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Antes e depois do Wonderwall, Hey Jude | Noruega 1-2 Inglaterra


Quando o árbitro apitou, os olhares colocaram-se nas bancadas, não no campo. Já todos esperavam o momento de união entre jogadores e adeptos ao som de Wonderwall, a marca distintiva de Inglaterra neste Mundial 2026, onde o It’s Coming Home vai ganhando cada vez mais razão para existir. Talvez, na ânsia desse momento, poucos esperavam que, depois, ainda viria um mais importante. Depois do Hey Jude em campo, também o Hey Jude para as bancadas. Bem que podem ser feitos os agradecimentos a Jude Bellingham.
Por mais que haja méritos, alterações e outros destaques, só por Jude Bellingham se consegue explicar a vitória de Inglaterra. Está a fazer um Mundial 2026 de candidato a melhor jogador do torneio e voltou a aparecer para brilhar. Acima de qualquer questão técnica ou tática, está o sentido de responsabilidade e a capacidade para se impor nos contextos mais delicados e, teoricamente, complicados. Há uma base mental muito forte em Jude Bellingham e, a partir daí, o príncipe inglês reage às adversidades coletivas.
É um médio para chegar a zonas de finalização. Até por isso, esta função como 10, mais perto da área, potencia os seus pontos fortes. Conseguir sê-lo com Harry Kane, um avançado que procura deixar a área para vir atrás jogar e lançar os homens da frente, é um complemento que beira a perfeição. A capacidade de enquadrar os dois jogadores mais talentosos deixa Inglaterra mais próxima de vencer e, consequentemente, do título tão sonhado. Nunca uma seleção tinha tido dois jogadores a ultrapassar a barreira dos seis golos. Diz muito sobre o sonho inglês.


Para lá do sentido de responsabilidade e do papel perfeito, como elemento de rutura e forte presença na área para finalizar, é um jogador com forte sentido tático, na ocupação dos espaços, e condições técnicas sublimes. Talvez por não ser o mais driblador ou irreverente em espaços curtos se tenha tentado, em tantos momentos, desacreditar tudo o que o médio oferece também com a bola no pé. Para lá da técnica do remate, impressiona a forma como consegue prepará-lo. O primeiro golo, pela condução e drible, tem um sentido estético importante.
O jogo nem teve a melhor sequência para Inglaterra que, em vários momentos, deixou a Noruega crescer e assumiu esse risco. Podia ter ido para o intervalo a perder por 2-0, fosse Alexander Sorloth mais astuto num dos lances chaves do jogo, mas foi com um agradável 1-1. Na segunda parte não precisou de ser superior para, não se livrando dos sustos que as bolas paradas provocariam sempre, manter o resultado controlado. Feriu no prolongamento. Já contra o México soube segurar o resultado. Diante da RD Congo conseguiu, depois de muitas dificuldades, ir atrás dele. Há uma maturidade competitiva que se vai tornando no principal traço de personalidade da seleção. Não é coisa pouca numa competição curta.
Thomas Tuchel, a partir do banco, também esteve bem nas substituições. Declan Rice estava condicionado e saiu ao intervalo. Noni Madueke deu o lugar a Bukayo Saka e a criatividade foi exponenciada. Quando Stale Solbakken mexeu nos extremos, não demorou muito a trocar e refrescar os laterais. Um destes, o patinho feio Djed Spence, aproveitou o cenário de campo aberto para ameaçar. No forcing final, lançou Dan Burn para segurar. Só falhou quando meteu Jude Bellingham numa dança de posições, puxando-o para trás para lançar Eberechi Eze. Soube corrigí-lo a tempo, com Reece James, antes médio, a fazer o 10 regressar à sua zona e, depois, com Morgan Rogers para permitir variabilidade nos posicionamentos. Chamou sobre si o peso da crítica e tem conseguido reagir. As meias-finais são, por si só, uma recompensa para Thomas Tuchel.


A Noruega é a grande sensação ou surpresa, dependendo do nível de expectativas pessoal, do Mundial 2026. Já se esperava que fizesse um bom torneio, mas a chegada aos quartos de final e o caminho convincente até lá, o carisma das bancadas e o futebol demonstrado no relvado vão deixar os homens da remada infinita, um dos momentos da competição, na história. Há muito tempo que não se via a Noruega por estas bandas e, nos próximos anos, há poucos motivos para desconfiar que esta presença não se torne regular.
Impressionante o Mundial de alguns dos talentos noruegueses, quebrando estereótipos e protocolos que resumem o futebol nórdico ao privilégio do físico. Patrick Berg é um médio de muita capacidade e trato com a bola e, desta feita, até foi usado mais como jogador de projeção e com outro peso na chegada à área. Martin Odegaard tem, nesta versão mais solta e liberta de caixinhas posicionais, a sua melhor versão. Impactante em todas as fases e alturas do relvado. Na frente, faltou algo mais de Alexander Sorloth, a maior deceção norueguesa em competição, mas Antonio Nusa, Oscar Bobb e Andreas Schjelderup chamaram sobre si o protagonismo, com a dupla substituição a ficar como uma imagem de marca de Stale Solbakken. Diante da Inglaterra, o extremo do Benfica com uma exibição de captar o olho. Para lá do golo, sendo intencional uma obra de arte plena de oportunismo, fez um ótimo jogo do ponto de vista do compromisso.
Faltou mais de Erling Haaland na despedida. Fez um torneio de alto nível, como porta-estandarte da seleção, mas não apareceu contra a Inglaterra. Não que isso apague ou menorize o impacto do avançado no jogo norueguês e na preparação estratégica adversária. Tem 62 golos em 55 jogos por uma seleção sem o estatuto de tantas outras. Saiu ao intervalo do prolongamento, provavelmente com queixas físicas, mas não viu a marca deixar o torneio. A Noruega de Erling Haaland – e muito boa companhia – está aí e, quase de certeza, não foi um erro no percurso.
Mais uma mão cheia de quase nada | Argentina 3-1 Suíça


Se na fase de grupos a Argentina competiu e jogou um bom futebol, desde que o Mundial 2026 começou a eliminar, que a alegria e o futebol argentino se vem dissipando. Não foram novas as dificuldades, mas foram novamente colocadas no caminho da albiceleste por uma Suíça que, tal como Cabo Verde e o Egito, tem argumentos coletivos para se defender bem e de forma organizada e um diferencial extra de talento na frente. Um acaso, entre o deslumbramento e a estupidez, colocou o jogo nas mãos argentinas. Sem ele, é difícil imaginar o que o jogo poderia dar.
Há, no jogo argentino, três grandes lacunas, todas elas bem evidentes diante da organização da Suíça, que não se limitou a defender a área, mas que também procurou competir e pressionar alto, retirar o peso da capacidade para ter bola aos argentinos e ameaçar a baliza às ordens de Emiliano Martínez. Nos entretantos, não houve Lionel Messi ao nível do costume. Para piorar, sente-se cada vez mais que os minutos extra – já 60 nesta caminhada – e a ausência de gesta nesta fase do torneio estão a ter consequências.
A forma como a Argentina tem gerido vantagens tem deixado espaço aos adversários para sonhar. Já tinha acontecido contra Cabo Verde, repetiu-se, de forma ainda mais declarada, contra a Suíça. Ao invés de dar conforto para crescer sem a pressão de ter de marcar, o golo madrugador tirou à Argentina qualquer senso coletivo na capacidade de ter bola e elevou a formação helvética a um patamar de seleção dominante. O golo do empate surgiu aos 67 minutos, mas já se cheirava há que tempos. Esta sensação não é positiva.


Com bola, há uma incapacidade nova para gerar ameaças. A fluidez na circulação continua, em espaços, a existir, mas deu lugar a uma posse que, quando acontece, é estéril e sem grande rumo. Lionel Scaloni não tem dado novos incentivos à equipa – Thiago Almada foi para o banco, Nico Paz e Valentín Barco são meros espectadores – e a Argentina não consegue gerar perigo. Quando tenta chamar a pressão adversária para soltar na frente, não tem gente veloz e prolífica no aproveitamento do espaço. Quando tenta usar a largura máxima do campo, faltam flanqueadores. Quando eles surgem vindo do banco, o produto final é praticamente inexistente.
Como terceiro fator e, de certa forma, uma consequência dos anteriores, a previsibilidade tem moldado o jogo argentino. A bola circula com um destino: Lionel Messi. É a segurança para todos os males. Para bem da Argentina, apareceu sempre. Mesmo contra a Suíça, o jogo de menor exuberância neste Mundial, garantiu uma assistência importante logo no início do jogo. Para mal da Argentina, desta vez não deu para tudo. Também por aí se explica que, quase meia hora em vantagem numérica na partida, não tenha chegado para a seleção sul-americana resistir ao prolongamento.
Não havendo Messi, há quatro destaques claros no jogo argentino que terminou já algo descaracterizado, com apenas um médio em campo e três pontas de lança a flutuar para tentar criar alguma coisa. Defensivamente, Lisandro Martínez chegou onde conseguiu e limpou quase tudo. Brutal o nível defensivo que tem mostrado, para lá do que oferece com bola. A entrada de Leandro Paredes estabiliza a Argentina em vários momentos. Não resolve nada sozinho, mas com bola garante sentido às posses e é uma referência posicional importante no momento sem bola. Thiago Almada entrou bem vindo do banco como agitador. Não estava em grande, mas a forma como passou de titular a pouco utilizado é estranha. Por fim, Julián Álvarez. Apareceu finalmente, bem para lá do grande golo que marcou e que, na prática, decidiu o jogo. Também sabe fazer o trabalho sujo na pressão e na ocupação de espaços e na forma como procura gerar jogo a partir de muito pouco. Tinha dado muito pouco neste Mundial, mas apareceu no momento chave. A transferência para o Barcelona não se conquista sozinha.


A expulsão de Breel Embolo marca o jogo da Suíça. Não retirou capacidade de competir, mas tornou as condições completamente diferentes. De resto, não há qualquer defesa que se possa fazer ao avançado ou qualquer crítica ao trabalho do VAR ou do árbitro João Pinheiro. Corrigiu o erro e o segundo amarelo expulsou o avançado. Numa era da tecnologia, simulações destas são um pedido para ver um cartão. Não estava a fazer um jogo de grande definição ofensiva, mas nenhum dos golos falhados tem comparação possível com a forma como deixou a Suíça com menos um jogador de forma escusada. No futebol, as decisões têm um período temporal bem abaixo do segundo. Esta, foi a pior que o avançado podia ter tomado. E, se os remates, passes, desmarcações, têm sempre compreensão, uma simulação descarada deixa de a ter.
Até lá, superioridade clara da formação helvética. Só mesmo tamanha ineficácia e falta de acerto na definição impediram que o golo do empate surgisse mais cedo. Quando Dan Ndoye abraçou a simplicidade e as tabelas, esse primeiro reduto do futebol das academias e reduto predilecto do futebol das ruas, foi feliz. Já Fabian Rieder por dentro e Djibril Sow tinham provocado problemas com a pressão, já a Suíça tinha sido capaz de se implementar no meio-campo ofensivo e já Granit Xhaka – sempre uma dúvida para a Argentina perceber se devia pressioná-lo individualmente (Enzo Fernández) deixando espaço para o passe ou abdicar da pressão, mas abrindo o campo – tinha desfilado. Dá aulas de liderança através do passe. Com Johan Manzambi e Ruben Vargas nas melhores condições, a história poderia ter sido outra.
No momento da resistência, houve dedo de Murat Yakin. Rapidamente colocou Djibril Sow como ala esquerdo para garantir o preenchimento da área em 5-3-1. Refrescou os corredores, meteu Denis Zakaria por dentro para preencher a área e, quando a Argentina se começou a desequilibrar, lançou Jashari para tentar acionar Zeki Amdouni. Só o pacto da Argentina (com Deus ou o Diabo, ambas ou nenhuma poderão estar certas) e o tempo de ataque descomunal, natural dadas as circunstâncias, levaram a um desfecho diferente. Até lá, Gregor Kobel apareceu por todo o lado. Se não é o melhor guarda-redes do Mundial, pelo menos a chegar a uma fase tão adiantada, não andará muito longe.

