O melhor dedo de treinador, o maior escândalo, o melhor jogo – Diário do Mundial 2026 #19

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Don Carlo | Brasil 2-1 Japão

Carlo Ancelotti Brasil
Fonte: CBF

Ao intervalo, Carlo Ancelotti olhou para os seus jogadores no balneário e mudou-lhes a alma. Partindo da tática, com ajustes específicos, mas dando ao Brasil uma cara lavada e pronta para lidar de outra forma com o jogo duro que o Japão estava a fazer. Seria sempre um jogo difícil, mas o roteiro intensificou a dificuldade, como a pimenta torna qualquer receita mais elaborada. O Brasil não foi perfeito, mas mostrou que sabe reagir à adversidade. E a tranquilidade do selecionador no banco, de sobrancelha erguida e aparente calma, é um porto seguro para uma Canarinha que urgia por estabilidade.

O golo do Japão, logo depois de uma paragem para a hidratação que, como tem sido norma, inverteu a tendência dos protagonistas, ajudou a definir o rumo do jogo, mais do que o resultado. As lesões tiveram impacto, impedindo os nipónicos de ser ainda mais perigosos, mas não há propriamente grande surpresa quanto ao que Hajime Moriyasu tentou fazer na seleção japonesa. O 5-4-1 é imagem de marca e o bloco compacto um dos traços distintivos de um Japão que já não entretém como entretia, mas que compete como nunca competiu.

A discussão sobre a rigidez da estratégia adotada é válida até porque os nipónicos não são a seleção mais competente na defesa da área, mas foi a partir desta capacidade de endurecer o registo, levar o jogo para o campo das linhas juntas e do bloco compacto que o Japão cresceu. Continua a ser uma seleção que abre sorrisos com bola, pela capacidade técnica e associativa inerte aos jogadores, pelo colar do esférico aos pés, pelo futebol rápido, mas não tão rápido para se ver a correr, mas ainda assim rápido o suficiente para chegar perto da baliza. Mas é também uma seleção capaz de se fechar, compactar e frustrar adversários. Esteve perto de levar o jogo para o prolongamento, mas o que funcionou até ao intervalo, deixou de funcionar tão bem depois. 

Casemiro Neymar Brasil Jogadores
Fonte: CBF

Até então, não se tinha visto Matheus Cunha nem Vinícius Júnior, por dentro da teia dos nipónicos, nem Rayan, mais aberto, mas sem capacidade para partir para cima. Danilo ainda tentou dar uma ajudinha, esticando ao máximo os nipónicos em campo, mas o privilégio à defesa do corredor central pouco permitiu. Bruno Guimarães e Lucas Paquetá nunca foram capazes de assumir o jogo e só pela pressão, num ou noutro lance, chegou ao perigo.

A entrada de Endrick para o lugar de Lucas Paquetá mudou a forma como o Brasil encarou o jogo. O mais desejado dos adeptos depois de Neymar nem teve influência direta no resultado, mas a sua presença na área mudou a forma como o jogo foi encarado. Vinícius Júnior deixou de jogar por dentro e passou a partir de posições mais abertas, com embalo para arrancar. Num destes lances, ia marcando o melhor golo do Mundial. Também Rayan, no outro corredor, ganhou altivez para chamar a si o protagonismo e desejar o desequilíbrio.

Com dois homens na área, acentuaram-se os cruzamentos. Ao bocado mais valioso do terreno, também Bruno Guimarães e Casemiro começaram a chegar. O Brasil foi afundando e afundando o Japão a um ponto em que Gabriel Magalhães começou a assumir o cruzamento. Assim descobriu o médio mais veterano, que tinha sido dos menos influentes, para marcar o golo do empate. Até ao fim, entrou Gabriel Martinelli, não para jogar por fora como extremo de produto final, mas para funcionar como mais um elemento de infiltração por dentro. Recebeu um passe de Bruno Guimarães – que Mundial está a fazer o médio canarinho – e impediu um prolongamento. Esta, nem Zion Suzuki, um ótimo projeto de treinador, conseguiu pegar. Carlo Ancelotti nem pestanejou, mas a vitória também cai na conta do treinador. 

Surpresa! | Alemanha 1-1 (3-4 g.p) Paraguai

Gustavo Gómez Miguel Almirón Paraguai Jogadores
Fonte: Federação Paraguaia de Futebol

Quando os alemães receberam a notícia de que seria o Paraguai o adversário nos 16 avos de final do Mundial 2026, muitos terão sorrido de forma leve, lembrando a goleada que os EUA impuseram aos sul-americanos na primeira jornada e tentando lembrar-se da última vez que os paraguaios haviam jogado o Mundial. Tinha sido em 2010, quatro anos antes da vitória alemã no Brasil. Desde esse jogo histórico em terras sul-americanas, só uma seleção venceu um jogo numa fase a eliminar do Mundial. Foi o Paraguai. Supresa! 

Os paraguaios não podiam ser um presente mais envenenado para uma Alemanha moribunda, a viver de um estatuto que, não fosse uma goleada sobre os humildes, mas modestos de Curaçau, e um jogo diante de uma inferior Costa do Marfim, seria ainda menor. Eram muitas as dúvidas sobre o estado da Alemanha, que em 2018 e 2022 caiu na fase de grupos e desta vez, até passou, mas só conseguiu enganar a barriga. A Alemanha entrou num restaurante chique à espera de um banquete e recebeu um daqueles pratos tão elaborados como carentes de nutrientes e saiu esfomeada. A barriga cheia de golos transformou-se na barriga de mais um vexame. Supresa, claro.

Os sinais eram claros. Depois de um bom Europeu, em 2024, tudo correu mal aos alemães. Julian Naggelsman atingiu um ponto sem retorno na seleção. Que é um excelente treinador não há dúvidas, que é um selecionador questionável ainda menos há. Entre as convicções fortes e a total ausência de noção há uma linha ténue que o treinador pisou para lá e para cá. Esperava-se uma fluidez entre Wirtz e Musiala e, desta vez, o último nem foi titular e o primeiro andou minutos infinitos encostado à linha. Mal ganhou liberdade, assistiu. Manuel Neuer teve uma convocatória forçada e andou a jogar como um fantasma do passado. Leroy Sané, titular indiscutível e convicto à direita, nem fantasma conseguiu ser. Joshua Kimmich sofreu com tudo o que eram avançados de drible e irreverência. Por alguma razão Julio Enciso terá jogado mais sobre a esquerda. Depois de denegrir o avançado publicamente, Naggelsman lá deu um prémio a Deniz Undav, com a convicção com que um dia um youtuber decidiu tentar mastigar uma barra de ferro. Ao intervalo, Leon Goretzka entrou para a Alemanha ter presença na área. Saiu Aleksandar Pavlovic, que pouco acrescentou no jogo e no torneio? Não, saiu Felix Nmecha, talvez o melhor dos alemães nas Américas. Surpresa!

Julio Enciso Miguel Almirón Paraguai Jogadores
Fonte: Federação Paraguaia de Futebol

Num tom mais sóbrio, até porque os alemães são ditos como de humor complicado, a surpresa está do outro lado. Que a Alemanha está num estado de total caos – e não é de hoje – já todos estão cientes. Cada vez mais alinharem 11 contra 11 é menos sinal de triunfo da Alemanha. Ainda assim, o Paraguai superou-se. Que o jogo ia ser muito chato para os alemães era evidente. Que o Paraguai iria vencer, já não o era. Aí sim. Surpresa!

A goleada sofrida na estreia é que foi surpreendente. Desde aí, o Paraguai não mais se aventurou na pressão, manteve-se fiel ao bloco baixo com que teve sucesso nas eliminatórias e tornou-se numa verdadeira fortaleza defensiva. Em três jogos, um com 120 minutos, outro com menos um durante toda uma parte, sofreu apenas um golo. Impressionante a atuação defensiva diante da Alemanha, fechando linhas, tapando espaços e defendendo a área. Gustavo Gómez é a representação fiel da seleção paraguaia. Tem o perfil físico e facial ideal para atuar como guerreiro num qualquer casting que Hollywood decida fazer. Morde, encosta, não dá espaços, defende o espaço aéreo e não deixa a bola chegar perto da baliza. Exibição imponente do central.

Se Gustavo Gómez se destacou pelo controlo defensivo, Matías Galarza fez um dos jogos mais impressionantes deste Mundial. Impressionante a energia e disponibilidade física para pressionar e ler e interpretar espaços sem deixar de ser uma alternativa para tentar carregar bola e ganhar metros, segundos e faltas. Ainda mais importante depois de Julio Enciso, o mais precioso dos operários paraguaios, se lesionar. Estava numa onda semelhante à da Turquia, capaz de tirar sempre algum sumo da laranja em cada situação. No fim, apareceu Orlando Gill. Não só no fim, que seria heresia, mas principalmente no fim, onde foi destaque. Virou o Neuer do Paraguai, mas a versão de topo do lendário guarda-redes. Impressionante a forma como se agigantou nos penáltis. Ao terceiro match point, o Paraguai fechou as contas. Surpresa!

Futebol Total | Países Baixos 1-1 (2-3 g.p) Marrocos

Micky Van de Ven Achraf Hakimi Marrocos Países Baixos
Fonte: Federação Neerlandesa de Futebol

Os Países Baixos já não são a seleção do Futebol Total de Rinus Michel e Johan Cruyff, mas continuam a protagonizar jogos de Futebol Total. Estilisticamente, até é a seleção marroquina quem mais se aproxima dos ideias de mobilidade, de controlo e de agressividade, mas a expressão tem outro peso, como se 90 minutos (ou mais) compreendessem todas as dimensões do futebol.

No México, Países Baixos e Marrocos disputaram o melhor jogo deste Mundial 2026. Abençoados todos aqueles que deixaram para trás algumas horas de sono para serem presenteados por um espetáculo único. Houve ajustes táticos, superioridades, exibições individuais, erros, emoções à flor da pele, golos nos descontos e penáltis, numa sequência insólita de bolas perfeitas, de remates para fora, de auto-golos, de defesas absurdas. O futebol tem muitas dimensões e não há, propriamente, uma hierarquia. Abraça todos os gostos, todas as preferências, todos os interesses. E este jogo foi um pouco de tudo. 

Bart Verbruggen Soufiane Rahimi Países Baixos Marrocos
Fonte: Federação Neerlandesa de Futebol

Taticamente, se a seleção de Marrocos já não tem segredos, os Países Baixos tentaram controlar o lado direito marroquino. Seria sempre um confronto estilístico e ainda mais se tornou quando Ronald Koeman chamou Nathan Aké para ser o terceiro central sobre a esquerda, precisamente na zona em que Achraf Hakimi se costuma projetar para gerar vantagens. Não é coincidência que, quando Marrocos descobriu maneira de contornar a última linha mais povoada pelos neerlandeses, tenha conseguido acionar o lateral precisamente nestas zonas.

A verdade é que o jogo só não ficou decidido mais cedo porque Bart Verbruggen – muito cruel a forma como fica ligado a um dos golos sofridos no penálti – foi travando tudo o que Virgil Van Dijk (imperial até deixar Issa Diop fugir) não conseguiu limpar. Defensivamente, foi uma exibição de esforço dos defesas neerlandeses. Micky Van de Ven já se candidatou ao corte do Mundial, quando tirou uma bola de perigo iminente a Hakimi. Jan Paul van Hecke jorrou sangue por todos os poros da cabeça e foi numa versão estranha de jogador de paintball que esteve em campo. Tudo poderia ter dado certo tivesse o jogo terminado cinco ou seis minutos mais cedo. A paragem que tem mandado a hidratação para segundo plano deu aos Países Baixos Wout Weghorst (Brian Brobbey, desta feita, foi engolido pelos centrais). Do nada, um lance controlado acabou com Crysencio Summerville a lutar pela bola, mais do que a fazer as suas maravilhas, e com Cody Gakpo na área. É um jogador de torneios pela seleção. O golo teve um dos momentos mais bonitos e emocionantes de todo o Mundial, quando Cody Gakpo homenageou e se emocionou com o filho que nunca chegou a conhecer. Isto do futebol é muito giro, mas, no final do dia, pode significar muito pouco.

Issa Diop Soufiane Rahimi Marrocos
Fonte: Federação Marroquina de Futebol

Marrocos esteve com um pé fora do Mundial 2026. Era uma saída demasiado prematura para o nível exibicional que os Leões do Atlas têm demonstrado. Desafio para todos: encontrem três equipas que mais prendam os olhos que os marroquinos de Mohamed Ouahbi, a melhor coisa que poderia ter acontecido a esta seleção. Os jogadores vão flutuando em campo, entre padrões bem evidentes e uma mobilidade e liberdade que lhes permite mudar de posições e jogar em torno da bola. Tecnicamente há muito poucas seleções com mais recursos. Em profundidade de plantel, também não há muitos países que se possam orgulhar de ter as opções que os Leões do Atlas têm.

Há uma base de 2022 que se mantém, embora com peso reduzido. Yassine Bounou voltou a mostrar que é especialista em penáltis e apareceu no fim. Achraf Hakimi, pela projeção interior sobre a direita, incentivada pela presença de Brahim Díaz com movimentos complementares, dá presença ofensiva e chegada de trás para a frente à equipa. À esquerda, Noussair Mazraoui é mais um construtor, partindo de posições baixas e mais interiores para dar jogo. Acima de todos, Azzedine Ounahi voltou a aparecer. Se em 2022 foi a revelação mais ou menos unânime do Mundial, agora é uma espécie de confirmação silenciosa. Ainda não encontrou um clube que lhe permita replicar a influência e liberdade com que circula em campo pela seleção ou, quiçá, está condenado a ser um personagem de grandes competições. Impressionante a capacidade técnica aliada à interpretação do espaço. Procura os terrenos de ninguém para, aí, receber e organizar o jogo.

Ainda assim, há uma profunda renovação. A forma como Chadi Riad e Issa Diop (que depois foi lá à frente ser herói) lidaram com Brian Brobbey e retiraram o avançado do jogo é assinalável. Se Ayyoubb Bouaddi, felizmente, já tem sobre si os microfones, os holofotes e os contratos milionários, Neil El Aynaoui tem passado algo despercebido. Não tem uma presença física tão impactante e, por isso, é normal que não tenha tantos lances exuberantes, mas a capacidade de se defender e de construir a partir dos posicionamentos e da simplicidade é evidente. Se Brahim Díaz se tem assumido como um lançador de excelência, Ismael Saibari é um recetor perfeito. Chegou ao Mundial 2026 cotado para funcionar como um falso 9 que nunca chegou bem a ser, até porque a lesão de Abde Ezzalzouli retirou a Marrocos o elemento mais agressivo no ataque a espaços. Tal como se associa com os colegas e se dá em apoio, também ataca espaços, se movimenta na área para responder a cruzamentos e cai pelos lados do campo. Um avançado completo para uma equipa completa. É bom saber que Marrocos continuará em prova.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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