Rúben Neves marcou presença no programa ‘Alta Definição’ e refletiu sobre a amizade com Diogo Jota e os dias que seguiram a sua morte.
Pouco mais de um ano depois da morte de Diogo Jota, Rúben Neves marcou presença no programa ‘Alta Definição’ para relembrar o amigo que perdeu. O internacional português começou por referir que a vida não prepara ninguém para estes momentos:
«A vida não nos prepara para a perda de um companheiro, de um amigo. Nunca estamos preparados para perder alguém próximo, principalmente da maneira que foi. Marca para a vida, sem dúvida».
Questionado se há um Rúben antes e depois da morte de Diogo Jota, respondeu:
«Talvez mude um bocadinho os meus pensamentos, talvez se lembre mais de coisas que antes não lembrava, antes de jogos e treinos. É a única coisa em que senti grande diferença».
Abordou também os momentos em que se lembra do antigo colega e amigo:
«Eu gosto desses momentos, usufruo deles. Às vezes com músicas, imagens, com atitudes de alguém. Se for de encontro ao que o Diogo era, eu adoro, porque lembro-me dele. Eu próprio criei ferramentes para isso, para me lembrar dele todos os dias. A tatuagem, por exemplo. Sempre que entro em campo lembro-me do Diogo. Uma pulseira que entra comigo em campo. São coisas que criei para a minha cabeça levar sempre o mais importante para mim e para ele, o futebol, e tento sempre que ele possa usufruir disso comigo na minha cabeça. (…) Não há dia em que não me lembre dele, porque criei ferramentas. Pela relação tão próxima. Prefiro isso do que fugir dessas imagens e memórias».
Rúben Neves reforçou que guarda muitas memórias felizes:
«Sempre. Há vídeos, fotos, coisas nossas que nunca ninguém viu. Vão ficar comigo para sempre. Tínhamos uma relação extremamente próxima, pensávamos da mesma maneira, mas tínhamos personalidades muito diferentes. Ele era mais canhado, dava menos confiança às pessoas inicialmente. Na primeira vez que estive com ele fiquei com uma imagem completamente errada do que ele era. E ele gostava desse imagem que passava. Era um amigo fantástico, nunca pensei criari esta amizade que criámos. Ele sentiu confiança em mim, abriu-se mais. Jogámos juntos muitos anos, acompanhámos os filhos um dos outro… tudo isso levo a criar uma relação muito boa»
De seguida, relembrou a forma como recebeu a notícia:
«Estava nos Estados Unidos, no Mundial de Clubes. A Rute, esposa do Diogo, ligou-me. Estava a caminho de Espanha. Não consigo explicar o que senti naquele momento. Deus quis que a minha mulher estivesse no mesmo hotel que eu. Esses dois dias foram muito passados no quarto de hotel, com a Débora. Acho que só acreditei no dia seguinte. A adrenalina de receber uma notícia dessas… é inexplicável. No dia seguinte passei muito pior do que no próprio dia. Quando recebi a notícia… silêncio total. Liguei logo à Débora e passei essas duas noites com ela».
Sobre a força necessária para entrar em campo no dia seguinte, Rúben Neves referiu:
«A força do Diogo, talvez. Eu percebi que conseguiria chegar a tempo do funeral, mesmo jogando. Se não, se calhar não tinha jogado. Tive muita gente a dizer-me para não jogar e para voltar a Portugal de imediato. Mas eu agarrei-me ao que achava que era correto, fazer o jogo e depois voltar para Portugal. O clube ajudou-me muito, trataram de tudo. Foi o meu pensamento: fazer o que o Diogo gostava de fazer, competir ao mais alto nível. Tentar jogar por ele antes de ir para Portugal. (…) Minuto de silêncio? Brutal. Nunca pensamos que vai acontecer a nós. Quando vi a imagem dele no ecrã gigante foi dos momentos mais difíceis. Em campo consegui focar no que estava a fazer. Eu queria jogar por ele e isso ajudou-me muito no jogo».
O internacional português descreveu as emoções dos dias que se seguiram:
«Foi muito difícil. O dia a seguir à notícia foi o dia mais difícil da minha vida. Deus quis que a Débora estivesse lá comigo e fez-me ultrapassar tudo de forma mais calma. Foi extremamente importante o apoio dela. Sem ela, talvez não conseguisse jogar. (…) Eu e o Cancelo saímos e fomos a correr para o aeroporto. Entrámos no avião e quando chego já estavam todos na capela. Fui ter à capela com a Rute e os pais do Diogo. Nem me lembro das palavras que lhes disse. O ambiente era tão pesado que acho que só pensei em estar ali para eles, a tentar o máximo de força possível».
Rúben Neves revelou que ainda conversa com Diogo Jota:
«Falo com ele ainda. Poucas pessoas sabem. Temos um grupo no whatsapp, eu, Débora, Diogo e Rute. Continuamos a falar por lá. E sempre que acontece alguma coisa especial, vou às conversar arquivadas no whatsapp e continuo a mandar mensagem para ele. (A última conversa) Pessoalmente foi quando acabou a Liga das Nações. Foi uma conversa sobre carros, porque ele ia alugar um carro para vir de Inglaterra para Portugal, porque não podia andar de avião, por causa do problema no pulmão. Foi sobre o Ferrari que ele alugou para vir de Inglaterra para Portugal».
Confessou também dois arrependimentos:
« É das coisas que mais tenho pena, não ter estado no casamento dele, mas era impossível. Estava no Mundial de Clubes, não consegui estar presente. (…) Sabíamos a relação que tínhamos, mas ele era parecido comigo em termos de não expôr as emoções. Talvez ele nunca tenha dito o quanto gostava de mim, nem eu dele. Talvez me arrependa um bocadinho disso, mas ele sabe».
Rúben Neves falou ainda sobre as emoções sentidas um ano depois do evento trágico:
«Vivo trazendo as recordações que tenho com ele. A minha maneira de viver a perda do Diogo é essa. Sinto-me confortável com isso. Nunca vai deixar de ser dolorosa, mas vamos aprender a viver com essa dor».
Por fim, revelou aquilo que gostaria de ainda poder dizer a Diogo Jota:
«Diria que foi das pessoas mais especiais que conheci»

