Uma das pedras basilares para o sucesso do Sporting nos últimos anos foi a presença de Gonçalo Inácio no centro da defesa. Mesmo quando se tratava de uma jovem promessa da formação dos leões, o atleta sempre foi encarado como um projeto de jogador de primeira equipa, com uma margem de crescimento brutal, podendo inclusivamente ser adaptado/transformado num lateral esquerdo.
Os verde e brancos não são uma máquina de produção de centrais. As grandes promessas do Sporting geralmente jogam mais próximas da linha, como é o caso de Salvador Blopa ou Flávio Gonçalves, recorrendo a exemplos atuais. Contudo, dois dos elementos da posição são formados em Alcochete: Eduardo Quaresma e Gonçalo Inácio. O primeiro, ganhou outra maturidade a muitos quilómetros de Alvalade. O segundo, nunca saiu da casa mãe.
Há jogadores que aproveitam a primeira grande chance melhor que outros. Gonçalo Inácio não facilitou quando Ruben Amorim lhe deu a mão, ainda em 2020/21. Inicialmente, foi colocado à direita na tripla de defesas centrais, o que dava outras possibilidades de construção, sendo que no capítulo defensivo conseguia estar frente a frente com o avançado interior rival, ‘cortando-lhe’ o interior. Porém, com a perda de importância de Zouhair Feddal, o lugar mais à esquerda passou a ser seu.


Gonçalo Inácio dava maturidade à equipa apesar da tenra idade, conseguia sair bem com a bola, tinha qualidade no capítulo do passe. A sua vertente física, possivelmente o seu grande defeito, ficava protegida com a companhia de dois colegas de posição.
Com a troca de Ruben Amorim para Rui Borges, o Sporting também alterou o sistema na passagem do 2024/25 para o 2025/26, apostando firmemente num 4x2x3x1. Assim sendo, Gonçalo Inácio passava a ter apenas um companheiro ao seu lado, além de um lateral ‘viciado’ em atacar como é Maxi Araújo. O internacional português foi cometendo alguns erros, mas a maioria dos encontros realizados levou a que a sua avaliação final tenha sido positiva. Consequência? Um bilhete para o Mundial 2026, embora tenha acabado como suplente utilizado. Renato Veiga, outro produto da formação dos leões, conquistou o lugar de titular pela esquerda, depois de se ter afirmado em pleno no Villarreal.
Entrámos em 2026/27 com a convicção de que o ‘novo Sporting’ seria distinto ao que se tinha apresentado nas épocas anteriores. Frederico Varandas concordou com uma renovação e um corte significativo com as ideias que ainda sobravam da era Ruben Amorim. Rui Borges é o homem do leme e o seu estilo é diferente do do agora timoneiro do AC Milan. Mais velocidade, mais passes longos, mais fisicalidade e verticalidade. Não é necessária uma construção espampanante para chegar aos bons resultados. Assim sendo, os verde e brancos deram luz verde para a saída de referências. Morten Hjulmand, Pedro Gonçalves e Francisco Trincão trocaram de morada e deixaram os leões com menos líderes de balneário.


A grande esperança de Rui Borges e Frederico Varandas era Gonçalo Inácio. O defesa central conhece bem a casa e já tinha envergado a braçadeira em algumas ocasiões. Contudo, ser capitão vai mais além disso.
A diferença entre Morten Hjulmand e Gonçalo Inácio roça o abismal. O dinamarquês era muito mais ativo, tinha mais contacto com os colegas, com o treinador e com o árbitro. Para muitos, os seus comportamentos poderiam ser abusivos. Porém, o comportamento de um líder tem de ser proativo. É o primeiro a dar a cara. Gonçalo Inácio não tem este perfil, é mais ‘correto’, menos excêntrico. O luso está a ser criticado pela sua atitude mais ‘tímida’, mas a sua personalidade já era conhecida bem antes de 2026/27. A alteração do grupo quase completo de capitães não ajudou. O defesa teria mais confiança se fosse auxiliado por Pedro Gonçalves e Francisco Trincão. Somente Maxi Araújo e Eduardo Quaresma parecem ter o perfil procurado.
Gonçalo Inácio ‘acusou’ ser o novo grande líder de um balneário que sofreu várias mudanças, algumas delas desnecessárias no ponto de vista de uma franja de adeptos. O seu posicionamento em campo também não mudou. Continua a ser o defesa central à esquerda. Porém, à sua volta existiram modificações importantes que afetam diretamente as suas prestações. Ao seu lado, deixou de existir Ousmane Diomande, um atleta mais físico, que conseguia dar outra segurança na hora de defender. Os defeitos de Gonçalo Inácio na fase defensiva ficam muito mais expostos quando tem a companhia de Zeno Debast e Eduardo Quaresma. Com Ibrahima Ba, a situação deve ser distinta, uma vez que o senegalês tem um perfil próximo ao de Ousmane Diomande. Porém, a condição física do jogador ainda não permitiu que a dupla trabalhasse em conjunto.


À frente de Gonçalo Inácio formou-se um outro duplo pivot. Hidemasa Morita – Morten Hjulmand não é o mesmo que Issa Doumbia – Sergi Altimira. O italiano é um autêntico corredor, sobe e desce no terreno constantemente, o que cria alguns desequilíbrios. Hidemasa Morita não se movimentava tanto. Sergi Altimira, que está a ser um ótimo sucessor do ex-capitão, não consegue cobrir toda a zona do terreno, o que leva a que os adversários consigam ter espaço entre os centrais e o meio campo do Sporting. Isto expõe as debilidades de Gonçalo Inácio, que se vê corrigido pelo seu colega do centro da defesa em quase todos os jogos, uma vez que tem de saltar da sua posição para encurtar espaços. Em muitos momentos, ficam vários metros nas suas costas dignos para o adversário explorar. Rui Borges terá de afinar este aspeto.
O Sporting também se tem revelado uma equipa incapaz de ‘matar o jogo’. O adversário consegue chegar à última parte do encontro com altas possibilidades de reduzir distâncias no marcador, ou até mesmo empatá-lo. Não existe uma estabilidade emocional que um plantel que quer ser campeão está obrigado a ter. Gonçalo Inácio também tem seguido o exemplo dos colegas, cometendo erros primários, perdendo a bola na primeira fase de construção, deixando-se ultrapassar por adversários diretos ou realizando passes que geram recuperações e contra-ataques. Isto sem recorrer aos autogolos, que baixam o ânimo de qualquer jogador.
Os verde e brancos terão de ser mais ‘frios’, mais calculistas. Sofrer golos nos minutos finais é letal e gera intranquilidade para a partida seguinte. Gonçalo Inácio não é grande culpado neste capítulo, mas como o líder do balneário terá de transmitir sentimentos positivos aos colegas. Atualmente, não gera confiança. Morten Hjulmand teria outro tipo de atitude.


O internacional português de 25 anos está a viver um começo de temporada abaixo do esperado e o mesmo pode trazer consequências. Jorge Jesus anunciará a sua primeira lista de convocados como selecionador nacional e Gonçalo Inácio pode ser um dos nomes a cair. Tiago Gabriel e António Silva, que não foram chamados ao Mundial 2026, estão numa melhor fase. Renato Veiga, que na teoria é o seu grande concorrente, não caiu tanto de forma, apesar do Villarreal estar a ser uma das deceções da La Liga.
Quiçá não seria tão má ideia Gonçalo Inácio ficar de fora dos convocados de Portugal. Teria tempo para refletir, trabalhar individualmente com Rui Borges, contactar com alguns colegas (tendo em conta que a maioria não estará em Alcochete). O defesa precisa de tempo para assimilar as mudanças que aconteceram no verão e as próximas semanas serão decisivas para uma alteração no estado de espírito (existem mais jogadores na mesma situação).
O lugar de titular indiscutível no Sporting também pode estar em risco. Rui Borges tem três defesas centrais disponíveis, enquanto Ibrahima Ba estiver de fora. A equipa técnica pode optar por colocar o capitão no banco de suplentes, lançando Zeno Debast e Eduardo Quaresma frente ao Arouca. Contudo, o que faria esta alteração ao estado de espírito de Gonçalo Inácio? O Benfica viveu uma situação semelhante com António Silva na última época e José Mourinho optou por alternar entre os atletas que tinha, embora tenha sido evidente a perda de minutos do atual jogador do Bournemouth.


Gonçalo Inácio já foi visto como um dos principais ativos do Sporting, que poderia gerar algum capital aos leões. Apesar do bom momento financeiro, a instituição está obrigada a fazer uma grande venda por época. Da forma em que está, quanto vale o atleta? Outrora chegou a ser apontado ao Barcelona e ao Real Madrid, mas, se chegaram ofertas, não alcançaram o valor pedido. Durante este mercado foi associado ao AC Milan, mas nada ocorreu.
Será tudo isto uma fase? É ponto assente que Gonçalo Inácio vive um mau momento na carreira, mas já vimos a sua melhor versão. A forma do defesa é em parte, uma consequência da conjuntura do próprio Sporting. Se as exibições coletivas subirem o nível, o defesa também vai exibir as suas valências (uma vez que ganhará confiança e os seus defeitos estarão menos visíveis). Neste momento, numa era de mudanças por Alvalade, não é fácil ser consistente. Outros elementos também estão um patamar abaixo do que já apresentaram.
Gonçalo Inácio terá de se acostumar a uma nova realidade. Se sentir que não tem o perfil necessário para liderar o balneário, terá de o comunicar. Para uns tratar-se-á de um ato de fraqueza. Para outros, um ato de coragem. Certo é que o atleta parece ‘bloqueado’ com algo. Enquanto assim se mantiver, não poderá continuar a evoluir em termos individuais e o debate sobre a sua figura vai continuar.



