O Benfica recebeu e venceu o Moreirense por 4-1 na noite de sábado, dia 25 de abril. O Dia da Liberdade, marcado pela felicidade e pela união coletiva, remando todos para um só lado. Um plano que fica para a história resultou em 1974. O plano que José Mourinho lançou contra os minhotos, é um dos registos de 2025/26. Próximos do final do campeonato, o treinador português começou a apostar com consistência no meio campo que melhor funciona no plantel encarnado: Richard Ríos e Fredrik Aursnes no duplo pivot, com Leandro Barreiro mais perto do ponta de lança. Este triângulo invertido é uma máquina oleada, onde todos percebem a sua função.
O colombiano, outrora patinho feio e criticado pelo preço que custou, hoje em dia é aplaudido pelo exigente tribunal da Luz, a cada recuperação que faz, a cada duelo que ganha, aumentando exponencialmente as ações corretas por encontro. Richard Ríos não é um homem de golo ou assistências (e fez um tento e deu um passe para golo frente ao Moreirense), mas é um jogador equilibrado, que ganha confiança quando o resto dos elementos que compõem a linha são de qualidade. O atleta estabilizou, procurou que o Moreirense não conseguisse ter espaço no corredor central e com bola foi em busca da progressão, procurando o associativismo com os restantes colegas.


Já Fredrik Aursnes voltou a ser Fredrik Aursnes. O norueguês não faz nada de errado e consegue participar em todas as missões que lhe são incumbidas. Aparece na primeira fase de construção ao lado dos centrais para vir buscar bola, tem uma visão de jogo brutal que lhe permite ver um passo à frente (por várias vezes colocou a bola no corredor direito para que Dodi Lukebakio tentasse dar velocidade à jogada já mais próximo da baliza), transporta bem a bola e consegue aparecer com perigo em zona de finalização. Contra os minhotos, o escandinavo em certas partes da partida, quando Rafa Silva se deslocava para as zonas interiores, era Fredrik Aursnes quem assumia o corredor, o papel de extremo esquerdo, numa partida em que Samuel Dahl esteve bem mais tímido no capítulo ofensivo até à entrada de Andreas Schjelderup.
Leandro Barreiro é a última peça do puzzle. Com Bruno Lage aparecia na base da jogada. Com José Mourinho, transformou-se num médio ofensivo que faz tremer o futebol português. No 4x4x2 à hora de pressionar, o luxemburguês junta-se a Vangelis Pavlidis e consegue criar o erro no oponente. Mais atrás, ainda no momento sem bola, consegue estar ao nível de Richard Ríos no que se trata de duelo. Com a bola, é um trabalhador autêntico. Não tendo a qualidade de Fredrik Aursnes, é extremamente forte em ações de um só toque e a jogar de costas para a baliza, identificando as entradas dos extremos em zonas mais interiores. Contra o Moreirense, marcou um golo que muitos referem que foi feito com ‘sorte’. Contudo, se Leandro Barreiro não estivesse a jogar como médio ofensivo, dificilmente estaria naquela zona de área naquele momento. O atleta detém essa capacidade de bom posicionamento, que falta a alguns.


José Mourinho percebeu que o seu meio campo terá que ser Ríos – Aursnes – Barreiro e também entendeu há muito tempo que Gianluca Prestianni e Andreas Schjelderup são os extremos que encaixam melhor no sistema que quer aplicar. O jogo de sábado serviu para dar minutagem a Dodi Lukebakio, que realizou uma primeira parte convincente, mas um segundo tempo onde deixou a desejar, com o seu comportamento na saída a colocá-lo com um pé fora do Estádio da Luz, apesar de ser um atleta capaz de fazer a diferença pela direita, principalmente se recebe a bola numa zona próxima à linha. Gianluca Prestianni atua mais pelo interior e ‘casa’ melhor com Amar Dedic e Daniel Banjaqui. Pela esquerda, o treinador optou por Rafa Silva, que deu o Dérbi aos encarnados. Remetê-lo para o banco poderia causar danos no ego do internacional português, que não é o jogador mais consistente do mundo.
Contudo, há algo que José Mourinho ainda não quer aceitar, mas que a partida ante o Moreirense o pode ter ‘acordado’. O técnico natural de Setúbal defende por várias vezes os seus jogadores. Um dos atletas mais elogiado pelo treinador é Vangelis Pavlidis, garantindo que o grego é muito mais do que golos. Mourinho tem razão: há avançados que contribuem muito mais do que com golos, têm ações decisivas que vão mais além do que colocar a bola dentro da baliza. O problema é que Vangelis Pavlidis não tem sido esse tipo de jogador. O ponta de lança fez a diferença na primeira metade da época, mas a partir de janeiro quase que se eclipsou. Pressiona de uma forma débil, falha oportunidades quase inacreditáveis, consegue destruir jogadas que até ao último momento foram bem concretizadas.


Neste momento, Vangelis Pavlidis é um jogador a menos quando entra em campo pelo Benfica e precisa de passar alguns jogos no banco com urgência. Franjo Ivanovic atravessa o momento oposto. É agressivo, cria dificuldades ao oponente na primeira fase de construção, faz a diferença de igual modo na hora de fazer golo. Contra o Moreirense foram dois. O primeiro, numa boa combinação com Richard Ríos. O segundo, uma resposta à 9 a um passe de Amar Dedic. O croata não é o ponta de lança com as caraterísticas ideais para o sistema de José Mourinho, mas pode adaptar-se ao mesmo, tal como o treinador pode realizar algumas alterações para melhorar este ‘casamento’. As bancadas da Luz exigem Franjo Ivanovic a titular e o mesmo merece mais oportunidades nesta reta final do campeonato.
O Benfica encontrou a pólvora no final do campeonato, numa fase em que já não tem nada para vencer nem para perder. Os encarnados partem para 2026/27 com o sistema a usar bem definido e com alguns jogadores sacrificados (Enzo Barrenechea à cabeça). Faltam três jogos para terminar 2025/26 para as águias. Veremos o que José Mourinho nos terá ainda mais para oferecer.


Bola na Rede na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Hoje optou por um lado esquerdo diferente do que tem utilizado com maior frequência. Pergunto o que muda na dinâmica de corredor e na ação do Dahl com a presença do Rafa Silva ou da do Andreas Schjelderup?
José Mourinho: É fácil. O Rafa joga mais por dentro e o Dahl tem que jogar mais por fora. O Schjelderup tem que receber bola e arrancar, o que faz com que o Dahl tenha que jogar mais por dentro e apresenta linhas de passe interiores. É muito fácil. Da mesma maneira que o Lukebakio prefere jogar perto e receber bola aberto e o Bah jogou mais por dentro. Com a entrada dos outros dois a situação tende a inverter, com o Prestianni a jogar mais por dentro. É simples, uma ocupação racional do espaço e nada mais do que isso.
Bola na Rede: O Benfica mostrou mais acerto na pressão da primeira fase de construção do Moreirense depois das entradas de Prestianni e Schjelderup. Pergunto-lhe como procurou que a equipa superasse esta dificuldade, de modo a conseguir chegar com a bola novamente à baliza do adversário?
Vasco Botelho da Costa: Nós temos a nossa primeira fase muito bem trabalhada. Sabíamos muito bem o que o Benfica ia fazer, o Benfica inicialmente dá o 6, depois se começarem a entrar muitas bolas no 6 eles são muito rápidos a encurtar com os médios. Mas nós sabíamos também que eles por acaso se começassem a pegar pelo nosso 6 íamos conseguir ter bola, pela vantagem que tínhamos no corredor central. O facto do Benfica partir de um bloco e não pressionar a partir do momento em que a bola entre em jogo permitia que o Alan se deslocasse para o espaço vazio. De repente, os médios do Benfica olhavam à volta e queriam pegar alguém e havia quatro para dois. Eu acho que acabámos por ter muitas situações dessas, salvo erro nos primeiros 60 minutos. Depois, são as diferenças, o Benfica vai ao banco e acrescenta jogadores com muita qualidade, fresquinhos para pressionar. Estávamos mais fatigados, tomar decisões sob cansaço não é o mesmo que tomar decisão quando estamos frescos e baixámos um pouco a qualidade, algo natural. Depois sentimos que não estávamos a ter a mesma capacidade para ligar o jogo e instalarmo-nos à frente e optámos por colocar dois avançados, para tornar o jogo mais direto. A linha defensiva do Benfica já estava um pouco desgastada. A forma como marcámos o golo sabíamos que havia um pouco de desconfiança. Sentimos que podíamos tirar proveito disso, mas numa situação um pouco excecional. Não é costume jogarmos assim. Um pouco aventura do treinador, é uma situação de último recurso que não foi muito bem treinada. A ideia era essa.

