«Disse ao Diogo Jota que ele levava as chuteiras. O saco ficou no autocarro. Pôs-se a andar» – Entrevista BnR com Mário Felgueiras

    O dia 1 do pós-futebol começou às 8h e terminou às 22h. O antigo guarda-redes conta ao Bola na Rede que não teve tempo de pensar que a carreira tinha chegado ao fim. Dez dias antes, Mário Felgueiras tinha sido anunciado como reforço do Espinho, clube onde deu os primeiros passos como sénior, mas rápido percebeu que não podia continuar a jogar devido às lesões. 2019 foi o ano do encerramento do percurso que começou com uma viagem de Viana do Castelo até à formação do Sporting. Seguiram-se passagens por Sp. Braga, Cluj, Paços de Ferreira, entre outros clubes que marcam um currículo que esteve perto de valer a chamada à seleção nacional.

    «Cheguei ao balneário e disse que o presidente ia dar a cara e dizer que não havia dinheiro. No dia seguinte, chego ao estádio e o presidente foi de férias»

    Bola na Rede: Em que outras atividades tens apostado desde que deixaste de jogar?

    Mário Felgueiras: Já vinha a preparar o que seria o pós-término. Quando jogava em Paços de Ferreira estava na universidade, em Braga. Estou a tirar o curso de Psicologia, ainda não o terminei. Estou também na área da restauração, tenho uma pastelaria, tenho investimentos imobiliários e estou agora na área do agenciamento e intermediação [de jogadores]. Acabei por estar ligado ao Sp. Braga enquanto treinador de guarda-redes dos sub-23, na equipa técnica do Artur Jorge. Também estive um período nas escolinhas do Sporting, em Braga, com miúdos dos cinco aos 12 anos. O treino foi algo que acabei por perceber que não era para mim, é muito exigente.

    Bola na Rede: Não te afastaste totalmente do futebol…

    Mário Felgueiras: A parte do agenciamento permite-me estar ligado ao futebol, mas tenho uma flexibilidade diferente de horários. Desde que deixei de jogar, habituei-me a gerir o meu tempo de forma mais autónoma e o treino condiciona-nos.

    Bola na Rede: Curioso estares ligado ao agenciamento, porque quando vais para a formação do Sporting ainda não estava normalizado os jogadores terem um representante.

    Mário Felgueiras: Quando vou para o Sporting, não é que fosse moda como é agora, mas fui representado pelo Jorge Mendes, pela Gestifute. O facto do Jorge ter crescido em Viana do Castelo, de onde eu sou, e de conhecer os meu pais, acabou por se proporcionar. Foi na altura em que o Jorge estava a começar a crescer. Fui sempre agenciado pela Gestifute até ir para a Roménia, aí já mudei de empresário. 

    Bola na Rede: Enquanto agente estás mais virado para algum mercado em particular?

    Mário Felgueiras: Mais mercados de Leste, por onde andei. Roménia, Hungria, Turquia, Polónia, mais nesses mercados. Não propriamente com jogadores mais jovens. O facto de falar romeno e inglês permite-me ser mais abrangente.

    Bola na Rede: Tens uma carreira onde jogas na Liga Europa, jogas na Liga dos Campeões, jogas na Primeira Liga, jogas em Portugal, jogas no estrangeiro… Há sempre coisas para conquistar, os jogadores querem sempre mais títulos, mas a tua carreira parece o protótipo ideal. Era isto que imaginavas quando deixaste Viana do Castelo para ires para o Sporting?

    Mário Felgueiras: Quando saio de casa, foi algo normal. Não pensava em ser jogador profissional. As coisas foram acontecendo naturalmente. Ganhei o prémio de melhor guarda-redes do Torneio Lopes da Silva. O facto de ter ganho esse troféu permitiu-me entrar na seleção sub-15 no ano a seguir. Chegou a um momento em que fui para Lisboa e já ia com contrato. Nunca fui aquele miúdo de me deitar à noite e imaginar. 

    Bola na Rede: Tinhas outros passatempos nessa altura?

    Mário Felgueiras: Adorava futebol e jogava na escola. Jogava na baliza, à frente, onde fosse, mas não era assim aquela coisa… Se calhar, pensava que era impossível [ser profissional]. Já lá vão 22 anos. Hoje em dia, parece que Viana do Castelo – Lisboa é rápido, mas a internet e as redes sociais permitiram encurtar muito as distâncias. No meu tempo, ir a Lisboa era uma coisa… tínhamos que pensar muitas vezes para ir a Lisboa.

    Bola na Rede: Viana tem dado alguns jogadores ao futebol nacional recentemente, como o Trincão ou o Pedro Neto. Tinhas alguma referência geograficamente próxima de ti?

    Mário Felgueiras: O Tiago [Mendes, antigo jogador de clubes como o Atlético Madrid e o Benfica] estava a começar a aparecer. Havia também o Sérgio Lomba, que passou pelo Gil Vicente e depois foi para Espanha. Não tinha muitas referências. Hoje, os miúdos de Viana crescem com os Trincões, com os Pedros Netos, há sempre essa proximidade que no meu tempo não havia. Tinha mais referências no panorama nacional e internacional. 

    «Se calhar, preferi dormir mais e ir de férias em vez de ficar a treinar. Não me posso queixar de nada»

    Bola na Rede: Quando paraste de jogar foi uma situação desesperante por deixares de ter o calor do balneário ou foi uma transição tranquila?

    Mário Felgueiras: Deixo de jogar pelas lesões que tive e a verdade é que estava de tal forma ocupado com tantas coisas extra futebol que quase não senti. Estava cansado e massacrado daquilo que era a exigência e a pressão do futebol. Estava até a precisar de parar. Recordo-me que, no dia a seguir a ter decidido deixar de jogar, acordei às 8h e cheguei a casa às 22h estafado e já com uma série de coisas para fazer. Nem tive tempo para perceber que tinha deixado de jogar. Acho que me caiu um bocadinho mais a ficha no período da Covid-19. Fui ver um jogo da Taça da Liga, em Braga, e a parte do aquecimento, de ver os guarda-redes, fez-me sentir nostalgia por não voltar mais a fazer aquilo. Não senti saudades do jogo, mas das rotinas, do balneário e do dia a dia. Passou-me rápido. 

    Bola na Rede: Quando foste para o Espinho pensaste que conseguias conciliar o futebol com todas as outras atividades?

    Mário Felgueiras: A ida para o Espinho foi muito emocional. Eu sentia que tinha que ajudar o Espinho. O Espinho ajudou-me numa fase muito importante da minha vida, que foi nos meus dois primeiros anos de sénior. O Espinho tem mística. É um clube que tem qualquer coisa de diferente. O presidente do Espinho [Bernardo Gomes de Almeida] tem os escritórios em frente a um dos meus espaços e havia essa proximidade. Também tinha o Diogo Valente, que jogava no Espinho, sempre a chatear-me. O Pepito, que é fisioterapeuta, mas anima aquilo tudo, também me estava sempre a chatear. Quase que senti que era o mínimo que podia fazer, porque eles me tinham ajudado. Rapidamente percebi que não estava em condições físicas para o fazer e não queria enganar ninguém. Sabia que estavam a fazer um esforço para eu poder estar lá. Não queria defraudar expectativas. Mesmo perante os meus colegas, não ia ser correto estar lá um ano quando não podia ajudar de forma alguma. 

    Bola na Rede: Nesse início de carreira que mencionaste, encontras no Espinho o Vítor Pereira. Ele estava a dar os primeiros passos ao nível do treino. Já era tão carismático naquela altura como acaba por ser hoje em dia?

    Mário Felgueiras: Ele era uma pessoa de Espinho e acredito que houvesse ali uma pressão extra. Ele estava a começar e vinha da formação do FC Porto. O mister Vítor Pereira conhecia-me por eu ser do Sporting. Foi um treinador que me marcou positivamente. Aprendi muito com ele. Tinha uma personalidade forte, sabia gerir bem o balneário, até porque tínhamos jogadores experientes, muitos deles em final de carreira. Foi sempre um treinador que se impôs pelas ideias que tinha e pela personalidade forte e vincada. Já marcava posição também por causa disso. 

    Bola na Rede: Por vezes, a irreverência dos treinadores confunde-se com distanciamento dos jogadores. É isso que acontece ou, pelo contrário, é uma confiança que se cria e gera algum à vontade?

    Mário Felgueiras: Acredito que os grandes treinadores se distinguem pelo conhecimento que têm e, ao transmitirem isso aos jogadores, ganham a confiança deles. Os jogadores sentem que estão a evoluir. Depois, é de serem líderes, de serem carismáticos. Isto é o ideal. Um bom treinador tem que ser líder por natureza e tem que ter conhecimento. Há treinadores que têm muito conhecimento, mas não conseguem passar uma mensagem e meter os jogadores a remarem todos para o mesmo lado. Por outro lado, há treinadores que não têm assim tanto conhecimento, mas são líderes e, seja a ideia que for, conseguem que todos os jogadores a sigam e, às vezes, conseguem-se grandes resultados com isso. 

    Bola na Rede: Para um jogador vindo de uma formação de topo, cair na Segunda Divisão B podia ser visto como uma entrada em declínio. Viste esse passo como uma oportunidade ou pensaste que podia ser negativo para a tua carreira?

    Mário Felgueiras: Os miúdos hoje em dia têm um espaço maior de desenvolvimento quando terminam a formação. No meu tempo, havia a equipa B, mas terminou. Muitos de nós ficámos sem saber o que ia ser o nosso futuro. Tínhamos sido inclusive campeões europeus [por Portugal, no escalão sub-17]. Tirando o Moutinho, que já estava na equipa A, todos saímos para rodar. Eu, o Miguel Veloso, o Yannick, o Saleiro… Era um processo normal. Era difícil entrar na Segunda Liga, quanto mais na Primeira. Todos fomos para a Segunda B. Era normal. Claro que abala a nossa confiança. Uma pessoa pondera tudo, se vale a pena, se não vale a pena. Passo de fazer a pré-época com a equipa A do Sporting para uma Segunda B, onde nem jogava. 

    Bola na Rede: Quando te mudas para o Sp. Braga sentiste que era a oportunidade de te juntares ao quarto grande, tendo em conta o desenvolvimento que o clube estava a ter naquela altura?

    Mário Felgueiras: Faço uma boa época em Portimão e acaba por surgir o interesse do Sp. Braga. Tinha noção de que quem ia jogar ia ser o Eduardo. Depois, ainda estava o Pawel Kieszek. Sabia que ia ter que esperar pela minha oportunidade. A verdade é que, nesse ano [2008/2009], consegui superar as minhas expectativas, porque o Jorge Jesus, a certo momento da época, começa a levar-me para o banco em detrimento do Kieszek. Entrei no jogo contra o FC Porto [10 minutos na última jornada] e senti que podia ser aposta, caso o Eduardo saísse. No ano a seguir, o Jorge Jesus sai para o Benfica e eu saio para o Vitória FC, de Setúbal.

    Bola na Rede: A relação entre os vários guarda-redes das equipas onde passaste foi sempre boa ao longo da tua carreira?

    Mário Felgueiras: Não vou dizer que foi sempre boa. É um assunto delicado e complexo. Não deve haver dois galos para o mesmo capoeiro, se não, os galos chateiam-se. Deve haver uma certa hierarquia. Não quer dizer que, com os desempenhos, não possam haver alterações. A conversa de que partem todos do zero não funciona. A questão dos guarda-redes deve ser gerida de forma cuidada para não dar azo a que as relações possam ficar estragadas. O Eduardo é um bom exemplo, hoje em dia é um dos meus melhores amigos, é uma pessoa que admiro muito. Merece aquilo que conquistou e eu ficava genuinamente contente pelos sucessos dele. Claro que, não vou mentir, há colegas que têm comportamentos com que ficamos mais incomodados. A angústia de não jogarmos leva-nos a ter comportamentos com que não nos identificamos. 

    Bola na Rede: Quando foste jogar para o estrangeiro, dizeres que tinhas formação do Sporting conferia-te tanto estatuto como em Portugal?

    Mário Felgueiras: No estrangeiro, não me posso queixar das relações que tive com os meus ex-colegas, porque chego ao Brasov [por empréstimo do Sp. Braga] e somos dois guarda-redes, eu e o Hélder Godinho. À partida, já se sabia quem ia jogar. O Hélder foi impecável comigo. Joguei os jogos todos, da taça e do campeonato, e ele sempre foi impecável. Obviamente, ele estava triste, porque não jogava, mas dizia-mo de forma genuína. Depois, o Cluj compra-me ao Sp. Braga. Por coincidência, o Beto sai do Cluj e vai para o Sp. Braga e eu saio do Sp. Braga e vou para o Cluj. O Cluj deu-me um contrato de cinco anos, portanto, à partida, era para ser eu aposta e as coisas correram muito bem. Na Turquia, o limite de estrangeiros era ainda mais reduzido. Para gastarem a vaga de um estrangeiro com um guarda-redes, só se as coisas corressem muito mal é que não ia jogar. Os guarda-redes têm uma proximidade diferente. Somos menos e os treinos são sempre feitos entre nós. Não é tão fácil lidar com as expectativas. Admirava-me com guarda-redes [suplentes] ficavam contentes quando a equipa ganhava e o guarda-redes que jogava defendia três penáltis e marcava um golo. Respeito, mas, se fosse eu, ficava triste. Quer dizer, a equipa ganha e eu não consigo participar? Não é desejar mal a ninguém, mas, no fundo, é termos a motivação de estarmos lá dentro de fazermos parte daquela história.

    «A única camisola que troquei foi com o Yann Sommer.
    Ele pediu-me no final do jogo»

    Bola na Rede: Foi no Cluj que viveste os melhores anos da tua carreira? As estatísticas dizem que sim.

    Mário Felgueiras: Foram os anos em que me senti melhor, onde me senti mais preparado para todo o tipo de situação e de contexto. A verdade é que, da mesma forma que me senti no topo, também me senti muito constrangido e débil. Quando saio do Cluj, saio da pior forma possível, o clube entra em insolvência. Na altura, era o capitão de equipa e entro em litígio com o clube. Perdi muito dinheiro. Acredito que a lesão que tive na Turquia foi reflexo dos últimos meses que tinha passado na Roménia. A partir daí, nunca mais me consegui recompor. Hoje, olho para trás com uma clarividência total em relação a isso: o Cluj deu-me o melhor e o pior que podia ter tido.

    Bola na Rede: Estamos a falar de situações de salários em atraso. Enquanto capitão tiveste que dar a cara pelo grupo?

    Mário Felgueiras: Antes de começar situação da insolvência, no verão, tenho a oportunidade de me mudar para o Steaua Bucareste. Interpelei o patrão, porque já sentia que de vez em quando os salários atrasavam. Na Roménia era normal, mas para o Cluj comecei a perceber que havia ali falta de investimento, também pelos jogadores que estavam a trazer. Falei com o patrão e ele disse que ia realmente fazer uma limpeza, mas que me queria manter a mim e que íamos voltar a ser o que tínhamos sido quando conseguimos ir à fase de grupos da Liga dos Campeões [2012/2013]. Saio da reunião motivado e a pensar que ia ser bom para mim. Perdemos as pré-eliminatórias da Liga Europa nesse ano [2014/2015] e foi o descalabro. Ele devia estar a contar com esse dinheiro. Chegámos a novembro em segundo lugar, ainda na taça, e havia colegas que tinham quatro, cinco meses de salários em atraso. Comigo não se atrasavam tanto, porque tinham medo que eu pudesse sair livre. Isso criou mal-estar no balneário, porque pagavam a uns e não pagavam a outros. Sempre tentei manter o pessoal unido. Dizia-lhes que se rescindíssemos naquela altura não íamos para casa fazer nada. Para isso, jogávamos até dezembro e íamos buscar o dinheiro mais à frente. Falei com o presidente do clube e disse-lhe que mais valia ir ao balneário dizer que não havia dinheiro do que estar a dizer que ia pagar. Eu depois tentava motivar os meus colegas. Ele disse-me que ia ao balneário dizer isso. Cheguei ao balneário, disse que tinha falado com o presidente e que ele ia dar a cara para dizer que não havia dinheiro. No dia seguinte, chego ao estádio, vou à secretaria e o presidente foi de férias. Fiquei eu numa situação delicada.

    Bola na Rede: Foste posto em causa pelo grupo…

    Mário Felgueiras: Claro… Nessa altura, o clube ainda não estava em insolvência. A mim diziam-me sempre que o clube não ia entrar em insolvência. Quando volto para Portugal, o clube faz o pedido de insolvência. Perdemos todos muito dinheiro.

    Bola na Rede: Essas conversas com os colegas eram em romeno? A adaptação ao país foi fácil?

    Mário Felgueiras: Foi fácil. No primeiro ano na Roménia estive sozinho e sempre tentei aprender para me adaptar mais rápido. Depois, senti que não havia mais condições. Acabei por ser o único a meter a carta [para a rescisão] e alguns dos jogadores até continuam lá. No fundo, passei a imagem de que era eu que queria criar ali uma revolta. 

    Bola na Rede: Apesar de tudo, é no Cluj que vives os melhores momentos em termos desportivos. Aquela vitória em Old Trafford foi o ponto alto?

    Mário Felgueiras: Essa história também é muito gira, porque tem a ver com os pagamentos. Nós vamos ganhar ao Manchester United e não podemos celebrar nada, porque não conseguimos seguir para os oitavos quando ao intervalo estávamos qualificados, porque o Galatasaray estava a perder em Braga. O patrão prometeu-nos um prémio se ganhássemos ao Manchester United e quando ganhámos disse que o prémio era para se passássemos na Liga dos Campeões. Aquilo era uma risota. Todos os anos se celebra na Roménia essa vitória. Foi pena não termos conseguido seguir em frente. Fizemos uma fase de grupos espetacular para as condições que tínhamos. Foi algo impensável. É uma daquelas vitórias de que nunca me irei esquecer.

    Bola na Rede: Encontras o Nani, com quem tinhas partilhado a formação, nesse jogo. Foi com ele que trocaste a camisola ou guardaste essa para ti?

    Mário Felgueiras: Nesse jogo, não troquei camisola, guardei-a para mim. Já tinha estado com o Nani quando eles foram a Cluj. Em Old Trafford, não troquei. Por norma, não tinha muito essa coisa das camisolas. As camisolas que tenho de colegas são de amigos meus. A única camisola que troquei foi com o Yann Sommer. Na altura jogámos contra o Basileia e ele pediu-me no final do jogo.

    Bola na Rede: Nesse ano da Liga dos Campeões, venceram duas vezes o Sp. Braga, clube do qual te tinhas desvinculado em definitivo. Acaba por ser um pouco irónico após não teres tido uma verdadeira oportunidade no Minho…

    Mário Felgueiras: Foi giro. O Sp. Braga é um clube que me diz muito. Mas a verdade é que saí um bocadinho magoado, porque, na altura, sou emprestado ao Rio Ave e sou chamado de volta, porque o Quim lesiona-se e o Sp. Braga tinha acabado de vender o Kieszek. Então chego eu e o Artur Moraes praticamente no mesmo dia. Tinha feito um jogo amigável contra o Sp. Braga e no dia a seguir apresento-me para treinar pelo Sp. Braga. O Artur vinha de férias e ainda não estava em condições. Jogo a terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Faço os dois jogos e ganhamos em Braga [contra o Celtic, 3-0] e perdemos em Glasgow [1-2]. Depois, o Sp. Braga ia jogar com o Sevilha e foram buscar o Felipe. Os jogos correram-me muito bem. Acabo por voltar ao Rio Ave emprestado e é uma época que me corre mal e até perco o lugar para o Paulo Santos. Quando fui jogar a Braga [com o Cluj], foi um bocadinho aquela vingança do género “vou-vos mostrar que tenho capacidade para jogar na Liga dos Campeões e a um nível alto”. O Beto saiu do Cluj e vai para o Braga e é o Beto que joga no Sp. Braga nesses dois jogos. Primeiro jogo da fase de grupos, em Braga, a jogar praticamente em casa, com família, amigos… não vou mentir, foi uma vitória que soube mesmo muito bem [0-2]. Foram 20 e tal remates à baliza e não sofri nenhum golo, foi um massacre total [risos].

    Bola na Rede: Chegaste a pensar na seleção nacional nessa altura?

    Mário Felgueiras: Chegou a ser assunto. Inclusivamente, cheguei a ser pré-convocado. Era o Paulo Bento o selecionador, que me conhecia do Sporting, tinha sido meu treinador nos juniores. Ele chegou a ir à Roménia. Sendo que o Beto foi chamado à seleção através do Cluj, eu também achava legítimo ser chamado à seleção. Nunca se proporcionou.

    «Admirava-me com guarda-redes [suplentes] que ficavam contentes quando a equipa ganhava e o guarda-redes que jogava defendia três penáltis e marcava um golo. Respeito, mas, se fosse eu, ficava triste. Quer dizer, a equipa ganha e eu não consigo participar?»

    Bola na Rede: És uma pessoa de beber a cultura dos sítios onde estás ou és mais caseiro?

    Mário Felgueiras: Sempre me quis integrar da melhor maneira possível e acho que uma das melhores formas que temos é a língua. Sempre peguei no carro e fui viajar, conhecer. Adoro esse tipo de viagens. Fazia muito isso com a minha mulher. Conhecemos zonas muito giras na Turquia. Na Turquia também tentei aprender a língua, mas como me lesionei passada uma semana, não estava tão motivado, ou seja, estava mais preocupado com a minha recuperação do que em aprender turco. No Chipre acontece o mesmo: lesiono-me e estive lá cinco meses. O grego era uma língua que queria aprender, acho uma língua diferente. Sempre gostei de me embrulhar na cultura dos países. 

    Bola na Rede: Sentiste algum choque cultural fora do campo?

    Mário Felgueiras: A Roménia é parecida connosco, é Portugal há vinte ou trinta anos. É um país com muito potencial, é muito mais do que aquilo que falamos da Roménia. Na Turquia, vivi em Konya que é, se calhar, a cidade mais tradicional, mas não tenho razão nenhuma de queixa. No Chipre, é tudo para amanhã, hoje não se faz nada. Está sempre calor. Muitos esquemas, muitas histórias… Querem é boa vida, um bocadinho ao estilo grego. 

    Bola na Rede: Notaste desorganização no Chipre?

    Mário Felgueiras: Muita nestes três países. Por isso, é que não conseguem atingir outro nível. O chicoespertismo prevalece sempre. É cultural. Na Roménia, precisava de ir às finanças e lá não há senhas, é estar na fila de espera. Às vezes, uma pessoa olha para o lado e já passaram cinco pessoas. 

    Bola na Rede: Quando deixas o Konyaspor e vais para o Paços de Ferreira estava lá um miúdo de 19 anos chamado Diogo Jota que explode naquele ano.

    Mário Felgueiras:  Naquela altura, estava a fazer tratamento e só via o treino às vezes. O diretor desportivo disse-me para eu pôr o olho naquele miúdo e lhe dizer o que é que achava. Claramente, já se via o que é que aquilo ia ser. Mais do que as capacidades técnicas e físicas, era a personalidade dele. Ele tem uma personalidade vincada, assim mais reservado, mas que não se deixa calcar, tem muita confiança nele, muito profissional, humilde. Via-se que era um miúdo focado. Distinguia-se dos outros pela forma como ele era concentrado. Havia uma altura no Paços em que, por ser um clube mais humilde, para levar as chuteiras para o jogo tinha que se dividir uma mala, isto é, cada dois jogadores tinham uma mala. Então, o acordo entre o pessoal era que um levava a mala para o autocarro e, a voltar do jogo, a outra pessoa trazia o saco. Para picar o Jota, disse-lhe que ele comigo levava o saco e trazia. E ele disse-me: “Vais ver…“. A verdade é que o saco ficou lá no autocarro. O Jota pôs-se a andar e não trouxe o saco. Obrigou-me a ser eu. Ele não cedeu e acabei por ter que ir buscar o saco.

    Bola na rede: Desportivamente, consideras que fizeste tudo o que idealizastes na tua carreira?

    Mário Felgueiras: Ficou muita coisa por fazer, mas não me arrependo de nada do que fiz. Se pudesse voltar atrás, havia muitas coisas que tinha feito, havia coisas que tinha feito de forma diferente. Foram opções que fui tomando. Se calhar, preferi muitas vezes descansar mais do que trabalhar. Se calhar, preferi dormir mais e ir de férias em vez de ficar a treinar. Não me posso queixar de nada. 

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    Francisco Grácio Martins
    Francisco Grácio Martinshttp://www.bolanarede.pt
    Em criança, recreava-se com a bola nos pés. Hoje, escreve sobre quem realmente faz magia com ela. Detém um incessante gosto por ouvir os protagonistas e uma grande curiosidade pelas histórias que contam. É licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e frequenta o Mestrado em Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social.