva, são aspetos que levam algum tempo e o City já evidenciou melhorias nos primeiros jogos a contar para a Premier League.
Nos 10 anos que passou em Manchester, Guardiola demonstrou uma capacidade quase única de reformular as ideias de jogo antes que o adversário as conseguisse desmontar. Tendo o seu sucessor tem muitas premissas em comum, resta saber se essa adaptabilidade continuará presente.
Nesta terça-feira, o Manchester City desloca-se à cidade invicta para enfrentar um FC Porto que sofreu apenas um golo em seis jogos oficiais. Será mais uma oportunidade para avaliar a eficácia de um sistema que mistura ideias do próprio Maresca com a herança de uma era de grande sucesso dos sky blues.

