O Brasil abdicou da bola e foi eliminado; a Inglaterra abdicou da bola e fez história – Diário do Mundial 2026 #25

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A inversão sistémica que Haaland abraçou | Brasil 1-2 Noruega

Erling Haaland Noruega Jogadores
Fonte: Federação Norueguesa de Futebol

Se alguém trocasse as duas camisolas, muitos pensariam que, exceção feita à altura e à predominância de cabelos loiros, o Brasil jogaria de amarelo e a Noruega de vermelho. Mantendo as camisolas na tonalidade certa, o Brasil equipou de amarelo, mas jogou como muitos esperavam que a Noruega jogasse e a Noruega, vestida de vermelho, jogou como o Brasil outrora já jogou. Também por aí se explicam crescimentos e momentos de crise.

O Brasil nunca tinha passado tanto tempo sem vencer um Mundial. A luta pelo hexa faz-se desde 2006, há 20 anos e seis edições. Desde então, sempre que a canarinha apanhou um adversário europeu, foi eliminada. Há raízes disseminadas e sintomas identificados, mas a sensação de constante frustração mantém-se. O 7-1 diante da Alemanha continua a ser uma marca dolorosa, mas a sequência de eliminações com Bélgica, Croácia e Noruega é um distintivo mais pesado. O peso histórico da camisola amarela vai-se perdendo. O que não é uma desvalorização, pelo contrário, das gerações belga, croata e norueguesa.

Com Carlo Ancelotti, o Brasil esteve sempre mais confortável na versão que explora espaços e privilegia transições do que na versão que prolonga posses e encontra espaços. Entre o explorar e o criar, a canarinha, que não tem uma essência bem definida neste período, transformou-se numa versão diferente. Já contra Marrocos, por exemplo, se tinham denotado problemas na capacidade de ter a bola. Ao longo do Mundial, os destaques brasileiros foram precisamente Bruno Guimarães, lançador por excelência, e Vinícius Júnior, a acelerar e atacar espaços em transição.

Orjan Nyland Noruega
Fonte: Federação Norueguesa de Futebol

Diante da Noruega, nem se pode falar de uma exibição inferior. Antes dos golos sofridos, Bruno Guimarães falhou um penálti e Endrick foi isolado sem concretizar. Notou-se que o Brasil tentou ao máximo impedir que Erling Haaland atacasse espaços nas costas dos defesas, mas para isso, entregou a bola à formação europeia e abdicou de correr riscos na pressão, precisamente uma das maiores armas para recuperar bolas e chegar à baliza adversária. Nesta estratégia, falhou nas duas áreas e viu a derrota chegar. Ao contrário do que aconteceu com o Japão, do banco chegou o caos em vez da ordem e tudo ficou mais complicado a cada mexida de Carlo Ancelotti.

Nada disto apaga o mérito da Noruega que chega aos quartos de final com méritos próprios. Era evidente que os noruegueses fariam um bom Mundial, mas já passaram qualquer expectativa de melhor ordem. Houve, novamente, Erling Haaland, cada vez mais uma consensualidade. Alia o carisma com a personalidade e capacidade para decidir. Na seleção, joga por todo o lado e tem influência redobrada. Voltou a deixar Gabriel Magalhães nas covas e, com um remate de fora da área, decidiu o resultado. Tem à sua volta um ecossistema de alto nível. Andreas Schjelderup entrou para melhorar a Noruega, Martin Odegaard toca na bola em todas as alturas e Patrick Berg ganha protagonismo como médio de chegada e qualidade técnica. Até o desajeitado Alexander Sorloth, saído ao intervalo, foi fundamental no duelo com Douglas Santos.

Nada seria possível não fosse a exibição de resistência defensiva, num cenário delicado. É muito mais fácil aos defesas noruegueses defender a área, pela superioridade física e imposição nos duelos, que cobrir vários metros atrás. Quando tudo falhou, apareceu Orjan Nyland. Defendeu um penálti, reduziu todo o ângulo a Endrick e, para lá do papel nas duas grandes oportunidades canarinhas, fartou-se de defender. Impressionante a quantidade e, principalmente, a qualidade face à exigência de momentos positivos do guarda-redes suplente do Sevilha. São coisas de Mundial. 

Uma exibição de candidata num jogo louco | México 2-3 Inglaterra

Inglaterra Jogadores
Fonte: Federação Inglesa de Futebol

Não sendo certo que, mediante certos contextos ou adaptações estratégicas, tal não possa vir a acontecer, a Inglaterra dificilmente voltará a jogar contra um bloco baixo. Também não foi isso que aconteceu diante do México, embora há umas semanas fosse o cenário mais provável. Mas, precisamente por não ter sido esse cenário, a seleção inglesa conseguiu marcar três golos num jogo de muita dificuldade de imposição no meio-campo ofensivo. Também não é esse o principal objetivo de Thomas Tuchel e companhia. 

Foi um jogo louco e de loucos pelo roteiro, mas a primeira parte é demonstrativa de como a Inglaterra pode ameaçar qualquer adversário. Estava a ser dominada pelo México quando vislumbrou espaço, primeiro vindo muito rápido desde trás, com Declan Rice a fazer o campo todo numa questão de segundos, e depois aproveitando o nervosismo de Gilberto Mora, ainda meio atabalhoado com o golo sofrido, para recuperar e, em menos de nada, estar na baliza adversária. 

Em ambos os golos, eis Jude Bellingham na sua melhor versão. Por muito que, em certos contextos, seja interessante tê-lo também em zonas de criação, é perto da baliza adversária, aproveitando os espaços criados para encontrar zonas de ninguém na área e antecipando cruzamentos que mais consegue oferecer. Desta vez, nem foi preciso Harry Kane na sua versão lançadora para a bola chegar lá. O México passou de ameaçar e cheirar o golo para estar a perder por 2-0. Em menos de nada, o Azteca foi Iluminado.

Harry Kane Jude Bellingham Inglaterra
Fonte: Federação Inglesa de Futebol

Já antes, a tendência do jogo passava pela predominância defensiva da seleção inglesa, e assim continuou. Excetuando as falhas de Ezri Konsa, que entregou um golo e esteve perto de estar mal noutro lance, ainda no primeiro tempo, foi uma exibição sólida dos ingleses que, na segunda parte, viriam a ter, entre guarda-redes e defesas centrais, metade dos jogadores em campo. Quando tudo se complicou, apareceu Jordan Pickford. Por mais que não seja um guarda-redes de regularidade, tem todos os argumentos para torneios curtos.

De resto, a segunda parte reforça a candidatura inglesa ao título. O cenário era de dificuldade, num Azteca lotado de mexicanos, com os minutos a reforçarem os metros acima da linha do mar e jogando diante da história que dizia que nunca o México tinha perdido um jogo naquele palco, muito menos contra um Europeu. A expulsão de Jarell Quansah seria definidora não fosse, no minuto seguinte, Anthony Gordon acelerar até mais não e conquistar um penálti. Harry Kane levou o jogo para a organização defensiva e, sem bola, Inglaterra foi feliz.

Ao México, faltou gestão emocional. Aos dois momentos mais importantes do jogo – o primeiro golo e a expulsão do inglês – respondeu com golos sofridos. Imperdoável neste contexto. Ainda assim, o Mundial 2026 foi muito mais interessante do que se poderia perspetivar há uns meses. Não só o México competiu como provou que está bem longe de ser apenas uma equipa pragmática. Há mérito para Javier Aguirre, pela forma como foi respondendo ao longo do torneio – a dinâmica mudou à direita, Luis Romo cresceu por dentro – mas também de alguns jogadores na forma como se impuseram. Raúl Jiménez continua por aí, agora rodeado de Julián Quiñones, Roberto Alvarado ou Erik Lira. 

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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