O regresso de Álvaro Carreras ao Estádio da Luz

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Na Luz, Samuel Dahl continua sem fazer esquecer totalmente Álvaro Carreras, que desbrava mundo em Madrid e assume-se como um dos melhores laterais da actualidade. A concorrência de Ferland Mendy e Fran García pulverizou-a naturalmente e regressa agora à Luz como titularíssimo do maior campeão do futebolístico. Dois anos depois da sua estreia de Àguia ao peito, Carreras defronta o clube que o catapultou para a elite com a ingratidão involuntária de poder ser um dos carrascos da continuidade europeia do Benfica. Mas estará só a ser profissional: se aos portugueses é obrigatória a vitória e a bonança das probabilidades, aos de Madrid falta ainda um ponto para assegurar o top 8 e a qualificação directa. 

Foi a 24 de Janeiro de 2024, há praticamente dois anos certos, que Álvaro Carreras se fez estrear sob comando de Roger Schmidt, numa meia-final perdida para o Estoril no desígnio dos penalties. Aquele Estoril era osso duro de roer, treinado por Vasco Seabra e com a dupla Mateus Fernandes-Kondredi na intermediária mais Guitane a agitar lá na frente, mas aquele Benfica tropeçava e deixava já antever as dificuldades sentidas até final dessa época. Carreras, vindo do Granada com 20 anos, não tomaria qualquer responsabilidade nessa desilusão, já que só jogaria sete minutos.

Até final da época, nunca seria aposta concreta de Schmidt, mesmo apesar do Benfica ter exercido a cláusula de opção – dos 750’ completados por Carreras nesses seis meses, 485’ (64%) surgiram após a fatídica semana de Abril onde se deixa o Sporting ir à final da Taça e adiantar-se no campeonato. Foi Aursnes que jogou à esquerda, sacrifício herdado de Morato. O treinador alemão, como que reconhecendo parcialmente o erro, deu ao espanhol a liberdade de actuação para o que restava da temporada. Supõe-se que tenha dado o aval para a exerção da tal cláusula, mas querendo, talvez, deixar claro que a prevalência de Aursnes ou Morato tinha sido por pura convicção, decide ir na mesma ao mercado, recrutando Jan Niklas Beste na pátria mãe.

A explosão dos índices competitivos teve-a então com Lage. Assumiu-se preponderante em todos os contextos, sobretudo internacional, com actuações de primeiro nível contra Lamine Yamal, facilitando assim ao Real Madrid a decisão para o recrutamento dum novo lateral-esquerdo. Formado na fábrica de Valdebebas e mostrando-se prolífico em exibições de luxo contra os rivais de sempre, as dúvidas estavam desfeitas quanto ao futuro lateral esquerdo no Bernabéu.   

A saída deixou o Benfica órfão, ainda que não ao mesmo nível do contexto da saída de Grimaldo. Samuel Dahl que, como Carreras, teve o conforto dum período de adaptação nos bastidores, não é ainda consensual no Estádio da Luz, nem oferece a mesma acutilância na associação ofensiva ou as condições físicas fora-do-comum. Não comprometendo, não se evidenciou ainda ao nível do predecessor, não mostrando até agora as características físicas ou mentais de excelência que o possam fazer destacar-se dum colectivo de nível inferior ao ano passado.

Até agora, Carreras cumpriu 2331 minutos distribuídos por 27 jogos pelo clube de Madrid, sendo um dos esteios dum sector defensivo em constante ebulição fruto das lesões. Com Trent Alexander Arnold e Rüdiger ainda em trabalhos de recuperação, é a versatilidade de Carreras que vai permitindo à equipa a solidez possível no ataque aos títulos. Titularíssimo a lateral e cinco jogos fez já como defesa-central, fazendo recurso dos seus 186 centímetros de altura – Xabi Alonso, mais criativo nos utensílios táticos e ousado nas abordagens, usou o espanhol como central aberto nas vezes em que tentou emular o 3-4-2-1 com que levou o seu Leverkusen ao título invicto. Foi nesse dispositivo que, a título de exemplo, o Real Madrid ganhou em Atenas ao Olympiakos (3-4).

Com Arbeloa, parecem as coisas irem-se endireitando depois da anticlimática estreia frente ao Albacete, que valeu a eliminação da Copa do Rey: duas vitórias no campeonato e o expressivo arraial de golos organizado na recepção ao Mónaco, seis golos que servem de grande aviso a José Mourinho. Ironicamente, Carreras nem participou na goleada, sendo obrigado a ir para a bancada por acumulação de amarelos. Como um certo dia no António Coimbra da Mota, frente ao Estoril.

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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