«Eu ainda vou voltar a jogar pelo Boavista» – Entrevista Bola na Rede a João Gonçalves

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O guarda-redes João Gonçalves falou em exclusivo com o Bola na Rede sobre o Boavista, o AVS SAD, a experiência na Roménia e o seu futuro.

Bola na Rede: Como começou a tua ligação ao futebol?

João Gonçalves: Eu comecei muito cedo, com 5 anos. Comecei logo a jogar futebol. Na altura, o meu pai passou-me o bichinho. Comecei a jogar a defesa-central, mas durou pouco tempo, cerca de um mês no máximo. Até que houve uns jogos, daqueles que se faziam quando se ia aos clubes. Não havia guarda-redes, então meteram-me na baliza. A partir daí fiquei sempre. Gostei, as coisas correram bem e comecei a ganhar gosto pela posição. O meu pai também tinha sido guarda-redes. Nunca jogou a nível profissional, mas na formação foi guarda-redes. Juntei o bichinho dele ao facto de me ter sentido bem na posição. E, a partir daí, nasceu uma enorme paixão pela baliza. Foi assim que tudo começou.

Fonte: Boavista

Bola na Rede: Quando percebeste que podias chegar ao futebol profissional?

João Gonçalves: Com todo o respeito pelo Leça do Balio, que é dos clubes pelos quais tenho mais carinho. Era um clube perto de onde vivi durante a infância. Tinha cerca de 14 anos quando comecei a treinar com a equipa sénior. Trabalhava durante o dia e depois, às nove da noite, ia treinar. Tive a sorte de encontrar um grupo incrível, que me acolheu muito bem. Era um grupo verdadeiramente apaixonado pelo futebol. Percebia-se que estavam ali porque gostavam mesmo daquilo. Não era pelo dinheiro, era pela paixão ao jogo. Eles passaram-me esse sentimento e, ao sentir isso da parte deles, comecei a pensar que era isto que queria para a minha vida. Foi aí que se deu o clique. Comecei a ganhar mais ambição, mais vontade e a levar as coisas mais a sério. Claro que a idade também ajuda, porque começamos a ganhar maturidade e a pensar no que queremos para o futuro. Mas tudo isso contribuiu para que, por volta dos 15 anos, percebesse que queria ser jogador profissional e fazer do futebol a minha vida.

Bola na Rede: Fizeste grande parte da formação e estreaste-te profissionalmente pelo Boavista. O que significou representar um clube histórico como o Boavista?

João Gonçalves: Para mim, representou muito, porque sempre gostei muito do Boavista. Antes de jogar no Boavista, eu já ia ver os jogos da equipa sénior. Depois, quando surgiu o convite para ir para lá jogar, fiquei muito feliz e disse logo que sim, não olhei para trás. Significou muito, não só pela grandeza do clube, mas também pelo carinho que eu tinha por ele, e depois de entrar lá esse sentimento só aumentou. Foi muito especial.

Bola na Rede: Como recordas a estreia pela equipa principal?

João Gonçalves: A minha estreia oficial foi para a Taça de Portugal com o Machico, mas eu dou como a minha estreia pelo Boavista o jogo com o Benfica. Aí já tinha jogado em todas as competições, mas para mim a minha estreia foi o jogo com o Benfica, o primeiro jogo de campeonato que ganhámos 3-2. Aquele jogo foi mesmo muito especial, por tudo o que envolvia. Não só pelo jogo em si, como pelo facto de termos ganho a uma equipa grande, pelo estádio cheio e pela maior enchente do Bessa desde que o Boavista tinha subido novamente à Primeira Liga. Foi um jogo super especial. O meu número era o 99, porque os meus pais casaram-se no ano de 1999, a 14 de agosto, e o jogo foi a 14 de agosto. Então, parece que tudo estava alinhado para que as coisas acontecessem. Para mim, embora nesse jogo já tivesse jogado na Taça de Portugal, na Taça da Liga e no campeonato, já tinha feito a estreia nas três competições, essa foi mesmo a minha verdadeira estreia por toda esta história.

Fonte: Boavista

Bola na Rede: Qual foi o momento mais marcante que viveste pelo Boavista?

João Gonçalves: Recordo-me do último jogo dessa época, que foi com o Vizela. Nós precisávamos do empate para ficar na Primeira Liga. Depois, estava a decorrer o jogo do Portimonense, e nós estivemos sempre a perder. Estivemos a perder 1-0, empatámos 1-1, eles fazem logo o 2-1 e, quando fazem o 2-1, sabemos que o Portimonense estava a ganhar ao Farense, então estávamos em posição de play-off. Acaba o jogo do Portimonense e nós estávamos em sofrimento, faltava um minuto para acabar o jogo. Entretanto há um penálti no último minuto e o árbitro diz ao Reizinho, que foi bater, que se falhasse ou se a bola batesse no poste não havia recarga, era o último lance do jogo. Ele faz o golo e nós ficámos na Primeira Liga. Houve uma invasão de campo, foi incrível, um momento muito especial. Aliás, acho que faziam 22 ou 23 anos que o Boavista tinha sido campeão naquele dia. Quase parecia que tínhamos sido campeões outra vez, a festa foi enorme, praticamente equiparada a isso. Esse, sem dúvida, foi o momento mais marcante da minha carreira no Boavista.

Bola na Rede: Como foi jogar contra jogadores que só vias na televisão e nos videojogos? Houve algum avançado que te tenha dado particularmente trabalho?

João Gonçalves: É o realizar de um sonho, não é? Porque lembro-me de quando era criança, jogar FIFA, fazer modos carreira com o Boavista. Depois estar lá dentro e fazer parte de toda aquela realidade que, quando éramos crianças, parecia uma fantasia, é incrível. É o concretizar de um sonho e é muito gratificante. Acima de tudo, acho que é isso que fica. É um orgulho por conseguir chegar lá e fazer parte disso. Dos avançados, lembro-me do Rafa Mujica, do Arouca. Fez-me uns 3 ou 4 golos nessa época. Nós fizemos três jogos com eles, um da Taça e dois do campeonato, e ele fez-me 3 ou 4 golos facilmente. Foi dos pontas-de-lança que mais me marcou pelos golos. Claro, sem esquecer o Gyokeres no Sporting e o Benfica na altura. No FC Porto, o Taremi marcou-me um golo no Dragão. Nós estávamos a ganhar, e o empate dava manutenção no penúltimo jogo. Ele faz o último golo pelo FC Porto no último minuto, e isso foi um balde de água fria.

Bola na Rede: Em 2024, sofreste uma lesão grave no joelho que te tirou dos relvados por cerca de um ano. Como reagiste quando soubeste da gravidade da lesão?

João Gonçalves: Desabei. Desabei porque senti que estava num momento muito bom da minha carreira, estava com uma boa sequência de jogos e sentia-me na minha melhor forma. Pelos relatos, parece que as coisas acontecem sempre quando estamos no topo das nossas capacidades, digamos. Mas estava mesmo muito bem e foi algo que aconteceu de forma inesperada, até um pouco caricato na maneira como me lesionei. São coisas que fazem parte da vida e da nossa carreira. É uma das partes menos boas. Mas, naquele momento, desabei e foi difícil. No dia seguinte, acordei com toda a vontade de ultrapassar aquilo o mais rápido possível. Agora, olhando para trás, sinto que foi muito importante para mim, porque me deu ferramentas para lidar com outras adversidades. Mesmo sendo diferente, ajudou-me a lidar melhor com elas e sinto-me mais preparado para a minha carreira, mais resiliente. Já era, mas fiquei ainda mais forte. Acima de tudo, sinto que agora dou mais valor a pequenas coisas, como ir treinar, que era algo que dava como garantido. Ia treinar, via os outros treinar, tudo tranquilo. Depois tive de estar no posto médico a recuperar da lesão, ir para o ginásio e não poder fazer aquilo de que mais gosto. Agora dou um valor especial a isso e quero aproveitar cada minuto do treino, porque nunca sabemos quando pode acontecer alguma coisa e deixamos de fazer aquilo que mais gostamos.

Bola na Rede: Qual foi o momento mais duro durante a recuperação? Alguma vez pensaste em desistir?

João Gonçalves: Em desistir, não, porque sempre tive a minha namorada ao meu lado a ajudar-me, sempre tive a minha família e até os meus colegas no Boavista, que nunca me deixaram ir abaixo e me deram sempre força para continuar. Mas o momento mais difícil da lesão foi o pós-operatório, porque foi duro. O joelho, após a operação, inchou bastante e fiquei com um edema grande. Nos dias a seguir, era um sofrimento levantar-me, porque parecia que o joelho pulsava e era uma dor enorme. Aliás, tive mesmo de tomar antibiótico e fazer medicação. Mas sou grato pela recuperação que tive, porque foi uma coisa que correu bem. A partir daí foi sempre a subir. O joelho, graças a Deus, até ao dia de hoje está impecável e sempre correspondeu bem ao tratamento.

Fonte: Boavista

Bola na Rede: Achas que se não fosse a lesão, a tua carreira tinha tomado outro rumo?

João Gonçalves: Isso é um bocado os ‘se’ da vida. O que eu sinto é que, sim, naquele momento estava num nível alto, porque estava com uma sequência grande de jogos, sentia que também era o meu ano da afirmação. Tinha sido a primeira época a jogar e estava nesse ano de afirmação. Sentia que estava a ser importante para a equipa e que estava a conseguir ajudar, e isso é, obviamente, o melhor sentimento que um jogador pode ter. E também não posso deixar de dizer que sentia que estava tudo muito bem estruturado e que as coisas no clube estavam muito bem encaminhadas, no sentido de sentir que estava a ser bem treinado, bem preparado, que estava mesmo no auge das minhas capacidades. Por isso, quando digo que me estava a sentir super bem, era mesmo isso.

Bola na Rede: Rescindiste o contrato com o Boavista depois do emblema do Bessa não se conseguir inscrever nas competições profissionais por problemas financeiros.  Como viveste a saída de um clube onde passaste tantos anos e, sobretudo, pela forma que foi?

João Gonçalves: Foi difícil, muito difícil. Hoje, sei e espero que não tenha sido o meu último jogo pelo Boavista. Até hoje, o meu último jogo pelo Boavista foi com o Estoril, em casa. Mas eu acredito que o clube vai voltar à Primeira Liga e, quem sabe, eu vou voltar a jogar pelo Boavista. Tenho esse desejo para a minha carreira. Não sabemos o que vai acontecer no futuro, mas tenho esse desejo. De todo, não era a forma como eu queria sair do clube, porque me ajudou bastante e eu também queria sair de uma forma a ajudar o clube, a retribuir o que fez por mim. Por isso, foi difícil e foi triste. O clube e os adeptos não mereciam o desfecho que teve. Aquele jogo em Arouca foi muito duro, mesmo. Acho que foi duro não só para o Boavista, mas também para o futebol português, porque o Boavista é de Primeira. Não ter o Boavista na Primeira Liga enfraquece-a. Todas as equipas que iam jogar ao Bessa sentiam que era um jogo diferente, sentia-se um ambiente diferente. Por isso, o que posso dizer é que não foi a despedida que eu queria. Tenho a esperança e a convicção de que o clube vai voltar ao lugar onde merece estar. O Boavista é de Primeira e eu ainda vou voltar um dia, quem sabe, a jogar lá.

Fonte: AVS SAD

Bola na Rede: Depois do Boavista, foste para o AVS SAD. O que te levou a aceitar o projeto do clube?

João Gonçalves: Na altura, foi um projeto que me foi apresentado e vi-o como um projeto bastante ambicioso. Achei que estava dentro da linha de que eu precisava naquele momento e, acima de tudo, foi por isso que o aceitei. Entrei no AVS SAD por essa ambição que me foi apresentada. Depois, o que é certo é que as pessoas que me contrataram saíram e o projeto acabou por alterar completamente. Senti que já não estava alinhado com aquilo que eu queria e com aquilo que eu precisava. Decidi mudar e arriscar bastante, porque foi um risco, mas um risco que vejo como um passo de ambição para o meu futuro. O que é certo é que depois fiquei sem clube durante dois meses. Foram dois meses muito importantes, de aposta em mim próprio. Fiz trabalho de campo especializado com um treinador de guarda-redes, fiz trabalho físico e também mental, que acho super importante. Atualmente, o futebol é muito mais jogado na nossa cabeça do que no resto, e acho que isso representa grande parte do jogador.

Bola na Rede: Como surgiu a oportunidade de jogar na Roménia?

João Gonçalves: Depois desses dois meses, surgiu a proposta da Roménia, que vi com muito bons olhos e que adorei. Não foi muito longo, foram dois meses, mas foram muito positivos. Não só pelas duas taças, que são a cereja no topo do bolo, mas também pela experiência de uma realidade que eu não conhecia, num país diferente, que me acolheu muito bem. É um campeonato muito competitivo. Aqui em Portugal não temos muita noção disso, como é normal, assim como eles também não têm muita noção de como é o campeonato português. Mas é uma liga muito competitiva, com boas condições de trabalho. Eu adorei as condições que me foram proporcionadas no Universitatea Craiova, foi mesmo incrível. Superou completamente as minhas expectativas, sendo sincero. Vejo com bons olhos um dia voltar à Roménia.

Bola na Rede: Quais foram as maiores diferenças entre o futebol português e o romeno?

João Gonçalves: Na Roménia sinto que o jogo é mais direto, mais físico, mas ao mesmo tempo mais intenso. É um jogo que parte muito nas transições e isso faz com que o ritmo seja sempre elevado. Aqui em Portugal sinto que o jogo é mais tático, mais controlado, mais parado até. Lá não, lá é mais intenso, o jogo parte muitas vezes, e isso muda bastante a dinâmica. Mas acho que é um futebol interessante.

Bola na Rede: Tens alguma história de balneário, engraçada ou curiosa, que queiras partilhar?

João Gonçalves: Eu estava com o pessoal e, na Roménia, apesar de estar lá há pouco tempo, já começava a dar aquela saudade da comida portuguesa. Falei disso com o Samuel Teles, que é um jogador português que está lá, e ele disse-me que havia um restaurante português, mas que não era nada de especial. Eu, teimoso, com pouco tempo lá, quis inventar. Entretanto apareceu um restaurante que dizia ‘Portuguesal’ e eu pensei: «Isto deve ser parecido com Portugal». Cheguei lá com a minha namorada, que tinha ido à Roménia e também já estava com saudades de comida portuguesa, e levei-a lá para irmos comer qualquer coisa portuguesa. Quando chegámos, aquilo era uma espécie de roulotte, tudo muito estranho. No fim, percebi que só vendia frango. O senhor percebeu que eu era português e começou a falar comigo em português, e para não parecer mal, acabei por ficar, não é. Disse apenas que queria uma coxa de frango e comi aquilo, mas depois quis ir embora e procurar outro sítio para almoçar. No fundo, não é uma história de balneário, mas foi um episódio engraçado que me ficou da Roménia.

Fonte: Universitatea Craiova

Bola na Rede: Quem contrata o João Gonçalves, contrata que perfil de guarda-redes?

João Gonçalves: Sou um guarda-redes de trabalho acima de tudo. Considero isso um ponto forte. Entre os postes tenho um bom jogo de pés, mas acima de tudo acho que quem me contratar vai encontrar um guarda-redes que trabalha, que vai dar o seu melhor todos os dias e que vai querer crescer todos os dias, aproveitando tudo o que o clube tiver para me dar.

Bola na Rede: Neste momento, o que procuras no próximo desafio?

João Gonçalves: Quando saí do AVS SAD não estava à procura de um país em específico. Não descarto absolutamente nada. Apenas quero um projeto que me dê alguma estabilidade, porque não tive isso ao longo dos últimos dois anos. No AVS SAD, não senti que o projeto tenha sido aquilo que estava à espera. Ou seja, procuro um projeto estável, em que possa ter minutos. Acima de tudo, sinto que preciso de jogar, de ter minutos e basicamente é isso.

Bola na Rede: Qual é o teu principal objetivo para os próximos anos?

João Gonçalves: A longo prazo, o meu maior objetivo é representar a nossa Seleção. Já tive a oportunidade de o fazer nos Sub-21 e é uma sensação incrível. Acho que todos os jogadores têm essa ambição e representar a Seleção Nacional é o meu maior objetivo a longo prazo. Depois disso, gostaria também de jogar competições europeias.

Bola na Rede: Neste momento está a decorrer o Mundial 2026? Imaginas-te a jogar nestes grandes palcos? Qual a tua expetativa para Portugal neste Mundial?

João Gonçalves: Imagino. Há uma coisa na psicologia que é a visualização mental, e eu acho que quanto mais visualizarmos e mais nos sentirmos dentro disso, mais perto ficamos. E outra coisa é que também ficamos mais preparados quando isso acontecer. Portanto, gosto de me visualizar muitas vezes nesses palcos e a viver isso, porque quero mesmo isso e sei que um dia vou alcançar. Para Portugal, eu tenho uma expectativa muito grande. Tenho o feeling de que Portugal vai vencer. Óbvio que a forma como começou não foi a melhor, mas isto não é como começa, é como acaba. Tenho essa ambição e acho que temos uma seleção, olhando para a individualidade em cada posição, que pode ser a melhor do mundo. E sinto que, apesar de não ter acontecido no primeiro jogo, a equipa é unida e acredito que vamos conseguir algo muito bom este ano.

Bola na Rede: Quando terminares a carreira, como gostarias que as pessoas te descrevessem?

João Gonçalves: Acima de tudo, gostaria que as pessoas, e mais até os meus familiares e os meus filhos, que são as pessoas mais importantes e cuja opinião é a mais importante para nós, dissessem que tive uma carreira muito bonita, que consegui alcançar coisas grandes e, acima de tudo, que estão muito orgulhosos de mim por eu ter dado sempre o meu melhor e por ter alcançado o que alcancei. Acima de tudo, isso.

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