Lê também os outros capítulos do Diário do Mundial 2026.
Curaçau foi Brasil na ousadia e no resultado | Alemanha 7-1 Curaçau


Nos último dois Mundiais, em 2018 e 2022, a Alemanha não passou da fase de grupos. Antes disso, havia sido campeã no Brasil e com um dos jogos mais icónicos da história do futebol: o 7-1 diante da canarinha. Desta feita, não é certo que a caminhada germânica termine com título, mas é praticamente garantido, com melhores terceiros a apurar-se e com tamanha diferença de golos, que a fase de grupos não será o último estágio alemão no Mundial 2026.
Mais do que o resultado ou do que a exibição, a exibição alemã tem algumas confirmações de apostas para Julian Nagelsmann, numa das convocatórias com mais força de selecionador do Mundial 2026. Os alemães não são favoritos à vitória, mas têm potencial para entrar no grupo dos principais candidatos. Para isso, há afirmações impositivas e certezas dadas.
A Alemanha não tem surpresas no seu estilo de jogo, com o lateral esquerdo e o extremo direitos a dar largura, com Joshua Kimmich a partir de fora para dentro, para se juntar ao meio-campo e com muitos jogadores habilitados a trabalhar em espaços curtos. Neste caminho, Nathaniel Brown ganhou pontos na corrida com David Raum pelo lugar. O defesa do Eintracht Frankfurt oferece uma variabilidade importante ao jogo da equipa, atacando espaços de trás para a frente por fora e por dentro e chegando a zonas de finalização. Quanto a Joshua Kimmich, não pode ser visto como um mero lateral. Não é surpresa, nem precisará de afirmação, mas frequentemente mostrou que a posição de partida não é destino final.


No leque de dúvidas, espaço para o crescimento de Felix Nmecha como interior de infiltração. Com Joshua Kimmich a entrar por dentro e Aleksandar Pavlovic como referência posicional de primeiro passe, há uma vaga clara para um médio de projeção e de chegada à área. Foi o primeiro jogador a marcar pela Alemanha no Mundial 2026 e, na posição mais em aberto, confirmou a titularidade. Kai Havertz, mais contestado do que o seu nível pede, também fez uma exibição assinalável, não só pelo bis, mas pelos movimentos capazes de permitir a chegada de mais jogadores à área para finalizar. Tem em Denis Undav uma alternativa com outra capacidade física e presença na área.
Mais do que a Alemanha, a história do dia surge em Curaçau. A goleada sofrida é um pequeno pormenor, quase como uma nota de rodapé. Afinal, o mais pequeno país da história dos Mundiais, com apenas 156 mil habitantes, menos do que todos os habitantes do distrito de Castelo Branco, estreou-se na melhor competição do mundo. E com um golo e uma estratégia que deixou, certamente, muitos adeptos.
Contra a tendência dos blocos mais baixos, Curaçau escondeu toda a fragilidade defensiva numa estratégia arrojada. Esqueceu a linha de 5 com que chegou a testar a equipa nos particulares, apostou numa espécie de losango no meio-campo e procurou chegar com muita gente à frente. Conseguiu incomodar a Alemanha em certos momentos, acumulou chegadas à área e num destes momentos marcou. Se Felix Nmecha foi médio de chegada na Alemanha, Livano Comenencia teve este papel no país caribenho, que valorizou ainda Armando Obispo, central de boa capacidade de passe e a dupla na esquerda. O polivalente e cheio de recursos Deveron Fonvile e Juninho Bacuna, o mais novo dos irmãos, com capacidade para receber, rodar e acelerar, deram possibilidades de saída. Faltou outra consistência nas ações a Tahith Chong para Curaçau ser capaz de ameaçar ainda mais. A segunda parte, menos enérgica, foi uma consequência natural, mas o momento de Curaçau já chegou. Tudo o que vier a mais, sairá no lucro.
Quando as amarras táticas se soltaram, o barco dos golos zarpou | Países Baixos 2-2 Japão


Sem qualquer confirmação científica, baseado única e exclusivamente num empirismo reflexo de frases de Instagram e tatuagens nas costas, deve haver um provérbio japonês qualquer sobre as amarras de um barco e o sonho da liberdade. Se não houver, que se patenteie este Países Baixos x Japão como tal.
Não que as amarras sejam más. Aliás, amarras destas são terreno fértil para a prática de um futebol que tem espaço para todos os gostos e feitios. Mas, quando o barco é capaz de se libertar dos fios que o estrangulam diante do mesmo de sempre, há um espaço novo que se abre. Virgil van Dijk foi a mão humana que, com a cabeça, desembrulhou a corda que amarrava a fantasia. E o descalabro, o caos, o espaço tomou conta do que antes estava tão arrumadinho. Às vezes, basta um peão ser comido para o jogo começar.
A primeira parte foi um luxo daqueles que só se apreciam num restaurante gourmet. Frenkie de Jong baixava para o lado de Virgil van Dijk e os Países Baixos impediam o Japão de criar superioridades na última linha, obrigando os nipónicos a ter de pensar em soluções alternativas. Estas surgiram com o envolvimento dos centrais exteriores, com a multiplicidade de movimentos dos alas, nomeadamente Keito Nakamura e sempre que Daichi Kamada recuou metros e procurou arranjar algo diferente. Da mesma maneira, o Japão pôs-se num 5-4-1 que engoliu simplesmente Gravenberch e Reijnders e fez a equipa de Ronald Koeman regressar ao nome antigo. Já não se diz Países Baixos, pode-se dizer Ulanda. Uma homenagem merecida ao trajeto da bola pelo único sítio onde havia espaço.


Se o menu de luxo da primeira parte foi exclusivo, aquele tipo de experiências que um vendedor dos bons diria que só é incompreendida por quem não tem intelecto suficiente para apreciar tamanha fruição, a segunda teve algo de popular na forma como tudo parecia acontecer a cada momento. Foi servida naqueles guardanapos enormes brancos, com talheres sem condizer e por um empregado com uma frase qualquer repetida até à exaustão. Queria golos! Queria, já não quer?
Neste contexto, com duas equipas a anularem-se uma à outra, o diferencial apareceu da maneira mais evidente. Olhando a qualquer bola parada na área do Japão, era evidente a diferença de alturas considerável. Quando Ryan Gravenberch se soltou da teia japonesa e, na segunda vaga de um livre lateral, viu Virgil van Dijk na área, mudou o jogo. A partir daí, tudo o que era prisioneiro soltou-se e cada parada teve resposta.
A superioridade aérea gerou uma autêntica bola de neve que viria a aumentar de tamanho. Primeiro, por Keito Nakamura, um dos mais exigidos defensivamente e com mais recursos para desequilibrar. Puxou para dentro, depois de um bom trabalho de Takefusa Kubo e empatou. Minutos depois, novo aumento na bola de neve. Se da relação Denzel Dumfries – Crysencio Summerville já tinham surgido as melhores interações da primeira parte, na segunda etapa Ryan Gravenberch juntou-se à equação. Conduziu metros antes de entregar a bandeja para o extremo do West Ham ser feliz. Mais um golaço, quase a replicar o movimento curvilíneo que Nakamura meteu na bola. Se um dos golos já havia sido mimetizado, o outro também o foi. Não deixa de ser curioso, quase poético que os pequeninos japoneses tenham arranjado espaço, depois de uma maravilha de Junya Ito, para meter a bola na área e fazê-la tocar em dois jogadores antes de balançar as redes. Poético como um provérbio japonês. Daqueles com barcos.
Are you not entertained? | Costa do Marfim 1-0 Equador


Quando Maximus Decimus Meridius quis expor a hipocrisia do público, sedento por sangue na arena, ecoou um “Are you not entertained”, frustrado pelo banho de sangue de que tinha saído vencedor. A consciencialização do mal marcou o percurso do gladiador, no filme com o mesmo nome. Mas, e a consciencialização do bem?
O golo da Costa do Marfim mudou o registo e evitou aquele que seria o primeiro 0-0 do Mundial 2026, num confronto diante do Equador. Uma vitória que não elimina 90 minutos sem qualquer golo num dos jogos mais divertidos da prova. Ao 0-0, vale a pena responder: Are you not entertained?
O embate entre duas equipas repletas de fisicalidade, de capacidade de pressionar lá em cima e de uma alma assinalável não podia desiludir e não o fez. Apenas pautou ainda mais as características mais vincadas dos marfinenses, superiores na segunda metade, e dos equatorianos, que foram bem melhores na primeira metade. Um empate deixaria ambas as equipas praticamente apuradas, contando com a vitória aparentemente certa diante de Curaçau. Assim, a questão será mais aberta, mas será difícil de pensar em 32 equipas neste Mundial melhores que Costa do Marfim ou Equador.


Na Costa do Marfim, a individualidade é soberana. Foi a maneira de Emerse Faé melhor conseguir tirar proveito do talento à bruta que anda lá para a frente. Defensivamente e no meio-campo, impera a brutalidade no mais saudável sentido da palavra, a estampa física e a capacidade de vencer duelos. Esta estabilidade permite libertar melhor os homens da frente, desta feita quatro. Entre tantos nomes para o ataque, tamanha inveja não deve sentir Sebastian Beccacece, nenhuma tão valiosa, esta noite, como Yan Diomande.
O trabalho da Costa do Marfim era dedicado a isolar o extremo no 1×1. Pela frente, Piero Hincapié, um dos laterais esquerdos mais seguros defensivamente, finalista de Champions League. Tudo pormenores para Yan Diomande que se bateu com o rival e venceu mais vezes do que perdeu. Absolutamente dominante pela envergadura física, mas principalmente pela maneira como usa a mudança de velocidade e a passada a seu favor. Juntar a estas características físicas a qualidade técnica deverá ser como usar uma sequência de quadrados, analógicos a romper para a direita e L2. Suportado pelo bem promissor Guéla Doué, à direita o 11 da Costa do Marfim desfilou. Quando Amad Diallo, marcador do golo decisivo e outro nome agitador, foi chamado a jogo, passou para a esquerda. Rapidamente o Equador chamou Porozo a jogo, deslocou Joel Ordóñez para lateral direito e colocou o voluntarioso Angelo Preciado à sua frente. Quando assim é, fica tudo dito.


Quanto ao Equador, há uma certeza mais ou menos evidente. Com opções do calibre marfinense lá à frente, não teria sofrido golo sem antes ter marcado. Só de repente, foram duas bolas à trave e um lance clamoroso de Enner Valencia. John Yeboah fez um jogo repleto de agitação e mostrou-se a bom nível, Gonzalo Plata conseguiu acrescentar no terço ofensivo, mas há um mundo de diferenças quando se olha para trás.
Moisés Caicedo viu revogada uma expulsão e pôde ir a jogo. Podia ser nota de destaque, mas o equatoriano até foi beneficiado. Viu bem de perto aquilo que Pedro Vite, bem menos mediático que Pacho, Hincapié ou o próprio Caicedo, conseguiu fazer. Numa equipa tão focada na capacidade de vencer duelos, acrescentou pausa, variabilidade na saída e cérebro na distribuição. Quando o músculo se equipara, é no cérebro que se marcam diferenças.
A Dupla Maravilha e uma Suécia a respirar bom Ayari | Suécia 5-1 Tunísia


De todas as 48 seleções no Mundial 2026, nenhuma tem uma presença tão estranha como a Suécia que, depois de não conseguir vencer qualquer um dos jogos de qualificação, viu um percurso de sucesso (pudera) na 3.ª Divisão da Liga das Nações merecer uma vaga nos playoffs. Aí, nada a dizer e os nórdicos que vestem de amarelo estão no Mundial 2026 e com legítimas aspirações a, pelo menos, seguir para a próxima fase.
A Suécia não será, certamente, uma das seleções mais entusiasmantes ou envolventes do torneio, mas tem sobre si três pontos a favor. Os primeiros jogam-se a três. Defensivamente, Isak Hien, Gustaf Lagerbielke e Victor Lindelof dão, em diferentes pontos, garantias. Hien consegue aguentar referências mais físicas, Lagerbielke consegue, de frente para o jogo, limpar quase tudo e, com bola, o envolvimento de Lindelof abre mundos infinitos no passe, principalmente quando não há pressão.
Foi o que aconteceu no primeiro golo da vitória sobre a Tunísia, quando o defesa, que também já sabe o que é ser médio, isolou Alexander Isak. A bola ainda passaria por Viktor Gyokeres antes de chegar a Yasin Ayari. Não fosse o golo histórico de Curaçau e o médio sueco, visivelmente emocionado depois de marcar a um país que também sente como seu – tem dupla nacionalidade, filho de pai tunisino crescido e feito sueco – disputaria o troféu de momento do dia. É, dos médios suecos, o mais envolvente, com capacidade para funcionar como facilitador e orientador de jogadas em zonas mais recuadas, mas também para, mais à frente, ligar setores. Ainda marcou mais um, provando que, quanto menos estiver numa gaiola de movimentos, maior a influência que poderá ter. É complementado por Jesper Karlstrom e Benjamin Nygren, numa outra faixa do terreno.


Estando estes setores, a defesa e o meio-campo, oleados, a Suécia terá sempre argumentos para ameaçar, principalmente se não for obrigada a assumir o protagonismo. Chegou a fazê-lo a espaços, como no segundo golo contra os africanos, o primeiro a envolver diretamente a dupla dos estragos. Quem tem Alexander Isak e Viktor Gyokeres, nunca se poderá dizer triste. Para lá do que cada um é capaz de oferecer individualmente, na maneira como o primeiro conduz junto do pé, dribla e facilmente usa o remate e como o segundo ataca espaços, ganha duelos e remata com ferocidade, há uma noção de complementaridade e de trabalho em dupla. Sempre que houver espaço para explorar, haverá estrada para andar para a Suécia.
A Tunísia depositiva algumas esperanças no processo de rejuvenescimento, feito quase à força resultado de um corte alargado feito na base que assegurou a qualificação, mas voltou a mostrar fraquezas demasiado evidentes para receber algo mais do que um diploma de participação. A intenção em março foi clara: cortar de raíz com grande parte da geração mais velha e chamar muita malta jovem e tecnicamente evoluída. Não correu tão bem como planeado, certamente.
Diante da Suécia, há um pecado capital. O 5-3-2 com que Sabi Lamouchi montou os tunisianos em campo tinha como propósito evitar duelos individuais contra os avançados suecos. Para isso, a Tunísia assumia uma inferioridade: ou pressionava os três defesas e deixava alguém vazio no meio, ou igualava no meio e deixava um dos defesas livre. Com Lindelof de frente para o jogo, o mínimo espaço nas costas matou qualquer estratégia pensada para o jogo aos seis minutos. Ficou a afirmação de Hannibal Mejbri, o maior talento tunisino dos últimos anos. Exibição plena de personalidade tendo em conta as circunstâncias difíceis. Poder expressar-se nos maiores palcos do mundo valerá mais do que o resultado.

