O Sporting é, por estes dias, um dos principais argumentos para quem defende que o lugar da televisão não é em canal aberto nem em canais generalistas. “Então, para quê, quando logo a seguir também dá a novela?”, dirão os defensores desta teoria. Os últimos jogos leoninos têm comprovado esta teoria. A época do Sporting é uma espécie de telenovela em construção, começada no final da época passada, com uma sucessão de temporadas capaz de modelar a personagem principal, de David a Golias. O empate contra o Arouca é o retrato perfeito.
Se o retrato da última temporada do Sporting for cortado na forma como os leões foram eliminados pelo Arsenal, de forma quase cruel e apenas nos quartos de final da Champions League, os leões são capazes de cumprir quase todas as especificidades de uma telenovela. São os protagonistas que, com mais ou menos dureza, conseguem ultrapassar as dificuldades na prova milionária e, dentro de portas, vão cumprindo e desafiando o FC Porto pelo título. A forma como a luta pela Primeira Liga foi completamente desvirtuada após tropeços contra AVS SAD e Tondela – ambos despromovidos – e a derrota na final da Taça de Portugal, mudaram o estatuto do protagonista.
É comum que, num filme, série ou novela, não se procure o anti-herói. É mais interessante seguir a história do pequeno que se tornou grande do que do grande que deixou de o ser ou que, pelo menos, foi atormentado por dúvidas existenciais. No futebol português, é diferente. Por mais interessante que seja a história do pequeno que se agigantou, os grandes holofotes estarão, quase sempre, a incidir no grande. Até por isso, o Sporting continuou a ser protagonista da sua própria telenovela. Agora, com contornos diferentes.


O mercado de verão abriu um casting para encontrar novos atores para a temporada renovada. Chegou muita gente, saiu outra tanta e trocaram-se perfis numa reformulação clara e óbvia. A falta de fome e o fechar de ciclos assim impôs, mas a mudança a esta escala traria sempre, no imediato, mais dificuldades que sucessos. O Sporting continua no melhor ciclo de resultados recentemente, se pensarmos nos últimos anos do clube, mas abriu espaço a um novo ano zero. Ao contrário do que se sucedeu há uns anos, quando ganhar se tornou uma novidade, agora a paciência e a compreensão é menor. E, seja dito, ainda bem que assim é. Quando ganhar se torna normal, a exigência aumenta. Mas também abre menos espaços a mudanças estruturais e a erros que possam acontecer.
É nestas mudanças, implementadas por Rui Borges e estrutura, que o Sporting tenta construir uma equipa capaz de continuar a lutar por títulos. À sétima jornada, não está nada definido. Os seis pontos perdidos, em jogos com contextos diferentes, mas pontos em comum claro, nem chegam para que os leões deixem de depender apenas de si para ser campeões. Ainda assim, abrem espaço à reflexão e ao questionamento. Rui Borges, certamente, abraçou estes dois universos. Até por isso, tentou algo diferente em Alvalade, diante do Arouca.
Ainda não se tinha visto o Sporting num 4-3-3 tão claro. As especificidades de Francisco Trincão levavam, naturalmente, o técnico a procurar enquadrar o seu jogador mais criativo por dentro, com liberdade para pisar terrenos e perto da área para procurar a sua definição. Sem um elemento tão diferenciado em espaços curtos e sem a mesma criatividade a jogar dentro do bloco – Flávio Gonçalves, por exemplo, tal como Pedro Gonçalves tem outra facilidade, nesta fase da carreira, a jogar de fora para dentro – impunha-se uma mudança. Até porque Rodrigo Zalazar é um jogador de perfil completamente diferente.


O 4-3-3 não faz magia, mas permite, pelo menos, que os jogadores do Sporting se sintam mais confortáveis. Há espaço para pensar em novas dinâmicas, particularmente no corredor esquerdo, onde Flávio Gonçalves e Maxi Araújo podem continuar a permutar posições, escapando a alguma da rigidez posicional que Nestory Irankunda, para partir sempre aberto, assim o obrigou, mas também para reaproximar Rodrigo Zalazar e Geny Catamo, que já é mais do que um extremo para partir aberto, em campo. Mas, principalmente, no meio-campo, há espaço para projetar crescimento.
Issa Doumbia é um dos casos mais delicados do Sporting. O jogador tem qualidade, é claro, mas está muito longe de ser um substituto direto de Hidemasa Morita. Os terrenos e movimentos até podem ser, em certos momentos, relativamente semelhantes, mas o impacto na saída de bola é diferente a todos os níveis. Como médio interior, Issa Doumbia ganha outra abrangência nas ações, ficando liberto de tanto protagonismo na saída de bola e podendo carregar a área e transportar a bola. Há potencial nesta tentativa.
De resto, esta simples mudança, permitiu, por vias já conhecidas, ao Sporting superiorizar-se em toda a linha ao Arouca. Com um 6 mais posicional chamado Sergi Altimira – já se pode usar o cognome de melhor reforço do mercado dos leões? – e dois centrais com capacidade de passe, os leões conseguiram sempre ludibriar a pressão do Arouca, que defendia em 4-4-2 e procurava, com os dois avançados, controlar os três elementos mais fortes do Sporting na saída de bola. Ficando com os laterais mais baixos, os leões obrigavam os extremos arouquenses a não desarmar, os extremos bem abertos fixavam os laterais arouquenses e abriu-se espaço por dentro. Sergi Altimira desfilou, encontrando espaços livres e pensando os ataques, e sempre que houve dúvidas no salto de pressão do Arouca, o Sporting encontrou o homem livre.


Sempre que o 3×2 permitia a alguém ver o jogo de frente, o dominó caia e alguém aparecia livre ou, noutro cenário, Gonçalo Inácio metia a bola no espaço. O capitão leonino, tal como Altimira, fartou-se de descobrir passes por dentro. Quando o Arouca saltava para pressionar o espanhol, tendencialmente com Van Ee, Issa Doumbia ficava livre e podia carregar jogo. Em 20 minutos, o Sporting, aparentemente, resolveu o jogo. O Arouca lá viria a ajustar a pressão, apostando num HxH a campo inteiro com Van Ee a saltar sempre em Altimira e um dos centrais a saltar mais longe para pegar em Issa Doumbia. Mas, em condições normais, o estrago estava feito.
Ao intervalo, além do consertar da pressão, saltou do banco Gabriel Rukavina. Entrou com energia e disponibilidade – a passagem de Nais Djouahra para dentro também foi benéfica – mas o grande momento do croata, que deixou boas indicações, foi quando foi vítima da irresponsabilidade de Zeno Debast. Ao Sporting há questionamentos coletivos e reflexões a imputar (como a todas as equipas, na verdade), mas não é possível ignorar a capacidade de auto-sabotagem para justificar as perdas de pontos. Todas, em cenários favoráveis. Contra Estrela da Amadora e Arouca, havia dois golos de vantagem. Contra o Famalicão, era apenas um golo de diferença, mas o Sporting jogava com mais um. Desta vez, foi o central belga que, num lance desprovido de qualquer senso, procurou jogar uma bola inexistente. E o jogo mudou.
Eduardo Quaresma entrou fora do jogo e, em inferioridade numérica, o Sporting mudou o perfil. Tirou Nestory Irankunda – provavelmente a maior ameaça para explorar espaços – e meteu Geny Catamo a fechar um 5-3-1, na tentativa de ganhar outra contundência na área. O Arouca, retratado na figura de Vasco Seabra, foi inteligente a gerir a vantagem. Montou o cerco à baliza leonina, meteu Taichi Fukui a gerir ritmos e timings e foi acrescentando criatividade e desequilíbrio e, ao mesmo tempo, preenchendo a área. A coerência e estrutura no pensamento arouquense permitiu o cerco. Há muito mérito no empate que o Arouca conseguiu resgatar. Mas há, também, dois deméritos na forma como o Sporting o entregou.


O primeiro passa pela permeabilidade leonina na defesa dos cruzamentos. Saiu Ousmane Diomande e chegou Ibrahima Ba para a sucessão, mas o central continua sem recuperar fisicamente e, nestes contextos, o Sporting deixou de ter um homem de área, capaz de ganhar duelos no ar e de aliviar a zona. Nenhum dos outros três centrais consegue o mesmo domínio pelo ar e, entre abordagens desajustadas e posicionamentos errados, é comum aos adversários encontrar espaços para aparecer na área. Rui Silva ainda defendeu uma bola de perigo, mas o 2-2 é elucidativo.
Depois, a forma como Rui Borges mexeu na equipa, também abriu caminho ao Sporting para se fechar lá atrás. Noutra equipa com outra fisicalidade e contundência, não seria problemático. Agora, com tamanha fragilidade na defesa da área, a estratégia de baixar linhas em demasia, permitindo ao adversário montar o cerco, deixa outras dúvidas. Obviamente, Rui Borges não é culpado único. Os próprios jogadores dentro de campo têm, certamente, a tendência quase natural de, em inferioridade numérica, abdicar de metros. Ainda assim, as substituições não responderam às necessidades da equipa. Ao privilegiar jogadores de transporte e condução (Eduardo Quaresma, Silas Andersen), o Sporting assumiu que construiria as jogadas no pé e não no espaço. Com o adversário a jogar em meio-campo – e não sendo reconhecido como uma fortaleza defensiva, faltou outra ameaça no espaço. De resto, as últimas substituições, já com a vantagem encurtada, chegaram tarde. O Sporting precisava de Fotis Ioannidis para batalhar com os centrais, ganhar bolas e permitir um jogo direto e precisava de gerir a bola, como Pedro Lima se apresenta com o perfil mais indicado (também aí se pode olhar ao mercado). Entraram já numa espiral negativa e sem tempo e capacidade para mudar o que quer que fosse.
Entre a esperança de um passo dado no crescimento tático da equipa e uma nova derrocada e perda de pontos, bastou uma nova sabotagem. A temporada do Sporting é uma telenovela em construção. Só não há, ainda, cenas do próximo episódio, até porque este vai demorar quase 20 dias a chegar. A paragem para as seleções pode permitir afastar alguma da névoa, mas também afasta ainda mais no tempo o regresso às vitórias. O futuro de Rui Borges não é certo, mas ainda há uns meses Frederico Varandas deu ao treinador um voto de confiança e, presumivelmente, um peso importante na construção da equipa (assumir outra coisa torna o cenário pior). A margem de erro vai reduzindo. Para onde irá o Sporting? Primeiro os anúncios e as televendas.


BnR na Conferência de Imprensa
Bola na Rede: Já destacou a mudança do Arouca na capacidade de pressionar e de condicionar o 6 do Sporting. No início houve algumas dificuldades, com a bola a entrar no 3×2. Qual acha que foi a grande diferença na pressão, na marcação para o Arouca começar a recuperar mais bolas e, em vantagem numérica, como procurou manter a equipa organizada e com pensamento e estrutura para fazer face ao cerco que acabou por montar à baliza do Sporting?
Vasco Seabra: O primeiro momento tem a ver também com a nossa preparação do jogo. Esperávamos um Sporting diferente, não vou escondê-lo. Esperávamos o Fresneda a construir mais baixo com os dois centrais e o Maxi [Araújo] mais projetado. Isso iria fazer com que a nossa pressão batesse direta, com o Nais [Djouahra], o Mateo [Flores] e o [Iván] Barbero e que o [Alfonso] Trezza acompanhasse mais a projeção do Maxi. Logo quando percebermos o 11, com a entrada do [Nestory] Irankunda, imaginámos que poderia, eventualmente, o Rui Borges querer fazer um 4-3-3. Não quis estar logo nesse momento, porque era uma antecipação, estar a dizer isso aos jogadores. A verdade é que nós demorámos 5/10 minutos até entendermos que o Sporting estava, efetivamente, num 4-3-3 e que nos obrigava a ter o Trezza mais alto para pressionar o Maxi mais forte, e para que os nossos médios se tivessem de expor, tinham de sair dos dois interiores, seja o [Rodrigo] Zalazar ou o [Issa] Doumbia. Tanto o [Taichi] Fukui como o Espen [Van Ee] tinham que largar para podermos trancar a pressão do Sporting mais à frente. Demorou um bocadinho até conseguirmos passar essa informação aos jogadores. Quando conseguimos passar e eles conseguiram entender, creio que a nossa pressão começou a ser mais efetiva. Ao intervalo, naturalmente, ao conseguir mostrar as imagens ficou ainda mais concreto que, por vezes, íamos ficar mano a mano atrás, com o nosso central a ter de sair da linha para bater no interior contrário, mas era um risco que tínhamos de correr. Depois, em relação à construção na segunda parte, procurámos com a entrada do [Gabriel] Ruka[vina] passar o Nais mais para zonas interiores de 10 e, conseguirmos projetar ainda mais o [Orest] Lebedenko e criar uma rede maior. Quando foi a expulsão, tentámos ainda mais criar um 3+1, eventualmente 2+1 em muitos momentos com a projeção dos dois laterais, mais por dentro porque queríamos ter pés contrários à largura. Por isso é que demos a entrada ao Brian [Mansilla] para conseguirmos forçar a projeção da equipa e estarmos preparados para a reação à perda.
Bola na Rede: Acredito que, com o desfecho, seja difícil olhar para o que aconteceu antes da expulsão, principalmente, mas o próprio treinador do Arouca admitiu que a equipa acabou por ser surpreendida pelo 4-3-3 do Sporting. O que o levou a implementar esta ligeira alteração no posicionamento base das peças e pergunto-lhe se foi uma estratégia planeada apenas para este jogo ou se vê possibilidade de continuidade e adaptação dos jogadores a estas funções neste 4-3-3?
Rui Borges: Não se trata de grandes adaptações, trata-se sim de uma ou outra dinâmica, não fugindo aquilo que nós somos. Jogadores diferentes e características diferentes. Tentámos ter dois homens de corredor, fortes no 1×1 e verticais com o Geny [Catamo] e o Nes [tory Irankunda]. Tentámos prender os dois médios do Arouca com os nosso dois médios ofensivos, os nossos dois médios interiores. Conseguimos bloquear a pressão deles com um 3×2, um 4×2 com o Rui [Silva] num primeiro momento e depois conseguir encaixar num espaço mais para a frente, com mais calma. Na primeira parte podíamos ter tido aqui ou ali um bocadinho mais de calma quando chegávamos a zonas de último terço. Queríamos acelerar a toda a hora, víamos um colega livre e tentávamos sempre forçar um passe quando não tínhamos essa necessidade. A equipa interpretou muito bem o que tínhamos planeado para o jogo. Uma primeira parte muito boa, um início de segunda parte fantástico. Muito bom mesmo, uma equipa muito dinâmica, muito ligada e a conseguir criar situações de finalização na baliza do Arouca. Depois, a expulsão mudou tudo.

