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Mais uma demonstração de força | França 2-0 Marrocos


Quando Victor Hugo pensou em Jean Valjean, o porta-voz para contar a história de todos os Miseráveis de Paris, fê-lo para retratar e contar a vida de todos os que foram injustiçados pela sociedade, de desigualdade social e política, e pela miséria, que dá nome a uma das obras-primas da literatura francesa. A França de Didier Deschamps também é uma obra de Miséria, mas no sentido oposto ao pretendido pelo escritor francês. Há poucas coisas mais miseráveis do que a quantidade de talento do plantel gaulês e do que a forma como Didier Deschamps conseguiu dar o melhor enquadramento à equipa.
É completamente Miserável o que a França está a fazer no Mundial 2026. A sensação de imbatibilidade paira a cada minuto que a bola anda pelos pés dos franceses. Sempre que anda por pés alheios, a sensação é de completa segurança. A mistura entre a liberdade criativa dos talentos ofensivos e a estabilidade lá atrás torna o exercício de prever uma derrota francesa uma mera miragem distante, como quem procura adivinhar algo que dificilmente pode acontecer. Uma derrota da França neste Mundial está como um eclipse total. Não do sol, mas de toda a constelação de estrelas.
Marrocos era um dos desafios mais complicados de França neste Mundial. Depois do Muro Paraguaio, que demorou e demorou até abrir uma brecha decidida, os gauleses defrontavam uma das seleções com um futebol mais atrativo e atacante do torneio. De pouco ou nada serviu. O destino foi o mesmo dos paraguaios, como já havia sido o dos suecos ou, numa fase diferente da competição, de senegaleses, iraquianos e noruegueses. Ainda têm tanta certeza de que a França merece um lugar no G7?


O foco da França nem é essa vertente, mas é impressionante o trabalho defensivo dos gauleses. Começa lá à frente, quando os mais criativos se unem para condicionar ou, ocasionalmente, pressionar com mais força, e termina lá atrás. É impressionante o trabalho defensivo de Adrien Rabiot e Manu Koné, um criativo que também veste a roupa suja, e principalmente dos defesas. Com Lucas Digne e Jules Koundé, Didier Deschamps quis aumentar as doses de trabalho defensivo e libertar ainda mais os extremos. Ainda tem, por dentro, William Saliba e Dayot Upamecano – um Mundial monstruoso que vem fazendo – a defender a área e a defender o espaço – e Mike Maignan a defender as redes. Não está a ser o grande destaque num Mundial com muitos guarda-redes em bom nível, mas nunca se dá por ele e a França não sofre golos. Quer dizer muita coisa.
Por mais que seja repetitivo, o ataque francês é uma coisa medonha, a roçar o repugnante de quão parece batota juntar tantos nomes em quantidade e qualidade. Desta vez, durante a primeira parte foi Désiré Doué quem se destacou, pela qualidade técnica para driblar adversários, superar pressões e criar algo. A espaços, Michael Olise foi deixando toques de luxo. Vê o jogo de forma diferente, com uns óculos a que só ele consegue aceder. Ousmane Dembélé, um burocrata da capacidade técnica, – um elogio total ao perfil do avançado francês, capaz de conjugar as duas dimensões – também fez o gosto ao pé. E, para lá dos que entraram e dos que ficaram a ver do banco e dos que ficaram a ver de casa e dos que já não estão porque já não querem e dos que ainda estão aí a aparecer, ainda há Kylian Mbappé.
Para muitos jogadores, o jogo teria terminado aos 28 minutos, quando o penálti que se quer certeiro sai frouxo e é defendido. Não que Mbappé tenha uma capacidade para olhar para as falhas como virtudes, qual novo espiritualista de reels de Instagram, mas contradiz a lógica humana do abalo depois do erro. Construiu por cima dele, seguiu em frente e rubricou uma exibição de forte impacto individual por terrenos de construção e na zona de definição. A forma como fabrica o golo de Ousmane Dembélé, no passe e no arrastamento, e como procura o remate, levando Issa Diop para um jogo de enganos para criar uma vesga, é impressionante.


Cai por fim o percurso de Marrocos. Já eram várias as lesões a fazer-se sentir. Noussair Mazraoui, que é lateral direito e na seleção joga como lateral esquerdo, foi central pela esquerda fruto da necessidade. Nayef Aguerd saltou fora ainda antes do torneio e Chadi Riad, o central que mais poderia cobrir espaço nas costas, também não recuperou a tempo. Lá à frente, situação ainda mais dramática. Se Abde Ezzalzouli, titular teórico sobre a esquerda como avançado de velocidade, condução e desequilíbrio, também foi uma substituição forçada antes do Mundial, a lesão de Ismael Saibari praticamente matou as esperanças marroquinas de criar algo diferente. Chegou ao Mundial como um falso nove, mas é muito mais do que isso, tendo capacidade também para atacar a profundidade e causar comichão à defesa adversária. Lesionado diante do Canadá, fez muita falta contra a França para permitir maior variabilidade ao jogo marroquino.
Sem qualquer ameaça na profundidade, a França sentiu-se sempre muito confortável sem bola, deixando os centrais jogar e evitando que, quando a bola chegasse aos médios, houvesse uma linha de passe para a frente. Levando o jogo a esse loop infinito, os gauleses sabiam que o jogo só se definiria por erros, quer de um lado, quer do outro. O risco imprimido pelos marroquinos foi terreno fértil e, sempre que havia um passe ou uma receção falhada (Ayyoub Bouaddi vacilou uma ou duas vezes) ou que Marrocos se descompensava, com Achraf Hakimi envolvido no processo ofensivo, como no lance do penálti, rapidamente chegava à frente. Para bem de Marrocos, não é a última imagem a que, a longo prazo, perdurará. Em 2030, a base da seleção continuará aí e há toda uma nova panóplia de talento para explorar e desenvolver. O futuro é risonho para os Leões do Atlas. O presente, esse, sorri aos Miseráveis franceses. Tanta miséria provocada por criaturas com poderes especiais.

