«A descida da Académica/OAF deixou-me extremamente triste» – Entrevista BnR com Pedro Duarte

    – Moldado pelo contexto –

    «Quando não se ganha, o jogador até desconfia da própria sombra»

     

    Bola na Rede: É mais adepto de uma equipa ao estilo de Simeone ou Guardiola?

    Pedro Duarte: Temos que encontrar um equilíbrio. Quanto mais tornarmos o jogo imprevisível, mais difícil é para o adversário nos condicionar. Acima de tudo, é importante fazermos perceber aos jogadores o que é que eles têm que fazer em determinado momento, em vez de sermos só uma equipa de posse ou uma equipa de transição. Temos que fazer ver aos jogadores que todos os momentos são importantes e eles têm que estar prontos. Gosto quando o jogo se torna diferente. Uma, duas relações curtas e depois meter uma aceleração com um passe vertical. É a forma que temos de surpreender o adversário. Não quero ser conhecido apenas como um treinador só de posse, só de transição ou só de organização defensiva. O nosso papel é fazer ver aos jogadores qual é o momento para as diferentes situações. É preciso ter em conta o contexto, o momento da época, as características dos jogadores ou o tempo de trabalho.


    Bola na Rede: Deduzo por essas palavras que está disposto a alterar as suas ideias em função do contexto.

    Pedro Duarte: As ideias do treinador são fundamentais, mas se me fechar só nelas a probabilidade de ter sucesso vai ser muito pouca. A equipa técnica também tem que ter essas mesmas ideias bem vincadas. É preciso arrumar as gavetas. Há a gaveta das meias, a gaveta das cuecas e a gaveta das t-shirts. No futebol, tenho que ter bem estruturado na cabeça o que quero para o momento defensivo e o que quero para o momento ofensivo. Essa é a ideia do Pedro, mas depois tenho que perceber as características dos meus jogadores. Não temos que fazer o que os jogadores gostam, mas eles têm que estar confortáveis no que fazem. Damos as ferramentas aos jogadores para que eles possam ter confiança para tomar decisões. Depois, o contexto. Tenho que perceber se estou a trabalhar em Portugal, se estou a trabalhar na China, se entro no início da época, se entro a meio. As ideias que tenho, os jogadores e o contexto são três coisas que têm que estar sempre ligadas.

    Pedro Duarte
    Fonte: Académica/OAF

     

    Bola na Rede: Na sua carreira já várias vezes teve que entrar a meio da época. Devido a isso, já alguma vez conseguiu implementar a sua ideia de jogo na plenitude?

    Pedro Duarte: Nunca o conseguimos a 100%, porque a nossa ideia de jogo está em constante crescimento. Durante o ano vão aparecendo dificuldades. Há quase sempre a necessidade de acrescentar mais qualquer coisa ao jogo, porque os adversários começam a conhecer-nos melhor. Entrar a meio condiciona sempre. Entrei em Coimbra, Viseu e Estoril a meio. No entanto, o treinador português é muito forte a preparar-se para as coisas. Temos que fazer um estudo do contexto para onde vamos. Entrei em Coimbra em outubro e vi todos os 11 jogos da Académica/OAF e dos outros clubes. Mesmo assim, o dia a dia traz-nos muitas respostas que não temos. O facto de conhecermos muito bem os jogadores e a equipa permite-nos não ter que passar pela fase de reconhecimento. Quando entramos a meio de um processo, as ideias têm que estar muito claras na nossa cabeça. Numa fase inicial, temos que tentar ser o mais simples possível para, com o tempo, irmos conseguindo implementar coisas diferentes. Como quando há uma mudança da equipa técnica é quase sempre por maus resultados, aproveitamos a motivação dos jogadores, porque, quando entra um treinador novo, o jogador está aberto a ouvir e a fazer as coisas bem para ter a possibilidade de jogar mais vezes. Temos que capitalizar essa abertura dos jogadores sabendo que, quando não se ganha, o jogador até desconfia da própria sombra.

    Bola na Rede: Qual é o primeiro conteúdo de treino que tenta aplicar numa equipa quando entra a meio?

    Pedro Duarte: É percebermos o que são as necessidades da equipa. Este ano, quando entrámos em Coimbra, demos muita importância ao trabalho de finalização individual dos jogadores do setor ofensivo, para se sentirem confortáveis com o golo. Nem era uma questão relativa à dinâmica ofensiva da equipa. Com o tempo, fomos incluindo questões mais específicas ligadas às relações de corredor ou de jogo interior.

    Bola na Rede: Que tipo de dinâmicas não podem faltar a uma equipa treinada por si?

    Pedro Duarte: Em termos ofensivos, uma característica das minhas equipas é a dinâmica de corredores laterais. A ligação lateral/extremo e a ligação lateral/extremo/médio interior. No Académico de Viseu FC fazíamos muito golos de cruzamento atrasado.


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    Francisco Grácio Martins
    Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
    Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.