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«A minha maior mágoa foi não ficar no FC Porto» – Entrevista BnR com Cláudio Pitbull

João Reis Alves · 26 min

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A viver uma nova vida no ramo das apostas desportivas, Cláudio Pitbull atende-nos a partir do escritório no Brasil, onde trabalha rodeado de memórias da carreira de jogador. Outrora uma das maiores promessas do Grêmio, chegou à Europa aos 23 anos para jogar no FC Porto, mas depois de um jogo para a Liga dos Campeões frente ao Inter MIlão, deixou de ter oportunidades e andou de empréstimo em empréstimo até acabar contrato. Numa carreira que passou por Brasil, Arábia Saudita, Turquia e Roménia, foi em Portugal que ganhou destaque, com passagens por Académica OAF, CS Marítimo e Gil Vicente FC, mas foi ao serviço do Vitória FC que somou mais sucesso ao conquistar a primeira edição da Taça da Liga. Eis Cláudio Pitbull, em exclusivo, no Bola na Rede.

-A nova vida de Pitbull e o início promissor de carreira no Grêmio-

«Em Portugal retardam muito os jogadores. Há muitos jogadores prontos que podem jogar e deixam-nos jogadores de fora até aos 20 ou 21 anos»

Bola na RedeCláudio, os adeptos portugueses perderam-te o rasto nos últimos anos. Que é feito de ti?

Cláudio Pitbull: Agora estou a viver no Brasil depois de 15 anos aí em Portugal. Encontrei uma namorada, acabou por mudar-me os planos e agora montei um escritório virado para apostas desportivas.

Bola na RedeMas com uma empresa mesmo? Um site?

Cláudio Pitbull: Sim. Fiz uma parceria com uma casa de apostas e comecei a envolver-me nisso há um mês e pouco. Depois de parar de jogar, ficamos sem rumo, não sabemos o que fazer, se vai abrir uma escola de futebol – que eu gosto bastante de trabalhar com miúdos – mas como eu já gostava disto e cheguei a fazer alguns cursos, é uma coisa que vou fazer.

Bola na RedeEra uma coisa que um jovem Cláudio Pitbull, a começar a aparecer no Grêmio, acreditava que ia fazer um dia?

Cláudio Pitbull: Acho que não, porque quando temos 18 anos fazemos muita besteira. Temos a cabeça completamente diferente de quem tem quase 40 anos. Agora já pensamos de uma maneira diferente.

Bola na RedePor falar no início da tua carreira, começaste como sénior no Grêmio. Também fizeste toda a formação em Belo-Horizonte?

Cláudio Pitbull: Não, comecei no Grêmio dos 11 até aos 21. Jogava na rua e numa escola de um ex-jogador do Grêmio, que já faleceu, que era o Tarcísio. Estava a jogar num campinho de rua e mandaram-me fazer um teste lá no Grêmio, acabei por passar e fiz toda a formação lá, foram 10 anos.

Bola na RedeQue craques apanhaste nessa altura?

Cláudio Pitbull: Apanhei muita gente, mas destacar o Ronaldinho Gaúcho, sem dúvida. O que ele fazia nos treinos era uma coisa de outro Mundo.

Bola na RedeTambém tinhas destaque na formação ou ficavas na «sombra»?

Cláudio Pitbull: Sempre tive destaque nas categorias de base. Se não me engano, fui um dos maiores artilheiros da formação do Grêmio, desde os iniciados até a profissional.

Bola na RedeQuando chegaste aos seniores, as pessoas apontavam que ias chegar onde?

Cláudio Pitbull: É assim, hoje é muito mais fácil. Aí em Portugal, cria-se uma barreira muito complicada. Aqui no Brasil, no meu tempo, era muito difícil com 16 anos estar no profissional. Eu com 16 anos já estava nos seniores e com 17 fiz a estreia. Acho que aí em Portugal retardam muito os jogadores. Há muitos jogadores prontos, tanto no Sporting CP, SL Benfica, FC Porto que podem jogar e deixam-nos de fora até aos 20 ou 21 anos e já é muito tarde…

Bola na RedeE esse jogo de estreia, com o Botafogo? Como lidaste com a pressão?

Cláudio Pitbull: Sinceramente, eu estava todo cagado [risos]. Estava assustado, olhava para a torcida, tinha 30 ou 40 mil pessoas… Não há como dizer que não se fica assustado. Mas com o tempo vais aprendendo e esquecendo os adeptos e consegues ficar à vontade para jogar.

Bola na RedeO teu início de carreira foi particularmente positivo em termos coletivos, porque ganhaste dois campeonatos gaúcho e a Copa do Brasil. Como foram essas experiências?

Cláudio Pitbull: Foi muito bom porque eu era miúdo e estava a jogar com jogadores de renome como Zinho, que foi tetracampeão pelo Brasil, apanhei uma fornada boa e, quando assim é, tem de se aproveitar. Aprendi muito com esse plantel e a mesma coisa quando cheguei ao FC Porto. Encontrei uma equipa só de campeões e foi uma experiência muito boa para mim.

Bola na RedeComo foi trabalhar com o Tite?

Cláudio Pitbull: O Tite desde cedo mostrava ser um grande treinador. Em 2000 foi campeão pelo Caxias, onde conseguiu um feito que, até então, era muito difícil. Em 2001 veio para o Grêmio e fomos campeões. Era um treinador que mostrava muita competência, muito dinâmico nos treinos e foi-se aperfeiçoando. É por isso que chegou onde chegou.

Bola na RedeAos 19 anos, começaste-te a destacar no Grêmio. Que contributo tiveste na conquista da Copa do Brasil?

Cláudio Pitbull: Tive dois jogos em que entrei e consegui fazer… É claro que nenhum jogador muda o jogo, a não ser os craques como Messi ou Cristiano Ronaldo, mas na primeira mão da final da Copa do Brasil fui muito importante. Estávamos a perder por 2-0 em casa, eu entrei e conseguimos empatar o jogo 2-2. Depois ganhámos ao Corinthians no Morumbi.

Bola na RedePorque acabaste emprestado ao Juventude no ano seguinte?

Cláudio Pitbull: Porque nessa época não tinha muitas sequências de jogos. Não sei se vocês dizem esta palavra, mas havia muitos medalhões, jogadores mais velhos, com nome, dificilmente tiravas-lhes o lugar. Vou dar um exemplo: não vais tirar o Quaresma da equipa para meter um miúdo da formação. Então eu disse-lhes que queria jogar mais e disseram-me para ser emprestado. Fui para o Juventude e fiz uma excelente temporada. Depois voltei ao Grêmio e fiz uma excelente sequência de jogos e golos.

Bola na RedeO Ricardo Gomes, treinador do Juventude na altura, influenciou-te para ir para o futebol português?

Cláudio Pitbull: É uma pessoa que eu tenho um carinho muito grande. Ajudou bastante no meu crescimento, foi fantástico fora de campo, como pessoa. Ele falava muito bem de Portugal, que era um lugar muito bom para seguir caso tivesse de sair para algum lado. Pela língua, a adaptação seria mais fácil.

Bola na RedeDepois regressas ao Grêmio, mas em 2004 têm uma temporada desastrosa, em que acabam por descer. O que se passou?

Cláudio Pitbull: Em 2003, já tivemos uma temporada ruim, escapámos na última jornada ao vencer o Corinthians. Já tinha avisado, mas em 2004 fizeram contratações erradas, muitas trocas de treinador, o grupo não era bom… Aí, já se sabe o que acontece…

Bola na RedeMesmo assim, fizeste uma época de destaque, com 23 golos em 50 jogos…

Cláudio Pitbull: Eu, particularmente, só joguei a segunda parte da temporada. Foram 23 golos em 30 jogos. Mas foi complicado, porque a equipa desceu de divisão. É um sentimento que carrego até hoje, é difícil… A equipa que você ama descer de divisão é muito ruim.

-A chegada ao Dragão e a falta de oportunidades no FC Porto-

«Fiquei seis dias na Alemanha, no Estugarda, mas acabei por não ficar e aí surgiu a proposta do FC Porto»

Bola na RedeDepois dessa temporada, que interessados é que apareceram no Cláudio Pitbull?

Cláudio Pitbull: No Brasil tinha, não digo todos, mas sete ou oito equipas. Podia escolher quem eu quisesse. Já estava a apontar que, se ficasse no Brasil, ia para o São Paulo, já tinha falado com o pessoal e tinham-me dado bastantes «cartas» para ir: lutar pela Libertadores, foram campeões… Mas antes de ir para o FC Porto, houve uma curiosidade que acho que ninguém sabe. Fiquei seis dias na Alemanha, no Estugarda. Fiz testes, fiz tudo mas, na altura de assinar – e você sabe que na Alemanha há muitos impostos – prometeram-me uma coisa e metade era impostos. Acabei por não ficar e aí surgiu a proposta do FC Porto.

Bola na RedeQuão melhor era a proposta do FC Porto, quando comparada com a do Estugarda?

Cláudio Pitbull: Vou ser sincero, era um pouco menos que o Estugarda, mas pelo facto da língua portuguesa, de não precisar de tradutor, nem pensei duas vezes.

Bola na RedeComo foram os primeiros dias a trabalhar com o Victor Fernández?

Cláudio Pitbull: Foi uma pessoa que me ajudou muito. Acredito que, se ficasse, eu podia ter jogado mais. Com a mudança de treinador, para um português que não me conhecia, é mais complicado lançar um jogador brasileiro. E foi legal, ainda falo com ele às vezes… Uma pessoa que, em pouco tempo, ajudou-me bastante mas, infelizmente, o momento não era bom e alguém teve de ser o culpado.

Bola na RedeEntão não concordaste com a saída dele?

Cláudio Pitbull: Para mim, treinador que me ia colocar a jogar ser demitido… É que, sabes, o FC Porto é uma equipa que, se não estiveres bem, acaba por ter de pesar a decisão na mão de alguém. Quando uma equipa não está bem e há muitas trocas de treinador, não é bom.

Bola na RedeAinda fizeste cinco jogos com o José Couceiro, mas desapareceste depois de jogadores uma primeira parte frente ao Inter Milão. Porque foste afastado?

Cláudio Pitbull: É uma coisa que, até hoje, não descobri mas tenho a certeza que vou descobrir. Fiz um contrato com o FC Porto de cinco anos e meio. Cheguei em janeiro, joguei alguns jogos, joguei aquele jogo com o Inter Milão em que empatámos o primeiro jogo no Dragão e perdemos lá 3-1, onde só joguei uma parte e sem ritmo. Depois, todos os anos em que voltava ao FC Porto, não sei porque motivo, era emprestado. É uma coisa que não consigo entender, porque nunca me deram oportunidade de fazer uma pré-temporada. Sei que se fizesse uma pré-época, ficava no grupo. Jogar, não sei, mas tinha qualidade para ficar no grupo.

Bola na RedeE nem com as mudanças de treinadores conseguiste ter essa oportunidade? Nem Co Adriaanse, nem Jesualdo Ferreira?

Cláudio Pitbull: Não, não. Sempre que chegava para representar [o FC Porto], eles diziam que ia ser emprestado. Aí, em 2007, aconteceu uma coisa que piorou mais ainda: tive uma reunião e queria saber porque nunca fazia uma pré-temporada. «Porque tens de provar que tens condições de estar aqui»…

Bola na RedeMas já tinhas mostrado serviço no Fluminense, passaste pelo Santos FC…

Cláudio Pitbull: Mas eles queriam num clube português…

Bola na RedeFoi por isso que acabaste na Académica?

Cláudio Pitbull: Fui para a Académica, mas não joguei muito. E disseram que, enquanto não conseguisse jogar num clube português, não me iam dar oportunidades. Fui emprestado para o Vitória FC, fui o melhor jogador da Taça da Liga, vencemos a Taça da Liga, fomos às meias-finais da Taça de Portugal, que perdemos com o FC Porto… E pensava que agora ia ser a minha vez. Quando cheguei lá em 2008, fui emprestado outra vez. Não posso falar mal do FC Porto, respeito muito o Pinto da Costa, sempre me tratou bem, mas são coisas que rolam e que não consegues entender. E nunca mais fiz a pré-temporada…

Bola na RedeCom que motivação foste para o Rapid Bucareste?

Cláudio Pitbull: Depois de uma excelente temporada, disseram-me que tinha de treinar separado durante seis meses, porque não me deixavam voltar para o Brasil. Tive uma proposta do SC Braga em 2008, o Jorge Jesus queria-me, mas não me deixaram sair.

Bola na RedePara fazeres dupla com o Matheus?

Cláudio Pitbull: Isso, que é um grande amigo meu que está na China.

Bola na RedeChegámos a entrevistá-lo há coisa de um mês…

Cláudio Pitbull: É. Ele é muito gente boa. Mas no último dia de mercado, o FC Porto contratou o Sapunaru e disseram-me que tinha de ir como moeda de troca para a Roménia…

Bola na RedeComo foi a ida para lá? Num campeonato quase obscuro, apesar de jogarem competições europeias?

Cláudio Pitbull: Sinceramente, estava voltado para treinar sozinho, mas o Peseiro, que era o treinador, ligou e convenceu-me a ir. Fizémos uma boa temporada, fomos eliminados na primeira eliminatória da Liga Europa pelo Wolfsburgo, mas era um campeonato ruim, depois de fazer uma temporada excelente no Vitória FC, de certeza que tinha opções melhores para sair, mas acabei despachado para a Roménia.

-O paizão Carlos Carvalhal e a ida à pressa para a Turquia-

«Da metade da tabela para baixo, quase todos os clubes têm problemas financeiros, porque não têm receitas»

Bola na RedeTemos de falar dessa temporada no Vitória FC. Como apoio te deu o Carlos Carvalhal para dares um salto de qualidade tão grande?

Cláudio Pitbull: O Carlos Carvalhal é como eu digo, é o paizão do futebol. Quando estava no FC Porto, a treinar separado, tocou a campainha da minha casa, era ele. Apresentou-me todo um projeto, que me conhecia do Brasil, que era um grande jogador mas que precisava de lidar comigo por ter características difíceis de encaixar numa equipa. E conseguiu, fizemos uma grande temporada, ficámos uns seis ou sete jogos sem perder no início, fomos campeões da Taça da Liga, meia-final da Taça de Portugal, ficámos em quinto ou sexto e fomos à Liga Europa… É uma pessoa a quem agradeço muito, voltei a trabalhar com ele no Marítimo… Tenho um carinho especial e que merece todo o sucesso.

Cláudio Pitbull e Carlos Carvalhal festejam a conquista da Taça da Liga em 2007/2008, ao serviço do Vitória FC

Bola na RedeVamos então para o CS Marítimo. Chegas por indicação do Carvalhal…

Cláudio Pitbull: Sim, mas não dura muito tempo o Carvalhal…

Bola na RedeEle não tentou puxar-te para o Sporting CP?

Cláudio Pitbull: Não… Falou umas vezes comigo, mas não tentou. Vou-te ser sincero, era um clube que tinha vontade de jogar. No SL Benfica, pela ligação que tenho com o FC Porto e pelos adeptos que sempre me respeitaram, não tinha vontade de jogar lá, mas no Sporting CP sim. Era um clube que tenho muita ligação, o presidente Varandas é muito meu amigo, porque ele foi médico do Vitória FC. Mas no Marítimo saiu o CS Marítimo e veio o holandês Van der Gaag. Na altura jogava o Babá, o Manú e o Djalma, ele disse que eu não encaixava no sistema e acabei por não jogar muito.

Bola na RedeDepois voltas ao Vitória FC. Quem chamou-te de volta?

Cláudio Pitbull: Eu tinha muitas opção para voltar ao Brasil, mas onde te sentes bem e onde és bem tratado, não tens porque não voltar. Acabei por fazer mais uma temporada e acabei por sair para a Turquia. Lamento o clube estar assim, uma decisão estranha porque dentro de campo conseguiram manter-se…

Bola na RedeNunca tiveste problemas financeiros em Setúbal?

Cláudio Pitbull: Toda a gente sabe que o Vitória FC tem sempre problemas financeiros. Aliás, não só o Vitória, como todos… A diferença dos valores que recebem de quotas o SC Braga, FC Porto, SL Benfica e Sporting CP é muito grande para esses pequenos. Posso falar, porque já conheço muita gente, nos clubes médios e baixos na tabela, a grande maioria tem problemas financeiros: pagam um mês, atrasam dois… É normal, porque não têm receita. E quando não têm receita, tem de se fazer alguma coisa…

Bola na RedeTambém viste isso na Académica e no CS Marítimo?

Cláudio Pitbull: No CS Marítimo nem tanto, mas acontece porque há meses em que não vai haver receita. Já aconteceu na Académica algumas vezes, no meu tempo não, mas mais à frente aconteceu. Porque, sabes, já é difícil manter na Primeira, quanto mais numa liga inferior…

Bola na RedePorque acabaste por ir para a Turquia?

Cláudio Pitbull: Eu era um dos capitães de equipa e quando se é um capitão, tem de se dar a cara pelo plantel. Havia muitos jogadores a passar necessidades, que estavam sem pagar a renda da casa… E isso incomodava-me. Uma coisa é dizer que «em cinco dias, eu resolvo» mas, passados esses cinco dias, não resolvia, passavam dez e não resolvia… Chegou a janeiro, os caras da Turquia ligaram-me e eu disse-lhes que não queria ficar, porque estava a expôr-me muito., era uma situação em que não podia fazer nada. Queria ajudar, e ajudei muita gente lá, mas não tinha mais que fazer. Apareceu a opção da Turquia e fui…

Bola na RedeOlhando para trás, será que foi algo precipitado? Podias ter esperado por um clube melhor que o Manisaspor?

Cláudio Pitbull: Agora, sim. Mas naquela altura eu já não estava na cabeça para ficar no Vitória FC e quando não temos a cabeça naquele sítio, naquele lugar, não podes continuar, senão vais comprometer dentro de campo e eu sempre quis render a 100% quando jogava. Acabas por trazer problemas.

Bola na RedeComo foi o primeiro impacto com o Manisaspor, um clube quase desconhecido da Turquia?

Cláudio Pitbull: A questão é que tive outro problema na minha chegada. O treinador que me levou para lá, passados quatro jogos, foi demitido. Já não sei se eram os treinadores ou era eu que dava azar. Era um clube desconhecido, mas há uma coisa que se podia implementar em Portugal: a federação turca cede para todos os clubes um centro de treinos com ginásio, piscina, hotel… Agarravas no Manisaspor, que era um clube pequeno, mas que tinha toda a estrutura. Isso podiam fazer em Portugal, porque há clubes com o estádio ruim, sem centro de treinos e isso influencia dentro de campo. Mas foi um ano muito complicado, trocas de treinadores, muita briga entre os jogadores turcos… Foi completamente equivocada a minha decisão por não saber o que se passava no clube.

Bola na RedeOs jogadores turcos afastaram-te do grupo ou era entre eles?

Cláudio Pitbull: Não, não, era entre eles. Porque, quando a equipa está mal, há sempre um culpado. Eles não gostavam dos estrangeiros, mas a briga era entre eles, falava-se que um jogador é que fez cair o treinador e isso criou um ambiente ruim no balneário.

Bola na RedeFaltava um líder no balneário para meter ordem naquilo?

Cláudio Pitbull: Faltava… O capitão não tinha a autonomia necessária…

Bola na RedeQuais foram as diferenças na adaptação à Roménia e à Turquia?

Cláudio Pitbull: É o que eu digo, tens de te adaptar em estar num país diferente, entender as regras. O essencial é saber comunicar porque, senão, perdes muito, não podes confiar num tradutor. Eu próprio tive uma situação com um tradutor na Arábia Saudita em que disse-lhe para dizer uma coisa ao treinador e ele disse outra completamente diferente. Não digo saber a língua de lá, mas pelo menos o inglês para desenrascar tanto dentro de campo, como fora.

Bola na RedeNão chegámos a tocar na passagem pela Arábia Saudita, até porque foi bastante curta. Porque é que o FC Porto decidiu mandar-te para lá? Foi pela contrapartida financeira?

Cláudio Pitbull: Também foi para tentar recuperar um pouco do investimento feito. O facto de ter quase ido para o Flamengo… Tive pessoas do Flamengo em minha casa e já estava tudo certo para ir, mas aí a direção do Flamengo mudou completamente o contrato e acabei por não ir. Nisso, o FC Porto mandou-me para a equipa B. Treinei lá até aparecer a oportunidade da Arábia Saudita.

Bola na RedeQuanto tempo tiveste lá?

Cláudio Pitbull: Fiquei três meses. Porque o Al Ittihad era o campeão da Ásia e ia jogar o Mundial de Clubes mas, por causa da pessoa que fez a negociação, acabou por brigar com o sheik e, depois de fazer a pré-temporada na Itália, no regresso saiu a lista e eu não estava lá. Fui falar com o treinador romeno [Anghel Iordanescu] e ele disse que era assunto da direção. Falei com a direção e lá disseram-me que o problema foi com a pessoa que mete trouxe…

–As lesões no joelho e o final infeliz da carreira-

«Fiz três operações ao joelho. Se contares o tempo de paragem, foram três anos e meio»

Bola na RedeVoltemos a 2012, quando rescindes contrato com o Manisaspor. Não tiveste de pagar nada?

Cláudio Pitbull: Não, eu coloquei na FIFA porque fizeram contrato de seis meses comigo, pagaram-me metade do valor na assinatura do contrato e não me pagaram o resto. Depois de dois anos e meio, acabei por receber.

Bola na RedeDepois vais para o Brasil para jogar no Bahia. Como foi este regresso a casa?

Cláudio Pitbull: Esse regresso foi muito bom. Conhecia bastante Salvador, gostava muito de lá. Posso dizer que o Bahia é que nem o Vitória SC aí, com as maiores massas de adeptos, chega a colocar 40 mil pessoas no estádio. Fiquei seis meses, alternava em alguns jogos e, em dezembro, tive uma lesão no joelho, no ligamento cruzado e acabei por rescindir contrato. Fiquei muito limitado depois dessa lesão.

Bola na RedeFicaste parado quanto tempo?

Cláudio Pitbull: Foram oito meses…

Bola na RedeFoi por isso que, quando foste para o Gil Vicente FC, estavas tão debilitado?

Cláudio Pitbull: Não, só fui para o Gil Vicente FC por conhecer algumas pessoas, o César Peixoto, que era uma referência em Portugal, e alguns amigos que diziam que o Gil tinha boas condições para o clube que é. Só que, infelizmente, apresentei-me, fiz os treinos, fiz a estreia contra o FC Porto no Dragão, joguei 30 ou 40 minutos, mas no treino seguinte o meu joelho inchou e, depois disso, nunca mais consegui jogar em alto nível. Qualquer coisa que fizesse num treino, o meu joelho inchava. Fiquei no Gil Vicente FC até fevereiro, quando disse que já não queria mais, já não conseguia… Falei com os melhores médicos, com o [José Carlos] Noronha, fiz uma lavagem no joelho e uma artroscopia, mas não consegui… Aí, voltei ao Brasil e descobriram que tinha um problema na cartilagem.

Cláudio Pitbull, à esquerda, com a camisola do Gil Vicente FC

Bola na RedeFoste operado outra vez?

Cláudio Pitbull: Fiz outra operação, foram mais oito meses parado, mas depois senti-me bem novamente.

Bola na RedeSó para dar contexto, quantas operações foram e quanto tempo parado?

Cláudio Pitbull: Operações ao joelho foram três, duas de ligamentos cruzados e uma de cartilagem. Se contares o tempo de paragem, foram três anos e meio.

Bola na RedeJá estavas recuperado quando foste fazer testes ao Gimnástic Tarragona?

Cláudio Pitbull: Já. Foi uma das coisas que mais me magoou. Era um clube com uma estrutura fantástica, o meu sonho sempre foi jogar em Espanha, pelo nível técnico dos jogadores espanhóis. Fiz a pré-temporada, mas apresentei-me acima do peso, o que é normal quando estamos sem jogar. Voltei ao meu peso, treinei, fiz a pré-temporada quase toda, correu tudo bem. O treinador disse que eu já estava a ficar ao nível dos outros e ia contar comigo, mas acabou a pré-temporada, falei com um diretor, mas ele disse que o treinador não queria ficar comigo porque demorei muito a apanhar o ritmo dos outros. Eu disse que devia de haver alguma coisa errada, porque tinha acabado de falar com o treinador… Depois, descobri que esse diretor recebia uma percentagem pelos jogadores e acabou por levar dois jogadores dele e eu não fiquei…

Bola na RedeFoi uma desilusão muito grande?

Cláudio Pitbull: Foi porque o treinador tinha-me dado a palavra que eu ficava na equipa. Mandou-me subir só para acertar contrato e o diretor diz-me que ele não me queria…

Cláudio Pitbull na apresentação com a camisola do Gil Vicente

Bola na RedeIsso tirou-te a motivação para continuares no futebol?

Cláudio Pitbull: Cortou um pouco porque, quando somos novos, deixamos isso de lado, mas quando vais convivendo com as coisas no dia-a-dia, vais ficando chateado, nem é uma questão de dinheiro, mas de te sentires bem. Foi um dos episódios que começou a dar-me desgosto pelo futebol…

Bola na RedeO que fizeste depois dessa rejeição do Gimnástic?

Cláudio Pitbull: Eu já tinha decidido parar de jogar, tinha desistido, até que a minha afilhada Valentina me perguntou: «porque não voltas a jogar futebol e entras comigo ao colo?». Ela queria que eu voltasse a jogar, falei com algum pessoal, mas não estava com muita motivação. Até que apareceu o Cabofriense.

Bola na RedeMas já quase dois anos depois…

Cláudio Pitbull: Sim, um ano e pouco depois.

Bola na RedeO que fizeste durante esse tempo?

Cláudio Pitbull: Viajei bastante. Gosto muito de viajar, vi o Mundo todo, é uma coisa que me sinto bem. Não preciso de dar explicações a ninguém, vou para os lugares que gosto, faço aquilo que quiser e não tenho de dar explicações, porque as pessoas têm ideia que os jogadores só ganham dinheiro e a vida é fácil, mas às vezes não é assim. Temos problemas, como toda a gente tem. Depois disso voltei e surgiu essa oportunidade do Cabofriense.

Bola na RedeE como foi?

Cláudio Pitbull: Aí foi o meu enterro, o meu funeral. O que eu vi lá dentro do clube, coisas que, se falar aqui, é chato… Já conhecia a cidade, Cabo Frio é um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro, perto de Búzios. Por isso disse: «Se não jogar, ao menos estou na praia». Já fui muito consciente daquilo que era a situação e nem era por dinheiro, foi o pior salário da minha vida, uns 1500 euros.

Bola na RedeO que viste lá que te chocou tanto?

Cláudio Pitbull: O diretor era meu amigo. Disse-me que tinham um projeto, estavam na Segunda Divisão do campeonato carioca, o campeonato começa em novembro e, se forem campeões ou ficarem em segundo, sobem de divisão. O treinador gostava de mim e perguntou-me se queria ir, só que não havia dinheiro. Disse que não era uma questão de dinheiro e fui, mas como todos os clubes pequenos têm dificuldades no Brasil… Não chega ao nível de Portugal, mas não tinha roupa de treino, não tinha toalhas, a que eu usava de manhã tinha de colocar no estendal e usava-a à tarde. É uma situação em que pensamos: «será que é preciso passar por isto?». Conseguimos a qualificação para a Primeira Divisão mas, quando pensava que ia ter a minha sequência, aconteceram coisas extra-campo com o treinador que nem quero comentar. Não pude entrar com a minha afilhada ao colo porque nunca comecei um jogo e disse que chegava, já não dava mais. Mesmo com outros convites para voltar.

-As mágoas da carreia e o futuro nas… apostas-

«Ser treinador? É impossível. Não tenho perfil para isso»

Bola na RedeCom a carreira terminada, sentiste-te traído pelo futebol? Por todas as questões diretivas com que tiveste de lidar?

Cláudio Pitbull: A que mais senti foi a do FC Porto. O facto de ter muito carinho pelo clube, me sentir bem, onde fiquei com a minha família e os meus pais quase 15 anos, foi uma das coisas com que tenho mágoa. Não do clube, mas da forma como algumas pessoas trataram da minha situação. Quero deixar bem claro que não é nada com o Pinto da Costa, que é uma pessoa que sempre me tratou bem, mas são questões internas. O meu sonho era jogar no FC Porto porque, até hoje, há portistas que me seguem nas redes sociais e dizem que eu tinha o ADN do FC Porto, mas não joguei e é a coisa que mais me incomoda.

Bola na RedeDepois de terminares a carreira, o que pensaste em fazer?

Cláudio Pitbull: Esse é o grande problema, é que não sabemos o que fazer. Pensamos em muitas coisas e acaba por não fazer nada. Aconteceu eu ter alguns projetos, quer aí em Portugal, quer no Brasil, abrir restaurantes… Só que acaba por não ir para a frente porque temos dúvidas e resolvi entrar neste projeto. Não podia apostar porque jogava, mas era uma coisa que sempre me chamou a atenção como algo que entendo, que vivi praticamente a minha vida toda e que gosto de fazer.

Bola na RedeQuem falou contigo para montares esse negócio?

Cláudio Pitbull: Isto já vinha de uma ideia minha, de poder-me aperfeiçoar no mercado. Quando paras, a grande dificuldade é só saberes jogar futebol. Ficamos sem rumo, não sabemos o que se vai fazer. Nesse tempo, tive uma conversa com um pessoal e disseram «porque não entras nesse meio? Podes ser um pioneiro, ires desde jogador até ao mundo das apostas». Cheguei a fazer um curso e tomei gosto nisto.

Bola na RedeQuais são as tuas ideias diferentes nesta área? Como jogador, como olhas para as apostas?

Cláudio Pitbull: Posso passar muitas coisas para o pessoal das apostas não tenha, coisas vividas dentro de campo, situações que podem acontecer devido a ter estado muito tempo lá dentro. Mas não é só por ter sido jogador que vou fazer lucros. Vou ter de estudar, ver a probabilidade, ver tudo. Isso motivou-me para o projeto e saber juntar o que sei com os estudos para encontrar um denominador comum para ter resultados. Digo-te que 96% do pessoal das apostas perde, só 4% ganha. Há muitos aldrabões aí, que dizem que apostam 500 e ficam com 2 mil no final do mês. É tudo mentira.

As camisolas de alguns dos clubes que Cláudio Pitbull representou, expostas no escritório do antigo jogador brasileiro

Bola na RedeNão posso deixar de olhar para as camisolas que tens na parede. Essa do FC Porto, é a do teu primeiro jogo?

Cláudio Pitbull: Eu mostro-te: tenho a do Vitória FC, da final da Taça da Liga, a do Rapid Bucareste, da Roménia, a do FC Porto é a da estreia no campeonato português. Tenho a do Manisaspor, da Turquia, e estas quatro: a do Grêmio, a do Santos FC, do Bahia e a do Fluminense. Ainda faltam algumas, mas já não tenho espaço. Faltam a do Gil Vicente FC, a do CS Marítimo, clubes que sei que as pessoas vão ficar chateadas, mas não posso colocar todas.

Bola na RedeDesses clubes todos, qual é que te marcou mais?

Cláudio Pitbull: Pela história foi o Vitória FC. Pelo facto de me identificar com o pessoal da cidade, ser muito bem tratado lá, poder retribuir o carinho dentro de campo e conseguir títulos.

Bola na RedeAlgum que não fizesses questão de ter a camisola?

Cláudio Pitbull: Não, não. O único clube que fiquei chateado mesmo foi o Gil Vicente FC, pelo facto de não poder jogar. Não porque não quis, em condições normais jogaria muito. Só que as pessoas às vezes pensam que inventamos lesões, que não estamos lesionados e eu tive um problema delicado de joelho e não conseguia jogar.

Cláudio Pitbull no estádio do PSG com Thiago Silva, ex-colega de equipa no Fluminense

Bola na RedeNunca pensaste ser treinador?

Cláudio Pitbull:[risos] Nem pensar…

Bola na RedePorquê?

Cláudio Pitbull: Pensa bem. Estou quase a fazer 40 [anos] e tenho esta cara. Se for treinador, em três anos fico cheio de cabelos brancos. É impossível, não tenho perfil para isso. É preciso gostar dessa área, mas pensa comigo: tens de controlar um balneário com 25 jogadores, os 11 que jogam vão estar felizes, vão estar sete ou oito no banco, que vão ficar brabos e os que não são convocados? É uma situação em que tem de se ter o perfil e gostar daquilo. É uma coisa que nunca me agradou e nem perto me passa isso.

Bola na RedeCom essa tua ideia sobre ser treinador, ficavas com compaixão quando eles tinham de lidar com os teus problemas?

Cláudio Pitbull: Com certeza. É que o jogador reclama muito. Se joga 60 minutos e é substituído, reclama. O que entra 30 minutos reclama e o que não jogou também vai reclamar. Para controlar um balneário é preciso ter liderança e saber como é esse processo. Senão, acabas perdido nesse processo.

Bola na RedeTambém é por causa disso que só tiveste problemas com dirigentes e não com treinadores?

Cláudio Pitbull: Eu já tive problemas com treinadores no Brasil, em Portugal acho que não. Mas o que me indigna é a postura das pessoas. É mais fácil falares a verdade do que ficar a mentir e, no outro dia, falar com o mesmo diretor que mentiu para mim e ele rir-se. Não consigo aturar isso. Seja sincero, diga as coisas e pronto. Agora, sempre a dar tanga, como vocês dizem, e no outro dia dar-me um abraço é uma coisa com que não consigo viver, incomoda-me. Sempre fui frontal e gosto das coisas bem feitas.

Bola na RedeQual foi o jogo que mais te marcou na carreira?

Cláudio Pitbull: Foi na Liga dos Campeões, quando fiz a estreia contra o Inter Milão. Apesar de só ter jogado 45 minutos, foi uma coisa que até hoje me lembro, e o jogo da Taça da Liga contra o Sporting CP.

Bola na RedeDisseste que gostavas muito de viajar. Que viagens tens planeadas para o futuro?

Cláudio Pitbull: Agora não posso viajar muito. Tenho de levar a patroa, fica mais difícil [risos]. Aí ela é que escolhe os destinos. Geralmente, gosto de olhar para um lugar que vi numa notícia, que acho que a cidade é boa e vou. Ia muito a Marraquexe, gosto muito. Ia a Barcelona, muito a Madrid. Tenho muitos amigos que jogam aí, eu ia visitar o Thiago Silva a Paris, vi alguns jogos do Marcelo no Real Madrid CF. Quando dava, ou viajava ou via um jogo da Champions League.

Todas as fotografias usadas nesta entrevista foram retiradas das redes sociais do entrevistado Cláudio Pitbull de forma consentida.

João Reis Alves

Redação Bola na Rede · ver artigos